jul
24
Posted on 24-07-2010
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 24-07-2010

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Vó Maria, viúva de Donga chefe da Polícia, no abraço de Fernando Pamplona do Salgueiro. De vermelho, o agora saudoso Fausto Wolf, o lobo do uísque. De blazer, o escritor Arthur José Poerner entre o chargista Chico Caruso e ao fundo o sorridente anfitrião João Sérgio Abreu, que é produtor cultural. De dedo em riste, o poeta Tavinho Paes. A foto é mais uma de uma documentação antropológica das bivandas da vida, na Plataforma, Leblon…
(DEU NO CORREIO DA LAPA)
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CRÔNICA/ MULHER-RIO

VÓ MARIA E AS MULHERES FORTES

Maria Aparecida Torneros

A noite da Lapa, uma quinta-feira, a voz entusiasmada da “coleguinha” que nos emociona sempre: Tania Malheiros. O samba corre solto, de Carmen Miranda a Donga, quando Vó Maria sobe ao palco e canta junto com a Tania, o primeiro samba gravado oficialmente, “Pelo telefone”. Ela é uma mulher forte, tem 99 anos, viúva de Donga, plena de bênçãos, aplaudidíssima, nos comove, intensamente.

Um momento memorável, claro, um presente de Deus, como declarou Tania, enquanto sambávamos e curtíamos mais uma noite na Lapa carioca. Aí, cerca de meia-noite, cedo ainda, voltei pra casa, como uma Cinderela, pensei antes de que meu táxi virasse “abóbora”, que faço parte do elenco dessas mulheres fortes.

Durante o show, comemoramos o aniversário da Eliane, jornalista e fotógrafa, a que escala pedras e montanhas, nas horas vagas, mãe da Maria Clara, adolescente que vi pequenininha, e que já começa a trilhar os caminhos femininos da independência. Reencontrei muitas outras amigas de profissão e de vida, o momento era de confraternização, algumas eu conheço há 40 anos, como a Sandra Chaves, intensa e presente, ou a Gloria, que me avaliou com lucidez o fim do Jornal do Brasil, ali, no calor da música, com a consciência de uma profissional responsável. Sonia, uma ex-aluna de faculdade e colega de tantos momentos de trabalho, Beth, antiga companheira de muitos percursos na estrada do jornalismo, Sandra Peleias, outra que dividiu comigo diversas incursões no mundo tanto da comunicação como da política.

E na berlinda, nos coroando com sua Luz, Vó Maria, ao lado de Tânia Mallheiros, cantando: O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar!

Já em casa, lembrei mais, de uma outra mulher forte que me cantava essa música quando eu era menina e me contava que nos idos de 1911 e 12, ela ia dançar junto aos brasileiros, na praça XI, exatamente esse samba.

Minha avó Carmen Torneros, que chegou da Espanha em 1910, se reunia aos imigrantes para aprender sobre a cultura brasileira e o tal lugar era reduto dos afro-descendentes, que iniciavam um movimento chamado oficialmente de “samba”, o qual atraía portugueses, espanhóis, italianos, etc, para miscigenar histórias e sentimentos, num Rio de Janeiro que era a capital do Brasil, no início do século XX.

Prazer inenarrável participar do show da Tania na noite da Lapa, exatamente, numa quinta-feira, 22 de julho, com a presença de Vó Maria e tantas outras mulheres fortes…

Cida Torneros é jornalista e escritora. Mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

 

jul
19

Viviani: filosofia e vida

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Viviane Mosé e Roberto Dávilla no Canal Brasil

Maria Aparecida Torneros

Quando sintonizei o programa, no domingo à noite, já ia no meio, perdi grande parte. Entretanto, o que pude assistir, valeu como sensação feliz para idéias bem conduzidas e conversa tecida em conjecturas saudáveis, já que nas tevês de canal aberto, chega a ser praticamente exceção um assunto tão fascinante: a filosofia. Ela é filósofa com penetração midiática,já fez parte de quadro fixo no Fantástico, consegue explanar os labirintos do pensamento humano com facilidade para quem é neófito nos ditames das questões investigativas do mundo da filosofia e suas histórias.

O bate-papo, correndo solto, foi tocante, quando se referiu à educação no Brasil, chamando atenção para a baixa qualidade do ensino, e a necessidade de transformação, muito além da reforma, segundo Viviane. Ela relembrou que o pensamento racionalista que impera na sociedade ocidental começou a ser organizado no século V antes de Cristo, preconizando um homem formatado à luz da concepção de que seu pensamento é superior ao seu corpo.

Exemplos como o de uma professora de crianças de uma escola que ela visitou no Espírito Santo, que se questionou porque ensinar sobre flores, desenhando no quadro e não visitando o jardim, foram usados por Viviane para mostrar o quanto a nossa formação se baseia na dissociação do racional diante da emoção. Pensar é valorizado muito mais do que sentir, segundo observação generalizada, mas o conteúdo maior da entrevista reside justamente no encontro de dois bons interlocutores, conseguindo passar suas impressões de viajantes do seu tempo, adentrando por caminhos de extrema reflexão e intensa interrogação.

