Caetano Veloso e Jô Soares:noite completa

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Caetano no Jô, além da lua cheia

Maria Aparecida Torneros

Não foi só a linda lua cheia que enfeitou a minha madrugada desta quarta-feira. Um outro satélite brilhante rondou meu ser, com mensagem forte, era o mano Caetano, no programa do Jô, intenso e luminoso. Talvez o cara seja como se declarou, um eterno adolescente de 14 anos, disse que é assim que ele se sente. Revelou histórias incríveis, seus depoimentos correspondem ao seu longo caminho, cantou, dedilhou o violão, lembrou tantos episódios, encantou com seu jeito que é ao mesmo tempo plácido e polêmico. Classificou o episódio do mensalão como próprio das dores do crescimento de uma sociedad. Rendeu graças ao Gil, à sua irmã Betânia, recontou a história do nome dela que ele escolheu com 4 anos, e ao referir-se ao seu pai, foi de uma singeleza absurdamente comovente. Enfatizou que D. Canô, sua mãe, completou 105 anos , o que o faz mais adolescente ainda.

O artista é exibicionista e narcisista, ele repetiu, mas o Cae tem um não-sei-quê de pudico insólito, é um amante da língua portuguesa, gosta das palavras, apontou fã, e outras que terminam em “ã” como algumas das suas preferidas. Explicou coisas da crase, a defendeu, brigou com o apresentador quando este nomeou difícil a língua portuguesa. Ele é um ser múltiplo, mesmo, como todo adolescente costuma ser. Se ele tem 14 ou 70, que diferença faz quando ele nos proporciona o questionamento sentimental da geração que agora entra na puberdade da vida?

Caetano adentrou pelo meu quarto, pela televisão de milhões de brasileiros por certo, com sua manha, que agora, na manhã, palavra do meu gosto também, tento rememorar e processar na razão já que o sentimento trouxe a mim o longo caminho destes últimos 50 ou 60 anos. Ele falou que completou 14 anos quando vivia no Rio de Janeiro e teve a sorte de ir muitas vezes nos programas de auditório da Radio Nacional, viu de perto aqueles eventos de música e cultura brasileiras que os anos 50 legaram ao público em formação de um veículo tão abrangente como é o rádio.

O mano Cae exibiu-se dando “canjas”, deu show de intimidade com nossos corações também questionadores exatamente quando o mundo se pergunta tudo e não responde quase nada. Foi um privilégio, pensei, com aquela lua cheia que apareceu depois da chuva, pude reprocessar minha própria adolescência, lembrei até dos sábados, na casa da minha avó, quando ligávamos o rádio para ouvir o programa do César de Alencar, ele , taxado depois de dedo-duro, mas , sem sombra de dúvida, um comunicador como poucos, e o desfile inenarrável de expoentes e vozes que a nós traziam momentos de sonho, ao ouvir um Caubi, uma Emilinha, a Marlene, a Dalva, e descobrir que os fãs-clubes eram uma nova realidade nacional.

Ser fã implica em acolher qualidades, exaltá-las, aceitar defeitos, perdoá-los, amar palavras em entrevistas e canções, sonhar com frases, entender que há “longos caminhos” onde somos assim, mesmo assim, eternos adolescentes, quase rebeldes, como o Caetano. Exatamente, em todas as “mornings”!

Maria Aparecida Torneros, escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita seu Blog da Cida e colabora com o Bahia em Pauta

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CRÔNICA/DEUSES

O Timão e a partícula de Deus!

Maria Aparecida Torneros

Essa coisa de unanimidade, em tempos de globalização, é avento dos Deuses, ou é conversa particular de um Deus que se deixa descobrir através de uma partícula, anunciada e comemorada, pelos físicos do mundo inteiro, num 4 de julho infestado de festas. A grande festa do futebol brasileiro aconteceu, finalmente, em São Paulo com a conquista da taça Libertadores pelo Timão, o Corinthians que anestesia milhões de torcedores em torno da sua bandeira em preto e branco.

Começo a me interessar pela tal Descoberta da partícula de Deus, na verdade, o Bózon de Higgs, este objeto de estudo dos físicos que buscam entender e explicar a origem do Universo.

Encontro muitas informações na internet, a maioria delas me foge à compreensão porque tenho pouco repertório no campo da matemática, mas consigo entender por exemplo esta:
“Uma equipe de físicos do LHC, o acelerador de partículas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), anunciou a descoberta de uma suposta Partícula de Deus, o Bóson de Higgs. Mas, qual a importância dessa partícula para física?

Segundo Alberto Santoro, físico brasileiro que trabalha em um dos experimentos do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), ao afirmar a sua existência, é possível comprovar a teoria do Modelo Padrão, capaz de mudar fundamentalmente o conhecimento da física sobre o Universo.

Isso porque o físico Petter Higgs propôs uma teoria a fim de entender como o Universo foi criado. Para ele, quando aconteceu o Big Bang, a explosão que originou o Universo há 14 bilhões de anos, todas as partículas eram iguais.