No domingo seguinte( próximo, dia 25) haverá o prosseguimento da entrevista. Vale conferir e interagir com idéias da filósofa antenada com o dia-a-dia da população, ao ser entrevistada por um profissional experiente na arte de questionar “cabeças pensantes”. Momento raro da comunicação televisiva nacional, pela oportunidade de nos afastar de notícias criminosas, ou assuntos tediosos que geralmente infestam a grade de transmissão em horário nobre.

Um encontro com Viviane Mosé, através do diálogo com o Roberto, incluiu até uma boa “sacação” sobre a sociedade brasileira, que é a da anti-segregação, o que ela sintetizou muito bem, com a esperança positiva de que o Brasil possa ainda exemplificar para o mundo o que é uma nação resultante de mistura racial, com sucesso, afinal.

Esperemos a continuidade da conversa afiada nas lâminas de boa dose de inteligência e sagacidade, de entrevistada e entrevistador, para nossa condição de espectadores privilegiados, ainda bem, para compensar tanto “caso Bruno”, caso “Bispo”, etc e etc.

Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

jul
10
Posted on 10-07-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 10-07-2010

Eliza Samúdio: a vítima

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CRÔNICA/ MULHER

LÁGRIMAS POR ELIZA

Maria Aparecida Torneros

Confesso que chorei. Na madrugada desta sexta-feira, depois de ter “convivido” com o caso Bruno, através do noticiário intenso a que a sociedade brasileira está sendo submetida, senti-me tão sofrida quanto qualquer ser injustiçado, vilipendiado, ofendido, violentado, agredido, física, moral, psicologicamente, como se fora uma criatura de menor porte, num mundo ainda machista, preconceituoso, atrelado a valores em que sexualidade e dinheiro caminham juntos e se complementam com barbáries, ou com imensa injustiça.

Considerando que há uma pseudo rede de proteção legal que se rompe, fragilmente, no que diz respeito à seriedade com que se deve encarar fatos que generalizam e vulgarizam as mulheres brasileiras, em tese, em universalidade, em desigualdade de condições, em desgraça ou desrespeito, em agressão ou descrédito, em condicionamento vil, estado pueril, imagem clara do absurdo número de queixas ( 270 MIL) nas delegacias de atendimento a mulheres, só no ano em curso, no Brasil, o que representou um aumento de 95 por cento em relação ao ano anterior.

Uma Senadora da República, no dia 9 de março, em discurso no Congresso, alertou e protestou para as declarações do goleiro Bruno acerca das mulheres. De que adiantou? A história seguiu seu curso de tragédia anunciada, a mulher reclamante, na época ainda grávida, teve o filho que não abortou, foi submetida a crueldade por parte de um grupo de pessoas que compactua, socialmente, para romper a cadeia legal que deveria proteger direitos e salvaguardar a vida humana, sua dignidade e sua indiscutível chance de elevar a voz e clamar por justiça.

A mulher Eliza Samudio, vítima, agora passa, como tantas outras já passaram, da condição de morta para a condição de ré, praticamente, julgada por aqueles que, infelizmente mantém o ciclo absurdo da opressão à liberdade de viver a que as mulheres não só tem direito, como vem lutando para conquistar e consolidar há mais de uma centena de anos.

A modelo Eliza, a amante Eliza, a ex-atriz pornô Eliza, a namorada Eliza, a reclamante Eliza, a grávida Eliza, a sequestrada Eliza, a massacrada Eliza, a assassinada Eliza, a mãe Eliza, mãe de um menino chamado carinhosamente por ela de “Bruninho”, ironia do destino que a fez nomear o menino em homenagem a um pai biológico que, segundo o andamento das investigações, parece ter sido o próprio algoz da infeliz mãe de um filho seu.

Que circunstâncias e valores afetivos, morais, sociais, podem levar a comportamentos tão bárbaros? Conjuguem-se mundos como o do futebol, da dinheirama que por ali corre, do submundo da prostituição e da droga, da ausência de família organizada, nada disso justificaria torturar ou matar um semelhante, ainda mais alguém que em algum momento esteve em nosso abraço, ou fez parte de algum arremedo de carinho. Mas, como imaginar que encontros fortuitos, regados a intensa sensualidade estariam providos ou desprovidos de carinho? O afago humano é uma bênção para a manutenção da existência, o toque pode ser a luz para que a vida se prolongue, numa cama de hospital, o olhar compassivo é prêmio para uma alma carente, uma criança abandonada ou um ancião solitário no fundo de um asilo.

Nada disso, entretanto, é suficiente, parece, para conter uma animalidade desenfreada, quando se desprotege uma cidadã, mulher, jovem, mãe, que teria em algum momento confiado na justiça do seu país, e, cujo exame comprobatório da tentativa de fazê-la abortar, só teve seu resultado providenciado quando ela já não mais respirava, e seu filho, como uma teimosia da natureza sábia, permanece vivo para um dia aprender sobre os homens, a injustiça, seu próprio calvário, resgatar sua caminhada, crescer, viver e realizar alguns dos sonhos que Eliza deve ter tido para ele, e que não foi premiada com o direito de criar o seu bebê, ou de lutar, em termos legais pela criação do seu “Bruninho”.

História triste, confesso que chorei. O respeito é o que a memória de Eliza merece agora. Respeito e cumprimento das leis. Cadeia para os seus algozes, conscientização da sociedade brasileira para uma doença que nos assola: o rompimento inaceitável da rede de prodeção para as mulhers vítimas de violência.

Cida Torneros , escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

maio
09
Posted on 09-05-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 09-05-2010


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CRÔNICA/MÃES

Mulheres-mães

Aparecida Torneros

Dia de mulheres-mães. Será que todas, mães biológicas ou não, já nascem com o gen especial da tal maternidade?

Sempre achei que tem mãe de verdade, de brincadeira, de mentira, de coração, de hora do recreio, de cama de hospital, de carteira da escola, de fila do cinema, de beira de estrada, de cama vazia, de peito aberto, de peito farto, de peito seco, de sonho incompleto, de sonho desfeito, de sonho realizado, de sorte na vida, de perda e superação, de saudade e história, tem até mãe de guerra sem paz e de praça de maio, ou melhor, tem avó, tem mãe duas, três vezes, se precisar, tem mãe multiplicada, multifacetada, aquela capaz de aparecer na imaginação do menino abandonado na rua, ou na mente da criança que vive no abrigo mas que nunca esqueceu do seu cheiro antigo.

Mãe tem enredo e tem memória, no coração de qualquer um, e tem muita mãe na porta do presídio para levar comidinha gostosa na visita de domingo. Não importa o erro de um filho ou filha, o que fica é o instinto de proteção, esse vale uma vida inteira, e mãe de sangue ou de criação, de barriga ou de afinidade, carrega a bravura de defender a cria, tem mãe que morre se pondo na frente da bala dirigida ao rebento. Algumas se lançam no mundo pra ganhar dinheiro, sustentar, dar o pão e a casa, prover a família, nem sobra tempo pra elas mesmas. Mas tem as que nem conseguem viver o sacrifício e doam seus bebês, com a certeza de que serão melhor cuidados por outras mães e pais. Essas, naturalmente sofrem a vida toda, nos instantes de auto-resignação e se consolam com a lembrança de algum pequeno instante em que suas crianças estiveram nos seus braços ou sugando seus seios.

Vida bandida, vida perdida, vida dura e traiçoeira, quando afasta mães e filhos, por necessidade, por maldade, por guerra, por viagem, por doença, por morte, por tanto senão, e tanta razão que nem tem porquê.

Mulher-mãe é toda mulher, mesmo sem ter tido filhos, tem sempre crianças que cruzam seu caminho e pedem colo. Um bebê pode ser até um homem de 40 anos, quando ele deita e pede chamego, freudianamente querendo colo de mãe, já crescido e criado, precisando crescer depois de crescido…

Histórias de mães são todas sentimentais, quase sempre. Mas tem as de finais felizes e bons resultados de criação dedicada, assim como há os relatos de superação pra tantas asperezas do mundo cruel, e lá se vê a figurinha de alguma delas, as tais mães postiças ou reais, as que tem palavras doces nas horinhas certas, e que emitem conselhos ásperos nas vezes necessárias. Elas esbanjam carinho e força, e escondem fraqueza e medo, dentro da geladeira, no fundo das suas cozinhas, ou na beira dos tanques, ou debaixo dos chuveiros, lá estão as taizinhas, se permitindo chorar, nunca na frente dos filhotes que precisam amadurecer, apesar de tudo.

Mães são mulheres especiais, aliás, as mulheres é que se fazem mães em ocasiões especiais. Mães que são médicas e adotam pacientes em leitos de hospitais, num pacto sigiloso. Mães que são garotas de programa e embalam marmanjos chorões em segredos que ficarão guardados pro resto da vida. Mães que são professoras confessoras que ouvem os conflitos de alunos sem rumo. Mães que são policiais encarregadas de corrigir detentas, mães que são psicólogas, jornalistas, costureiras, manicures, cabeleireiras, taxistas, e no seu ofício diário, têm sempre uma palavra amiga, um ouvido atento, um jeito maternal de acolher súplicas e lamúrias ou dividir alegrias e contentamentos.

Mulheres se confundem enquanto mães ou criaturas predestinadas a abraçar carinhosamente qualquer um de nós. Seus olhares são tão especiais e suas presenças tão ansiadas. Mãe é mãe, claro, ela sobrevive intensa e internamente em cada fêmea de qualquer idade, em cada cultura, ao seu modo, com peculiar desempenho e eterna doação de vida.

Cida Torneros, jornalista , escritora, mãe e colaboradora e amiga de primeira hora do Bahia em Pauta , mora no Rio de Janeiro onde edita o Blog da Mulher Necessária.

Cida Torneros

maio
08


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CRÔNICA DE CINEMA

OS SEGREDOS DE UM GRANDE FILME

 Aparecida Torneros

Custei a ver o filme premiado com o Oscar de melhor estrangeiro. Li algumas boas críticas, adiei, e finalmente, fui , incentivada pelo meu terapeuta, que me avisou sobre um personagem importante no enredo: uma porta.