Após a explosão, o cosmos esfriou e se formou um campo de força invisível, o “campo de Higgs”, com seus respectivos bósons (um tipo de partícula subatômica). Então, essa partícula, o Bóson de Higgs, interagiu com todas as outras e passou uma massa para cada uma.

Esse campo permanece no cosmos e qualquer partícula que interaja com ele recebe uma massa através dos bósons. Quanto mais interagem, mais pesadas se tornam. As partículas que não interagem permanecem sem massa. Portanto, as partículas só conseguiram ganhar massa devido ao Bóson de Higgs.

Então, descobrir a existência dessas partículas em simulações no LHC, acelerador de partículas, explica como as partículas têm massas tão diferentes umas das outras. Logo, a descoberta do Bóson de Higgs confirma as teorias criadas nas últimas décadas, uma vez que essa partícula é a única que falta ser analisada.

Além de um problema da física ser resolvido, todos saberão que as massas têm uma origem bem definida. Isso é muito importante para todas as leis fundamentais da física.”

Bem, uma enorme massa de torcedores se envolve hoje com a alegria da vitória do Timão. É massa que movimenta intensa energia humana, em mundo competitivo que se move à custa de movimento de corpos no espaço, busca de marcação de gols, em aceleração contínua de músculos e objetivos em torno de um foco único: vencer e levantar a taça!

Assim, equipes de homens e mulheres, integram a presença das suas forças na humanidade oferecendo ao Planeta, repentinamente, a concomitância de conquistas. Tanto no futebol, no esporte, quanto na física, na ciência, há que perceber que qualquer parte por menor que possa parecer, é responsável pelo resultado macro, ainda que ele escape, em teoria, ao nosso entendimento, é fácil sentir, intuir, se deixar contaminar pela alegria de constatar que funcionamos sim, em equipe, como diz o treinador técnico do Corinthians, o Tite, sobre a amizade do grupo, ou seja, o quanto é importante que pessoas se unam em torno de causas, para descobrir Deus, levantar taças ou até para tentar compreender o que uma coisa tem ou não tem nada a ver com a outra…

Aceleremos pois, e vamos comemorar a vitória das equipes tanto do LHC como do Timão, ora, ora!!! Maria Aparecida Torneros, escritora , jornalista e professora universitária, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida. Colaboradora de primeira hora do Bahia em Pauta .

nov
10

SAMBA DA BENÇÃO – SARAVÁ!!!

============================================================== Semaninha braba

Cida Torneros

Pois é. O Sol da sexta invadiu o Rio nesta manhã de primavera, pegaram o “Nem”, tentando escapar da Rocinha. Segue o julgamento dos que assassinaram a Juíza. O ministro do Trabalho tá dando trabalho ao Governo, com seu jeito de cowboy mexicano, e, caramba, hoje, finalmente, irei ver o show do neto do Silvio Santos, que encarna o Tim Maia, todos que viram me disseram que é impressionante o talento do rapaz e a presença do Síndico, saudoso intérprete, cuja história é contada no espetáculo. Ontem à noite, ouvi minha vizinhança gritando Vascoooooooooo, deduzi que o time venceu… E a madrugada insone me fez assistir o Observatório da Imprensa… o assunto era essa coisa “barra pesada” de limite para o trabalho da imprensa na linha de fogo, da guerra urbana. Há muito a discutir e conquistar em termos de segurança para os profissionais e para a população em geral. Há um ciclo viciado, digamos, se há demanda e consumo, há tráfico e vice-versa. Gostei porque os convidados, entre os quais o jornalista Aziz Filho, ex presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio e atual diretor da TV Brasil, um dos lugares onde o cinegrafista assassinado também trabalhava, além da rede Bandeirantes, apontaram a necessidade de tornar constante a discussão, como um fórum permanente mesmo. É preciso acordar para a competição desalmada do tal “furo” ou o sonho da “exclusiva” que é um “dream” para garantir audiência, ou seja, “grana” para os donos da “mídia livre”. Será?

E o ministro, dizem as notícias matinais, se acalmou, mudou o tom desafiador ao Planalto, e se sair, será com bala de borracha, certamente. O nosso “coleguinha” Gelson, além de deixar saudades, marcou a história do jornalismo carioca, no que tange a essa exposição diária, maciça, quase inconsequente, dos profissionais, no campo de batalha, arena de guerra, usando mal e porcamente uns coletes à prova de spray, sem capacetes, sentindo-se pseudo-heróis, enquanto os policiais avançam, com presença teatral, nos becos infestados de desigualdade, medo, submissão, chefes de quadrilha, soldados do tráfico, população calada, autoridades muitas vezes coniventes, e noutras bem intencionadas, mas, ao fim e ao cabo, uma Babel transmitida ao vivo e a cores, num compasso aflito e auto-destrutivo.