Ao me envolver pela trama policial e pelo romance, percebi-me tensa e racional. A doutora Irene, que sempre deixava a porta da sua sala aberta, diante do olhar apaixonado do seu subalterno perito judicial, um obstinado que detecta o segredo de um criminoso, exatamente pelo olhar que está presente em várias fotos antigas da vítima, apresentadas pelo marido viúvo, inconformado pela violência do assassinato da linda mulher amada.

Durante toda a exibição prestei muita atenção aos personagens, seus olhares fortes, profundos, as mazelas emocionais que, injustamente, percolam as portas da justiça, os dramas pessoais, de quem exerce profissão de descobrir, prender, interrogar, perseguir ou julgar alguém que mata alguém, e, segundo as leis da Argentina, devia ser condenado à prisão perpétua.

Vi que a vida transcorrida nos 25 anos de história por que passam os protagonistas do enredo, muitas são as prisões em que se enclausuram, desde a rigidez de princípios ou da solidão de valores a defender, vi que o argumento mereceu o prêmio por interceptar as portas de almas e corações, algumas vezes tão fechadas em olhares que tentam abrir-se para revelar emoções, noutras tão abertas para que todos partilhem os segredos das conversas. Estas, nunca se permitem existir sinceras, camuflam-se, assumem versão conveniente, a vida segue, as pessoas envelhecem, nem sempre amadurecem, e muitas vezes se tornam mesmo prisioneiras das suas histórias, dos seus passados. Gastam seu tempo repetindo tramas ou revivendo episódios reproduzidos em maior ou menor escala.

Há pouco tempo, uma noite, dormi, por descuido, com a porta da minha casa, aberta, não lhe passei a chave. Na manhã seguinte, pus-me a conjecturar, com a viagem meio alucinada de escritora e contadora de histórias o que poderia ter-me acontecido. Um invasor, talvez um estuprador, um ladrão, sei lá, uma casa térrea, cuja porta se manteve destrancada toda uma madrugada, onde vive e dorme uma mulher solitária. Daria um roteiro para outro filme de suspense, imagino.

Mas, não se deve abrir porta por descuido. Abre-se a porta do coração para quem se pensa conhecer. Abre-se a porta da casa para quem é amigo e confiável. Abre-se as janelas da alma para que os bons ventos tragam felicidade, e é saudável fechá-las diante dos invernos rigorosos, das tempestades e dos vizinhos alcoviteiros.

Grande filme. Fez-me repensar sobre a infeliz necessidade de se usar cadeados, do medo da violação, da incerteza dos amores que vivem pelas ruas e que não sabem conviver em salas ou sobreviver em conversas nas mesas de jantar. Amores talvez que precisem somente de camas mal arrumadas, pequenos espaços de fuga, amores adolescentes, quase infantis, mas que também guardam lembranças de intensos e secretos olhares.

Saí do cinema imaginando que 25 anos não representam quase nada… Como diz o tango tradicional, vinte años no es nada… o que é e conta, realmente, é o momento em que um sobrevive e se liberta dos seus passados revividos, que se livra das suas próprias prisões perpétuas.

Aí, como no final do filme, o sorriso brilha e o olhar se enternece, a palavra solta o verbo preso na garganta, a declaração de algum amor sufocado explode na sala, que, embora de porta fechada, se transforma então no reduto mais liberado do sentimento que andou buscando espaço e ziguezagueou por muito tempo nos confins da dúvida, nos porões da doença emocional, na escuridão da vingança, na infelicidade de um dia-a-dia tirano ou mesmo, na tentativa de fuga de algum assassino confesso.

O que me deu intenso prazer ao assistir “o segredo dos seus Olhos” foi a sensação plena do quanto é importante estar-se atento para abrir ou fechar portas nesta vida, que nos impulsiona, inadivertidamente, a olhares cujo segredo pode ser desvendado, repentinamente, pela razão ou pela emoção, melhor que o seja por ambos, em sintonia com a magia do encontro humano verdadeiro.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeio, onde edita o Blog da Mulher Necessária

 

abr
19
Posted on 19-04-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 19-04-2010

Que importam os anos?

============================================ CRÔNICA/TEMPO,TEMPO…

A vida começa aos 60?

Aparecida Torneros

A quarta-feira parecia pequena para o tanto de coisas que ela tinha a resolver. Uma passada no intituto de depilação, coisa importante para garantir a textura macia da ausência de pelos no corpo exposto ao sol da praia que ela planejava ir no fim de semana. O cuidado com a manicure, mãos e pés tratados e devidamente esmaltados numa cor café, que em sua pele clara realçava tão bem.
Não podia esquecer de apanhar as duas calças compridas novas naquela loja onde fizera umas comprinhas básicas e que tinham ficado de fazer novas bainhas. O salão de cabeleireiro, tintura, corte e escova, coisas fundamentais, pois na quinta, bem cedo, lá estaria ela, mais uma vez, apresentando o seminário anual da federação de médicos, onde teria o prazer de conviver por dois dias, com os temas relativos à saúde e a preocupação com a mídia que divulga ou distorce assuntos tão delicados, de grande responsabilidade na informação ao público em geral.
No cair da noite, ainda bem, a esperava o profissional da grife francesa de cosméticos e maquiagem, para um tratamento especial, e algumas novas recomendações para a pintura de um rosto sempre cuidado, expressivo e luminoso, segundo as bulas explicativas dos produtos que ela compraria sem lamentar custos, refletindo que ecominazaria, pois devia ser muito mais cara uma cirurgia plástica.
Ela decidira, por foro íntimo, nunca vir a fazer uma dessas, por motivos estéticos. Preferia cuidar da pele, da alimentação, dos exercícios físicos, da emoção ( fazia psicanálise há 12 anos) para manter-se ativa, bonita e feliz consigo mesma.

O dia corria, a quarta parecia pequena, todavia, ao chegar em casa, ainda assistiu um pouco de televisão, repassou o texto do que ia falar ao microfone do dia seguinte, enrolou os cabelos para que brilhassem soltos na manhã do dia seguinte, passou o creme de limpeza, o hidradante, não esqueceu do anti-rugas em volta dos olhos, releu mais um capítulo do seu atual livro de cabeceira ( Mulheres que correm com os lobos), orou algo em agradecimento pela alegria de viver, deu uma ligadinha para dizer boa noite à mãe de 83 anos, deixou recado na secretária eletrônica do filho de 32, pensou no seu namorado distante ( de 42) , mas que esperava reencontrar no fim de semana, se conseguissem conjugar agendas, pois o moço avisara das ondas fortes e do seu intento de surfar aproveitando o clima propício, o que, a ela, dava uma pontinha de orgulho, por sabê-lo tão cheio de vida e tão amante da natureza.

Então, ajeitou-se na cama, plena de deveres cumpridos, satisfeita pelas promessas de um amanhã comprometido de afazeres, adormeceu e sonhou que era mesmo uma menina saltitante descobrindo os segredos da vida. Ao acordar, cedinho, disse para si própria…” agora eu sei, a vida começa aos 60!” E correu para o seminário, calçando uns sapatos salto 10, elegante, feliz, observando o sol que a iluminava e o céu azul que lhe premiava com a certeza da desimportância de contar os anos, já que sua alma era tão jovem quanto o brilho dos seus olhos.

Cida Torneros, escritora, jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária.

abr
08
Posted on 08-04-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 08-04-2010

Rio: vidas submersas

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CRÔNICA/ AGONIA

VIDAS LADEIRA ABAIXO

Aparecida Torneros*

Impossível não se chegar ao fundo da dor compartilhada e humana, deixando-se afundar-se no assento, enquanto se assiste, repetidamente, pela televisão, as notícias das tragédias das águas. Meses seguidos, abril da catástrofe no Rio de Janeiro, março das águas fortes, virada do ano, em Angra, no Rio de Janeiro com deslizamentos e mortes, e em tantos outros lugares onde o verão e suas cheias trazem, sobretudo, a certeza da nossa pequenez diante da natureza imensa.

A engenharia nacional se gaba, e com razão, de feitos maravilhosos, pontes desafiantes construídas mundo afora, entretanto, nas encostas molhadas, quando o barro desmorona, tudo rola ladeira abaixo, vidas se perdem na inútil tentativa de explicação racional, para a ocupação desordenada e irresponsável do solo urbano, em cidades grandes ou pequenas, através de edificações permitidas ou clandestinas, num misto de desrespeito e irresponsabilidade compactuados por sociedade e autoridades, quadro este que já nos cansamos de ter na frente dos olhos e de viver nas emoções alteradas.

As tais águas que o Tom cantou lembrando que eram comuns em março, por aqui, no hemisfério sul, na verdade, se fazem presentes no mundo inteiro, em épocas diversas, e principalmente, passaram a surpreender o Planeta, a partir do fenômeno do aquecimento global, das mudanças climáticas inesperadas e ainda imprevisíveis na sua totalidade. Cientistas tentam desvendar mistérios, governos de países poluídores tentam adiar suas ações, cidadãos tentam conviver em espaços cada vez mais restritos em termos de segurança física ou de ares respiráveis.

Tristes imagens de vidas ceifadas rolando com paus e pedras, pelas barranqueiras, gente inocente indo embora na agonia dos soterramentos, prefeituras com administradores baratinados ao constatar que a omissão é tão culpada quanto a ação, e muitas vezes, vai muito além. Isso porque permite a desordem urbana e a instalação do caos social como é o caso das comunidades que cresceram à mercê de invasões para depois se tornarem reféns do tráfico ou da ilegalidade.
Louvável sempre é e será cada atitude no sentido de pacificar “morros” em guerra, resgatar cidadanias ou elevar qualidade de vida de populações carentes. Mais do que louvável, é emergencial a decisão de mudar o quadro monótono que nos fere alma e coração, com as constatadas e irreversíveis catástrofes de verão. Faltam, segundo opiniões abalizadas e unânimes, obras sérias de infra estrutura para permeabilização das cidades com geomorfologia tão acidentada e tão populosas, além de educação sanitária direcionada para o manuseio do lixo urbano.