Eta semaninha, vejamos o que o feriadão nos reserva, em termos de noticiário, que vou acompanhar durante passeio a Minas Gerais, passando pela terra de Tiradentes, onde tentarei me imbuir de maior espírito nacionalista, por conta do sangue derramado pelos heróis da Inconfidência Mineira. O mesmo sangue do herói cinegrafista, dos heróis policiais, da heroína Juíza abatida com 21 tiros, o mesmo sangue que o ministro do Trabalho sinalizou que não iria jorrar à custa de denuncismo articulado, politiqueiro ou fofoqueiro, mesmo que haja vídeos como no caso do Agnelo, aquele que foi da Anvisa, dos Esportes e agora dirige o Distrito Federal.

Um espaço de horror, de decepção, a Saúde questionada, a presidenta falou em rede nacional, aceitou o desafio, vamos ver no que vai dar, pois é doido o tal do SUS, enquanto gestão amontoada, linha de pipa enrolada, difícil de segurar no céu dos inocentes, dos dependentes das emergências públicas, um número avassalador, que precisa atenção, respeito, cuidado, etc. etc.

Mas a semana passou do meio, em quinta categoria, deve estar algum concorrente a um cargo de confiança nas esferas, e o jeitinho brasileiro, quer seja municipal, estadual ou federal, certamente, se encarregará de diluir escândalos, espairecer dores, arregimentar “jogos amistosos”, ensolarar praias e praças, empurrar senões, razões, questões, e até, sepultar os heróis de uma sociedade que fabrica Tropa de Elite, em filme, em regimento, em crescente aumento. Vide o caso da USP, como a nossa juventude ficou assim , de repente, sem voz, ou com voz sumida, defendendo droga, depredando, alvo de massacre como se fosse bandida, quando, de fato, é tão vítima de um modelo que “vende” alienação em lugar de conscientização, o que é uma lástima.

Pra fechar a quinta, tem a passeata dos Royalts, em defesa do dinheiro do Rio de Janeiro, metrô de graça, funcionalismo dispensado, pra engrossar o movimento, afinal, salve-se quem puder, salve-se o Rio de Janeiro, que continua lindo, a despeito dos dramas e das tramas novelescas, quixotescas, dantescas, nababescas, e amorais.
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Stanislau:está faltando ele
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Bem pra salvar o Rio mesmo, só rimando e relendo Vinícius de Morais, o branco mais preto do Brasil, o carioquinha poeta, Saravah! ou “A demain”, no estilo Ibrahim Sued…este era uma figuraça. E tem um que é unanimidade da carioquice explícita, o nosso Sergio Porto, saudoso, atualíssimo, vejamos:

No FEBEAPÁ, festival de besteiras que assola o país, ele enumerou algumas:
“O mal do Brasil é ter sido descoberto por estrangeiros” (Deputado Índio do Brasil, Assembléia do Rio).

O cidadão Aírton Gomes de Araújo, natural de Brejo Santo, no Ceará, era preso pelo 23.º Batalhão de Caçadores, acusado de ter ofendido “um símbolo nacional”, só porque disse que o pescoço do Marechal Castelo Branco parecia pescoço de tartaruga e logo depois desagravava o dito símbolo, quando declarava que não era o pescoço de S. Exa. que parecia com o da tartaruga: o da tartaruga é que parecia com o de S. Exa.

Cerca de 51 bandeiras dos países que mantêm relação com o Brasil foram colocadas no Aeroporto de Congonhas. O Secretário de Turismo de São Paulo — Deputado Orlando Zancaner — quando inaugurou a ala das bandeiras, disse que “era para incrementar o turismo externo”.

Quando a Censura Federal proibiu em Brasília a encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo, a atriz Maria Fernanda foi procurar o Deputado Ernani Sátiro para que o mesmo agisse em defesa da classe teatral. Lá pelas tantas, a atriz deu um grito de “viva a Democracia”. O senhor Ernani Sátiro na mesma hora retrucou: “Insulto eu não tolero”.

O Diário Oficial publica “Disposições de Seguros Privados” e mete lá: “O Superintendente de Seguros Privados, no uso de suas atribuições, resolve (…), “Cláusula 2 — Outros riscos cobertos — O suicídio e tentativa de suicídio — voluntário ou involuntário”.

Em Niterói o professor Carlos Roberto Borba iniciou ação de desquite contra a professora Eneida Borba, alegando que sua esposa não lhe dá a menor atenção e recebe mal seus carinhos quando é hora de programas de Roberto Carlos na televisão. A professora vai aprender que mais vale um Carlos Roberto ao vivo que um Roberto Carlos no vídeo.

Colhemos num coleguinha do Jornal do Brasil:
“O General José Horácio da Cunha Garcia fez uma firme apologia da Revolução e manifestou-se contrariamente às teses de pacificação, bem como condenou o abrandamento da ação revolucionária. O conferencista foi aplaudido de pé”. O distraído Rosamundo leu e, na sua proverbial vaguidão, comentou: “Não seria mais distinto se aplaudissem com as mãos?”.