No Rio de Janeiro, por exemplo, muito se tem avançado, nas comunidades que ora são aquinhoadas com as obras do PAC, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, exemplificando Rocinha, Complexo do Alemão, Manguinhos, entre outras, através de remoções de moradores em áreas de risco, construção de moradias em áreas desapropriadas ou abandonadas, instalação de equipamentos sociais e mobiliários, como escolas, postos de saúde, hospitais, teatros, bibliotecas, praças, quadras de esportes. Saudável, sim, mas ainda é muito pouco em termos percentuais para atender aos milhões de criaturas que habitam não só os morros, encostas, mas também baixadas, faixas marginais de rios que transbordam, lugares onde não há infra-estrutura suficiente capaz de abrigar seres humanos com vida digna, segura e respeitada.

Nos últimos anos, o que se constata, irremediavelmente, é que coexiste uma conivência dos poderes públicos municipais, em geral, com a ocupação desordenada, ilegal e irresponsável. Todos nós somos responsáveis, em última análise, pelas condições de vida que aceitamos a partir dos legisladores, que nos impõem limites, gabaritos, áreas preservadas, etc. e dos executivos que têm o dever de fiscalizar com rigor as normas estabelecidas.

Cabe-nos esperar sim, que nosso solo, mãe gentil, nos permita viver e morar, sem tantos riscos ou tantos desmandos, sem tantas omissões e muito menos sem tantas águas rolando e levando junto com elas nossas esperanças de de um verão a mais, cujo saldo poderia ser menos trágico, talvez mais prazeroso, talvez menos entregue à força de uma natureza que pode não ser totalmente contida, mas que precisa e dever ser, finalmente, respeitada por quem faz cumprir as leis, neste país gigante pela própria natureza.

*Aparecida Torneros é jornalista, gestora ambiental pela UFRJ, ex assessora de imprensa da SERLA e da EMOP

mar
30
Posted on 30-03-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 30-03-2010

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CRÔNICA/ VOLTAR

A CAMINHO DA BAHIA

Aparecida Torneros

Quando a vida corre e o tempo passa, tem sempre algum lugar que a gente nunca pisou, mas que sabe que já conhece…de outras vidas, talvez…ou dessa mesmo, através de tantas informações que se colheu ao longo dos anos. Comigo, sobre a Bahia, aconteceu assim…

Uma vontade frustrada de passar por lá quando mocinha, muitas histórias de amigos e amigas que de lá voltavam me enchendo a boca dágua, minhas idas consoladoras à Feira Carioca da Providência, anos a fio, visitando a Barraca da Bahia. Era pra comer acarajé, vatapá, caruru, quase como se estivesse mesmo na “terrinha”.

Surgiu uma chance, nos anos 80, fui conhecer Porto Seguro, primeiro, a Baía Cabrália, Prado, Itabuna, Caravelas, fui por terra, meu filho junto, menino ainda. O encanto que senti, era próprio de uma turista extasiada. Mas ainda não era Salvador, e continuei sonhando com as imagens que me acostumei a ver quando li e reli os livros do Jorge Amado. No íntimo, tinha certeza de que um dia, ia aterrissar naquela cidade-mãe, primeira capital do Brasil e subir o elevador Lacerda, misturando-me ao povo do lugar.

Pois, em 2003, com a sensação de 40 anos de atraso, consegui viajar em abril, por uma semana, finalmente, para hospedar-me, solitária e sedenta de bahianices , num hotel da Barra. Como diria o Jamelão, fiquei mais feliz que pinto no lixo. Danei a fazer excursões, de manhã e de tarde, por uns quatro dias seguidos. Bahia histórica, Bahia tradicional, as praias do litoral Norte, etc. etc.

Visitas ao Pelourinho, fotografias com baianas, a lagoa de Abaeté, caminhadas solitárias pela orla nas três manhãs que antecederam a minha volta ao Rio. Conheci um típico cicerone baiano, numa dessas andanças pela praia. Ele me mostrou a noite no Xororó, com aquelas figuras fantásticas, dos Orixás emergindo das águas. O novo amigo, espantado e sem jeito, presenciou meu chororô, pois foi o que me coube fazer, diante do brilho que percebi naquela terra, cuja gente me comovia encharcando-me de histórias de miscegenação.

Ele próprio contou-me que uma noite, madrugada alta, viu e nunca esqueceu, Irmã Dulce saltando de uma van, indo abraçar e acolher um mendigo na calçada, a quem ela deu colo como se fora a mãe acariciando um filho menino. Histórias da Bahia, sempre colecionei, as que li, as que me contaram e as que eu mesma vivi, nas viagens que fiz ali.

Acontece que, fui me sentindo cada vez mais identificada com o clima baiano, e, apesar de nunca ter morado lá, sinto-me em casa, sempre, quando volto. Tenho agora prima, marido, a filhinha deles, além de muitos amigos e amigas morando em Salvador. Tenho o carinho editorial do Vitor Hugo Soares, que publica meus singelos textos, tantas vezes, no Bahia em Pauta, como já o fez, anteriormente, no Jornal A Tarde.