Tá faltando o Stanislaw Ponte Preta pra me ajudar a descrever esta semana, que se estica por mais uns dois ou três dias, haja Axé!!!

Cida Torneros , jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

out
30
Posted on 30-10-2011
Filed Under (Aparecida, Artigos) by vitor on 30-10-2011


Ouro Preto – Minas Gerais

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Minas nas “coincidências”

Cida Torneros

Na sessão de terapia, um comentário sobre a interessante sincronicidade que observo na vida, quer dizer, na minha… antes de sair, peguei a revista Bravo na caixa de correio e deixei em casa para ler na volta. Também, atendi um telefonema já quando ia por a chave na porta. Voltei para ouvir minha amiga Áurea, de Belo Horizonte, que conheci na Itália, onde ela e o marido Francisco participaram do mesmo tour que eu e Katia fizemos há alguns meses. Minha reação de alegria correspondeu à coincidência(?) pois ontem, resolvendo sobre um passeio que quero muito fazer às cidades históricas de Minas Gerais, combinei com Katia nossa ida em 12 de novembro, descobri uma excursão que se encaixa com o feriadão da República, com três noites passadas na capital mineira. Falei então, o mais rápido que pude (estava atrasada) para a Áurea que vamos vê-la num desses dias, quando estivermos em BH, e aí, vou lhe entregar as fotos (fiz muitas do casal na Itália) já que a bagagem deles havia extraviado e ficaram sem máquina para registrar a viagem. Disse a ela que nem mandei por correio por causa da longa greve e que apareceu a oportunidade para conhecer a Gruta de Maquiné (incluída a visita no roteiro), e Congonhas do Campo, onde eu quero muito ver as obras do Aleijadinho.

Na verdade, fui a Ouro Preto, a trabalho, uma vez, quando o presidente Itamar Franco, juntamente com os presidentes da Argentina, Paraguai e Uruguai, assinaram um grande acordo do Mercosul. Deve ter sido em 1996, acho, fiquei encantada com a cidade, mas tinha que cobrir o evento, correr de um lado para outro e passar matéria para o Rio. Pensei que devia voltar lá com calma. De outra vez, uma amiga me convidou e fomos juntas a S.João del Rey e Tiradentes, viagem do tipo vapt-vupt, ela ia pagar uma promessa numa igreja de lá, deve ter por aí, uns quinze anos, e também decidi que deveria voltar ali, há muita história, precisava de um guia local, o ideal seria fazer , quando pudesse , uma excursão.
No roteiro que escolhemos, estão incluídas, além de Belo Horizonte,todas esses lugares que quero rever e os que desejo conhecer. Um deles, o Museu Guimarães Rosa, em Cordisburgo, sua terra natal.

Bem, fui à terapia, houve a conversa sobre as “coincidências” da vida, e ao retornar a casa, me deparei com um artigo intitulado ” Chá com Elizabeth Bishop”,na revista Bravo, escrito pelo americano Michael Sledge, que descreve suas duas visitas à cidade de Ouro Preto.

Ele é autor de “A arte de perder”, romance que tem Elizabeth Bishop com personagem, a famosa poeta americana que viveu no Brasil, tendo comprado uma casa em Ouro Preto, cidade pela qual ela se apaixonou.

O articulista relata que em 2003, na sua primeira vez, fi em busca de um caminho de investigação, já que pretendia escrever um livro baseado na vida de uma escritora “querida e icônica, cujo status nas letras norte -americanas cresce notadamente com o tempo”.

Ao se referir ‘a segunda visita, em julho passado, Michael conta que desta vez visitou a casa que fora de Elizabeth.

” Quase uma década tinha se passado desde a primeira vez que estive na frente dessa porta. Naquela época, eu lia tanto as cartas dela sobre sua casa em Ouro Preto que sentia que podia andar vendado pelas salas, que podia até ouvir as conversas que aconteceram entre os moradores… A empregada serviu chá na sala, em uma mesa tão apertada que as xícaras se tocavam. Escolhi um lugar. Sentei na cadeira de Elizabeth Bishop.”

Envolvi-me com a leitura do artigo, mas percebi novamente a tal sincronicidade…Voltar a lugares pela segunda vez, buscar histórias, identificar antigas conversas, inalar a poesia da velha e querida Minas Gerais, berço de Drummond, de tantos poetas, de Tiradentes, o soldado da Inconfidência, de arte sacra, barroca, patrimônio brasileiro, de tamanha tradição, de presença marcante na política nacional, de onde saiu um JK, um Tancredo, uma Dilma hoje presidenta.

Gabei-me então de poder fazer turismo no meu próprio país, tão convidativo e intrigante quanto a velha Europa, e poder sentir o apaixonamento que Bishop deve ter sentido por estas bandas de cá.

Michael finaliza assim, “coincidentemente”, adentrando meu coração, sacudindo minha alma de brasileira com seu texto: ” Como Elizabeth, eu havia chegado ao Brasil como turista. E, como ela, descobri um país intoxicante em sua beleza, na generosidade de seu povo, na linda e louca poesia que permeia sua vida diária. Elizabeth Bishop abriu a porta para o Brasil e eu entrei”.

Maria Aparecida Torneros é escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita O Blog da Mulher necessária

out
04

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CRÔNICA

O FIM DE UM CACHORRO VALENTE

Maria Aparecida Torneros

Ele foi um cachorro valente…apesar de pequenino, tinha amor pela vida, buscava caminhar, já cego e alquebrado, veio ficar na minha casa nos últimos seis meses, mas era o cachorrinho da minha mãe, que não tinha mais condições de tomar conta dele. Quando eu viajava, o deixava na clínica. Ele me reconhecia pelo cheiro, mesmo velhinho, balançava o rabo e fazia festa. Reclamava como um vovozinho se algo nao lhe ia bem, resmungava.

Às vezes, eu o envolvia em manta e o embalava como um bebê ( ele só pesava 3 kilos), ficou internado várias vezes, hospedado na veterinária, onde era querido e cohecido. Semana passada veio pra casa, e nestes dias, eu o senti se despedindo. Seu corpo não respondia mais direito a nada. As patinhas traseiras travavam. Ele reclamava, mas tentava comer, dormia horas no tapete da sala. De madrugada, roçava na porta do meu quarto, me chamando. Como já nao controlava os esfincters, eu o banhava no meio da noite, com água quente, ele se acalmava e voltava a dormir, sono profundo, mas no domingo, anteontem, recusou-se a comer, a beber, e chorou …um choro de despedida…levei-o na segunda cedo para a clínica. A veterinária colocou-o no soro, e me pediu 24 horas para pensar, eu devia ligar hoje cedo e decidir pelo sacrifício.

Tudo o que fiz foi rezar, enquanto lavava as mantas dele ontem à tarde, meu choro era um pedido de que a morte lhe chegasse sem que eu precisasse ser responsável por ela. Lembrei-me então de S. Francisco de Assis, considerado protetor dos animais, em cuja igreja estive orando em maio passado, na Italia, e pedi, que o Santo, se pudesse, tomasse conta do destino do Benginho.

Acordei hoje e protelei ligar para a clínica. Eu não queria decidir. Busquei distrair-me batendo papo no computador com um italiano chamado Enzo. a manhã passou correndo. Eu não queria pensar na responsabilidade de mandar sacrificar o cãozinho.

Mas quando consegui telefonar, já hora do almoço, a médica veio ao telefone informar que ele falecera às 7 da manhã, de morte natural, no soro, dormindo.

Lembrei então, de repente, que hoje é o dia de S. Francisco de Assis…e chorei muito, agradeci que o Benginho descansou…estou sentindo imensa saudade do seu caminhar lento pela casa, da sua graça de velhinho valente. Lembro das vezes em que era bem novinho e dava pulos altos ao nos receber na casa da mamãe.

Não tive coragem de ir lá e vê-lo agora. Pedi ao meu filho que resolva tudo pra mim, sobre a cremação, e busquei a última foto que fiz dele, esta semana, enquanto dormia calmo no tapete da sala.

Quando ele reclamava eu dizia: Bengi, estou aqui, você não está sozinho. Já nem sei se ele me ouvia. Só sei que eu cuidava de um cachorrinho velho e valente, amoroso e reclamão, companheiro que foi da minha mãe, por tantos anos, fiel pois, há 3 anos atrás, quando ela esteve internada no hospital, doente, ele não quis comer todos os dias enquanto ela nao retornou para casa.

Não sei se os cães tem alma. Sei somente que eles sabem amar. E nos dão exemplo de fidelidade que muitas vezes seres humanos não sabem dar.

Acho que S.Francisco o recebeu em algum lugar da Itália. Quando estive na igreja dele, contei sobre o Bengi, achei que o santo devia saber que havia um cachorrinho no Brasil que amava a vida, amava as pessoas, lutava para prolongar sua estada aqui e que viveria até o dia em que S.Francisco o viesse buscar.

Se tudo o que estou escrevendo ou pensando ou sentindo tem o reflexo da minha tristeza por perder o Bengi, creio que tem mais que isso, tem a certeza do quanto esse animalzinho me ensinou sobre a Vida.

Aparecida Torneros , jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

ago
13


Patrícia Accioli
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OPINIÃO

Patrícia Acioli, a juiza e o exemplo

Maria Aparecida Torneros

O chocante assassinato da Juíza Patrícia Acioli, em Niterói, esta semana, crivada de balas, ao chegar sozinha em sua casa, é prova cabal do quanto uma sociedade pode estar refém dos “fora da lei”, e até que ponto pode chegar o desafio de retormar os rumos para se acabar com a impunidade que permeia uma rede de malfeitores, corruptos e corruptores, dentro e fora dos poderes constituídos, numa complascência que se sente incomodada quando alguém apenas é sensato, cumpre seu dever e aplica a lei, como a juíza morta tinha fama de ser linha dura para com o crime organizado.