Tenho, sobretudo, a alegria de sonhar com aqueles ares e “volver” sempre que é possível.
Agora, vou na Semana Santa. Ficarei num desses Resorts, na praia do Forte, mas visitarei a cidade e os amigos, disso não abro mão. Algumas companheiras cariocas estarão comigo no descanso programado, porém, já lhes avisei que o Bonfim me espera, e lá não deixo de ir em todas as viagens a Salvador.

Nos últimos 7 anos, volto sempre à capital baiana, com carinho renovado e alma em festa. Acompanho seus movimentos, preocupo-me com seus índices crescentes de violência, lamento o atraso da implantação do metropolitano, saúdo seu maravilhoso carnaval, torço pelo sucesso dos seus artistas, repercuto o sentido das suas lutas, gosto de testemunhar seu progresso, e me regosijo a cada notícia alvissareira que me chega desde a terra de Caymmi.

Um gosto de dendê me invade a boca, o cheiro do mar baiano me conquista, também a cor, aquele verde novinho em folha, como definiu Vinícius, a famosa preguiça que a Bahia imprime na nossa visão de mundo, aquele instante para relaxar, na rede, de preferência, deixar-se inundar de vida passante, buscar abraços confortadores, beijos calmantes, para em seguida, sair atrás do Olodum, de um trio elétrico que remexa nosso coração, reinvente nossa trajetória, nos sacuda a alma, nos reavive os sentimentos.

Em mim, particularmente, vem uma vontade de estar com quem me dê de beber uma água de coco, mesmo que seja na fantasia de ter ao lado alguém que já viveu na Pituba, jogou no campeonato baiano de tênis, um ser viajado e cavaleiro andante, que coincidentemente, mora na minha rua, no Rio de Janeiro, e que ao saber que estou indo passar uns dias naquele lugar abençoado, deixou escapar, em tom lamentoso e bem baianês…ai que saudade eu tenho da Bahia… mas, quem não tem?

Aliás, e por falar em saudade, onde anda você? Venha comigo, Cigano, me encontre no Mercado Modelo e vamos baianar durante os feriados Santos, na Bahia que é de todos os Santos, afinal….

Cida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária)

mar
13
Posted on 13-03-2010
Filed Under (Aparecida, Artigos, Multimídia) by vitor on 13-03-2010

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CRÔNICA

Mais um fado no enfado de tantas perdas…

Aparecida Torneros

A maratona das perdas. Faz parte da vida, diriam os apaziguadores de sentimentos alheios. Claro está que o compartilhamento de sentidos tem grau diferenciado e não corresponde a uma matemática perfeita. É o céu dos imperfeitos medos que todos temos, os medos de perder quem amamos, companheiros e amigos, familiares e ídolos, vizinhos e eventuais criaturas que nos preenchem os dias com sua presença iluminada.

No curso das perdas que nos assolam constantemente, há períodos pródigos em partidas que chocam. Há os que partem em contingentes, como nos terremotos do Haiti e do Chile, nós nos comovemos e o choro interno é humano, plausível, impotente e sofrido. Nem é preciso conhecer-lhes nomes e rostos, basta que sintonizemos a dor e o sofrimento.

Nos recentes anos perdi pai, tias e tios, fui me habituando a comparecer aos velórios e encontrar a família, sempre unida, presente, reconfortante. Notícias de perda de um jornalista querido na Bahia, depoimentos que me fizeram conhecê-lo sem nunca tê-lo visto pessoalmente. É a teia dos amigos que relatam e nos legam suas impressões de viagem.

De meses pra cá, perdi os mais jovens, como por exemplo um ex aluno, atuante e cheio de vida que sucumbiu atacado por ataque fulminante. A ficha custou a cair. Outros amigos se foram, coleguinhas de décadas, novamente os encontros nas missas de sétimo dia, as saudade arrefecidas, as conversas lamentosas, os carinhos renovados.

De repente, alguém adoece e é como uma irmã de alma. Vou visitá-la em São Paulo, numa UTI e o que consigo dizer é que tenha força e coragem, fé e conformação. Nem sei se ela me ouve, plugada em tantos aparelhos, vejo seus olhos semi abertos, azuis e de certa opacidade que prediz sua passagem. Dias depois, recebo a notícia. Coincide com a morte do Jonhy Alf, eles combinaram viajar juntos, suponho, talvez, para voarem desde a mesma metrópole em destino aos céus dos que aqui deixaram com tantos afetos e saudades.

Na missa de sétimo dia por alma da amada amiga, encontro outras flores do seu jardim, amigas que ela plantou e colheu durante sua estada entre nós. Tomamos juntas um café após o ato religioso, e passamos a nos conhecer de verdade, oficializando a rede que ela criou. Dói a saudade dela, mas vamos nos aproximar e compactuar histórias comuns.

De ontem pra hoje, mais um amigo se vai, estava prisioneiro da doença renal crônica e descansou. Falta-me então a coragem para ir despedir-me dele, para confortar sua família que me é tão cara, sinto que baqueio. Busco a voz da minha velha mãe, ainda forte, ainda me dizendo que chegou a hora de cada um e que essa hora sempre há de chegar. Ela me encoraja a prosseguir, diz que se alguém já foi é porque precisava descansar. Eu ouço com respeito, pois, no alto dos seus 83 anos sabe o que fala.