Ela estava vestida com a toga que pretende “matar” as chances recorrentes dos criminosos oficiais ou oficiosos, daqueles que se gabam por aí, de não temer a justiça, a tal justiça que pode “até” se corromper, nalgum ponto frágil, possibilitando o exercício covarde de ataques mortais e odientos executados por encapuzados.

A ficção nos inunda sempre com histórias novelescas ou cinematográficas onde mulheres são vítimas ou mentoras de violência. Lembro de um filme, dos anos 80, intitulado Vestida para Matar ( Dressed to Kill) , do diretor Brian de Palma, com Michel Caine e Angie Dickisnson, fortemente influenciado pela obra de Alfred Hitchcock. Nele, uma mulher vive um tórrido caso extraconjugal com um estranho e é morta a navalhadas por psicopata, ao deixar o amante. Com a ajuda de uma única testemunha, o filho da vítima tenta descobrir quem a assassinou.

A novela das nove traz a figura da Norma, atualmente em evidência, criatura que age dubiamente no tocante a ser conivente com a transgressão da lei ou se fazer de vítima da realidade que é ter cumprido pena sem ter sido culpada dos crimes que um tal personagem chamado Leonardo cometeu e lhe jogou nas costas. Nas voltas da vida que a novela oferece aos telespectadores, a moça antes ingênua, torna-se ardilosa, talvez seja até mesmo a cúmplice perfeita para o criminoso frio de quem ela deseja se vingar, à primeira vista.

Mulheres vestidas para matar, mulheres marcadas para morrer, mulheres corajosas ao exercer seus direitos e deveres, mulheres que se escondem sob véus de hipocrisia, mulheres guerreiras para enfrentar discriminação , mulheres amedrontadas para decidir seu futuro, há uma plêiade de grande variedade entre nós, no tal mundo moderno, desde quando saímos às ruas, fomos para as universidades, fizemos concursos, ascendemos a postos de comando e decisão, assumindo responsabilidades e seus consequentes riscos.

Um artigo que li, já há algum tempo, assinado por Clóvis César Lanaro, diz o seguinte:
“Quando a sociedade é complacente com a violência, ou é culpada ou perdeu a esperança.
Quando a violência chega ao ponto de não fazer escolhas de ataque, quer chamar a atenção para algo mais profundo. E mais profundo do que a perda de uma vida.
E a que a violência quer chamar a atenção? Além de mostrar poder, a violência indiretamente mostra a hipocrisia da sociedade.”

No caso da morte da Juíza Patrícia Acioli, de cuja vida pessoal sabemos muito pouco, apenas que tinha 47 anos, deixou três filhos e há apenas uma foto dela com semblante calmo e risonho, tirada talvez em algum momento em que seu coração se sentia pleno de vida bem vivida, vida normal, vida conquistada com trabalho, com obrigações, com consciência tranquila do dever cumprido, mas, ela estava marcada para morrer, na lista dos magistrados que o crime organizado decide eliminar porque, naturalmente, devem representar impecilho para seus objetivos excusos, sua sede de ganhos atravessados, etc. etc.

O crime que vitimou Patrícia Acioli foi o primeiro registrado no Estado do Rio contra um magistrado em 260 anos. Alvejaram uma mulher, que foi assassinada exatamente assim, assassinada assim, à queima-roupa, manchando de sangue a história da magistratura brasileira.

Não sei como ela estaria vestida na hora em que sucumbiu aos seus carrascos, mas imagino que estivesse bem trajada, talvez tivesse deixado a toga no tribunal, mas , com certeza, vestida o modelo ideal para fazer justiça com as armas que a Lei oferece à Sociedade, fazendo cumprir a tal Lei Soberana, Patrícia estava “vestida para viver”, e embora tenha sido atingida, sabemos que nós honraremos sua memória, clamando punição para seus algozes, seriedade para as investigações, exclusão para os que compactuam com o crime nas lides judiciárias e policiais, e, sobretudo, um fim para a hipocrisia da nossa sociedade.

Patrícia, sua luta continua, porque é a luta de uma população que tem sensibilidade suficiente e é maioria. Os que a marcaram para morrer, podem até se julgar impunes e poderosos, mas são minoria e merecem que a justiça lhes sentencie cadeia!

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

Dalai Lama: um sem teto entre EUA e China

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Um mundo entre EUA e China?

Maria Aparecida Torneros

Obama recebe Dalai Lama e desafia os chineses? Ora, quem diria, temos hoje um mundo que pende em balança econômica, com dois pratos principais, os de gosto oriental e os de sabor de fast food.

Pois é, este mesmo mundo que já foi do Império Romano, quase todo, pelo menos do que era conhecido naqueles tempos de velho mundo, de era antes de Cristo, e depois dela se instalar, o mundo que virou “cristão”, fez da Ibérica península , celeiro de conquistadores do novo mundo.