Tento me aprumar, preciso confortar pessoas, logo mais vou dormir com a amiga que perdeu o irmão, mesmo sem ter ido ao velório, sei que minha presença pode ser um gesto carinhoso e decido que irei.

Perdas sempre haverão. Encontros novos nos esperam por aí. Velhos amigos e gente que amamos, apesar de partirem, permanecem dentro dos nossos peitos, e me ponho a ouvir um fado. Mais um fado no enfado de tantas perdas… O que me devolve a esperança, me anima a alma, me reaproxima da sede de viver, sem me deixar perder de vez na dor de tantas perdas…

Cida Torneros , jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

mar
08

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Mulheres, não percam o fôlego!

Aparecida Torneros

Mais um Dia Internacional das Mulheres, o 8 de março carrega, simbolicamente, em todas nós, do sexo dito frágil, a sensação de que a corrida do ouro está apenas começando.

Depois de mais de um século em que a massa feminina mundial tenta chegar menos atrasada, em busca de lugares decentes sob o céu do planeta azul, ainda que se esteja cansada de tantos retrocessos, é preciso que não se perca o fôlego, nessa maratona cuja reta de chegada terá sabor de conquista e de vitória.

Discursos vários de cunho feminista já se fizeram ouvir pelo século XX e pouco se conseguiu de concreto, em termos de evidências estatísticas.

Ainda percebemos menores salários quando desempenhamos as mesmas atividades que os homens.

Vícios culturais, religiosos e socioeconômicos ainda nos
impelem a aceitar distorções que vão desde restrições a vestimentas até castrações físicas do clitóris em vários países, passando pela aceitação de jornada dupla de responsabilidade para aquelas que acumulam a função de chefes de suas famílias, quando os homens saem de casa, fenômeno crescente importante, detectado no último censo do Brasil.

Quando se observa os rostos das mulheres ao perderem seus filhos, maridos e companheiros nas guerras em curso no mundo, é possível identificar o horror permanente que a miséria da condição humana que iguala todas num caldeirão de impotência quanto ao poder decisório para os conflitos entre os povos.

Está claro que esses embates atingem os homens tanto quanto afetam mulheres. Mas é justamente o advento das guerras que antes só convocavam grandes contingentes masculinos, que nos levou a engrossar, por necessidade, as alas industriais, e nos fizeram passar a ser importante mão de obra no mundo da revolução industrial.

Numa fábrica, companheiras nossas morreram queimadas num gesto autoritário, marcando o 8 de março, como um dia a ser relembrado em homenagem à condição feminina , não somente pela sua importância na escalada social, na conjuntura econômica dos povos, mas sobretudo, pela injustiça e pela atrocidade desfechada contra o gênero feminino naquele momento.

O Dia Internacional da Mulher serve para nos repensarmos todas. Importante se faz nos conscientizarmos de que é preciso ser fortes, estarmos preparadas para continuar correndo em direção ao podium.

Se, em alguns momentos, no entanto, sentimos que nos falta o ar, aparentemente cansadas das lutas constantes que empreendemos para trabalhar e sobreviver com dignidade, para apoiarmos nossos companheiros, filhos e amigos, num mundo extremamente competitivo e muitas vezes tão desonesto, respiremos fundo, e retomemos o fôlego.
Companheiras, não deixem que as eventuais dificuldades da vida as façam perder o ritmo da corrida. Sigam em frente, certas de que há luz no horizonte feminino, se umas passarem para as outras o grande exemplo das suas superações. Mulheres síndicas, policiais, pilotos de aviação, garis, enfermeiras, professoras, somos muitas, somos as dançarinas que enfeitam as noites, como somos as cantadeiras que embalam os filhos, somos as artistas que criam as rendas e os bordados, tecendo fios de afeição e amizade.
Senhoras, meninas e modelos, desfilamos na passarela dos sonhos, em busca dos lugares de construção.

Precisamos urgentemente, construir melhores dias para as novas gerações. Sabemos disso porque somos amigas, amantes e esposas, quase sempre nos dividindo em múltiplos papéis, aquecendo músculos que se desdobram em corridas permanentes, no nosso dia a dia.

Mulheres, não percam o fôlego, ainda que as decepções pareçam maiores que nossos limites. Há muito mais a fazer. Estejamos atentas para esta corrida insana, observando o exercício constante do preparo físico e mental que a nova ordem mundial requer. Permaneçam antenadas, “plugadas”, não se deixem dominar pelas ideologias ultrapassadas e pelos discursos velhos e repetidos.

Cada uma de nós deve empreender seu próprio texto, pois a vida de uma é base sensível para a demarcação do território livre do universo feminino. Nesse, só pisa quem souber o sentido de uma corrida delicada com pés descalços que, feridos, se comprazem ao alcançar o degrau mais alto da história.

Mulheres, respirem fundo e sigam lutando lindamente,
com sorrisos de paz e harmonia!
O dia é seu, como deve ser o mundo!

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária )

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