Os portugueses e espanhóis sairam a buscar terras, especiarias, espalhando fé ou teriam mesmo difundido sede de colonizar e aumentar hegemonias? Pois os piratas não se deram por vencidos, há um mundo que é mesmo deles, vagando por mares e invadindo praias, holandeses, franceses, de muitas outras nacionalidades, os piratas se impuseram em sua saga de tomar dos outros que se diziam donos, era uma briga boa, muita luta , capa e espada, tema recorrente para o cinema que a América reinventaria, a partir da colonização irlandesa, inglesa, italiana, e por aí vai, foi se disseminando pelo mundo, a tal mistura aparente e a verdadeira globalização do reaproveitamento de armadilhas, de estratégias, de culturas recicladas.

Hoje, vemos um mundo que oscila entre o capital sem fronteiras e o patrimônio da pseudo dignidade dos povos. Há uma crise programada, os países da velha Europa vão , sob efeito dominó, caindo em cascata, de pires na mão, tentando reorganizar suas economias, os Estados Unidos tentam pagar dívidas, o desemprego ameaçando países e juventudes. China crescendo? Chineses dando a volta por cima? Cuba pequenina, ilha resistente, um lugar tão diferente, mas o mundo observa tudo. Na Ásia e na África, quantos mundos descobertos ou ainda encobertos? A ex Rússia esfacelada, recompondo-se em muitos lugares, em vários países, novos parceiros, a Europa central repensando demarcações, a Alemanha das grandes guerras equilibrada e quase incólume.

Há um país que é um mundo à parte, misturado, miscigenado, com economia crescente e estável. Aliás, há mais de um neste patamar. Há um bocado de países emergentes botando a cara na janela e buscando o vento. Brasil, Índia, etc… Que novos rumos há para nosso velho mundo?

Dicotomia ou pluralidades? Nações unidas ou desunidas? mais guerras?
Obama recebe Dalai Lama, que é sem teto, sem o seu Tibet, sem a sua terra, rimando Obama e Lama, há qualquer coisa de poesia nesta eterna corrida pela imposição de novos Impérios!

Esperemos, que a história humana se repete ou se supera, quem sabe?

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita O Blog da Mulher Necessária

jun
12


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CRÔNICA/ ANTONIO

O que contam sobre Antonio

Maria Aparecida Torneros

Dizem que Frei Antonio pregava para os peixes. Dizem mais: que os peixinhos punham suas carinhas sobre a água e o ouviam, em contrição. São tantas as histórias que contam sobre este Santo de origem portuguesa que viveu e morreu na Itália, se fez discípulo e amigo de São Francisco.

Ele também se dedicou aos pobres, andou pregando pela África e surpreendeu aos seus contemporâneos, pelos transportes físicos, quando, ao meditar, diante dos fiéis, ele ali deixava o corpo, como que petrificado, e era visto em lugares distantes, como se pudesse se materializar, em viagem espiritual, de difícil explicação lógica, verdadeiros atributos de um mago.

Defendeu, inclusive, seu próprio pai, e este conseguiu absolvição pois era acusado sem provas e os juízes aceitaram o argumento do Santo, e seu pensamento se perpetua através do culto e da fé. Segundo registros, Santo Antônio livrou o pai da forca. Tinha havido um crime de morte em Portugal, onde nascera Santo Antônio.e todas as suspeitas do crime recaíam sobre o pai do santo.

No dia do julgamento, os juízes estavam reunidos para proferir a sentença condenatória. Assentado ali no banco dos réus, seu pai não podia se defender. Nesse momento Santo Antônio estava fazendo um sermão numa igreja da Itália.

Conta-se que, em dado instante, ele interrompeu o sermão e ficou imóvel, como se estivesse dormindo em pé. Durante esse mesmo tempo foi visto na sala do júri, em Portugal, conversando com os juizes.

Entre outras coisas, disse-Ihes o santo: Por que tanta precipitação? Posso provar a inocência do meu pai. Venham comigo até o cemitério. Aceitaram o convite. Frei Antônio mandou abrir a cova do homem assassinado e perguntou ao defunto: “Meu irmão, diga perante todos, se foi meu pai quem matou você”.

Para espanto dos juízes e de todos que ali estavam, o defunto abriu a boca e disse devagar, como se estivesse medindo as palavras: “Não foi Martinho de Bulhões quem me matou”. E tornou a calar-se. Estava provada de maneira milagrosa a inocência do seu pai. Operou-se aí dois fatos milagrosos, a bilocação, ou ato de uma pessoa estar (por milagre) em dois locais ao mesmo tempo, e o poder de reanimar os mortos.

Entre tantos legados para nossa reflexão, ele estudou e se formou em Coimbra, alguns são mesmo preciosidades :

– O pão simboliza a caridade e deve estar unida a outro alimento de boas obras.

– A esperança gera um sentimento de humildade.

– É tanta a beleza da magestade divina que anima as almas a possui-la.

– A fé e a esperança são as duas asas da alma, com elas se eleva das coisas terrenas e seascende do visível ao invisível.

– A esperança é a aceitação dos bens futuros.

– O rosto de Deus está impresso em nossa razão.

Venerado e lembrado em diversos continentes, o Santo foi se tornando lenda, adquiriu fama de encontrar coisas e pessoas perdidas, de achar companheiros e promover casamentos, de proteger os pobres, de zelar pelo pão das famílias, e suas várias histórias passam através dos séculos, fortalecendo os corações dos que o buscam na fé, como exemplo de vida e dedicação à religiosidade.
O jovem padre que se juntou aos Franciscanos da Itália, passou três anos, lecionando, pregando e fazendo milagres no sul da França – Montpellier, Toulouse, Lê Puy, Bourges, Arles e Limoges. Muitos episódios da sua passagem pela terra levam a refletir sobre seus predicados paranormais, equivalendo-se em práticas de yoguis, devido a atos contemplativos e intensas meditações.

Não é a-toa que o povo brasileiro incorporou, por herança cultural e religiosa, a devoção ao santo português, que é celebrado de norte a sul do país, com festas e folguedos, ladainhas, trezenas, orações pessoais ou em grupo.

Quanto à sua imagem, trazendo o menino Jesus nos braços, se deve ao que contou o conde Tizo. Estando o Santo em casa do conde, em Camposampiero, recolhido num quarto em oração, o conde, curioso, espreita pelas frestas de uma porta a atitude de Frei Antônio; depara-se então uma cena miraculosa: a Virgem Maria entrega o Menino Jesus nos braços de Santo Antônio.

O menino tendo os bracinhos enlaçados ao redor do pescoço do frade conversava com ele amigavelmente, arrebatando-o em doce contemplação. Sentindo-se observado, Antonio, que já estava no fim da vida ( ele morreu com 36 anos) faz conde Tiso jurar que só contaria o visto após a sua morte. A revelação deste fato resultou na figura ímpar de um santo que traz nos braços o menino Deus. Salve Antonio, o santo mago e doutor da fé e da esperança.

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, acaba de retornar da Itália, onde visitou a basílica de Santo Antonio, em Pádua. O texto que BP publica em louvor a Antonio, cujo dia se celebra nesta segunda-feira, 13 , foi escrito pela autora em junho de 2009.


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CRÔNICA

Beijo na boca, como viver sem ele?

Maria Aparecida Torneros

Sou daquelas pessoas beijoqueiras. Quando menina ( como centenas fazem) treinei muito beijando laranjas e maçãs tentando adivinhar o gosto de um futuro e prazeroso beijo na boca. Retive em mim alguns receios naturais, esperei o namorado do colégio, adiei muito e aos 17 anos, finalmente, provei da coisa ansiada, com um desajeitado sentimento de invadir e ser invadida no sorriso e na sensação de doce ou amargo, foi uma confusão.

Com o tempo, claro, esmerei-me na prática e os namoradinhos foram se sucedendo, descobri que cada ser humano beija do seu prórprio jeito e que há beijos despretenciosos e inocentes enquanto outros são provocantes e libidinosos. Os beijos de amor são identificados com o coração aos pulos, elevam-se à categoria do alerta vermelho, casamento ou sexo à vista, afinal, a carne é fraca, dizem todos por aí…
Atualizando meu vocabulário com os filhos adolescentes de amigas e amigos, incorporei o BV, boca virgem, quer dizer aquela pessoinha que ainda não beijou ninguém. Corre entre a meninada o estigma, Fulaninha é BV, coitadinha… rs…

Noutro dia, uma amiga viúva há uns poucos anos, me confessou que não abraça ou beija alguém desde que perdeu o marido, e o fez, num tom choramingado, saudoso, talvez porque o beijo que realmente lhe faz falta não é o de qualquer um, mas aquele do seu companheiro de tantos anos que partiu deixando-lhe a saudade da vida em comum e consequentemente dos seus beijos trocados por décadas.

Há casais que se beijam, pelo processo da rotina, como autômatos, nem parecem sentir a importancia dos seus beijos e a propria necessidade deles tornou-se ato cotidiano, fazendo parte do roteiro previsto na correria do dia a dia.

Os chamados beijos inesquecíveis, estes nos acompanham a vida inteira, quem não os tem por aí seja em sonho ou lembrança, atentando para os que já vimos e revimos em cenas cinematográficas ou novelas sublimadoras de solidões e abandonos pessoais. Muitas vezes ver um beijo de amor, numa cena deliciosamente bem estruturada, parece lavar a alma de quem anda carente de beijos reais…

Solteiros e divorciados precisam traçar estratégias para descolar seus beijinhos avulsos, e o conseguem, com artimanhas de pequenos encontros, conquistas, bailinhos de clubes, etc. Tudo perfeito e plausível.

Nos carnavais, nos permitimos, claro que alguns de nós, nem todos somos iguais, trocar beijos com estranhos no auge da folia… e em festas, os jovens chamados “ficantes”, fazem a fila andar e beijam vários parceiros numa só noite…

Nada a julgar, apenas constatar que o beijo nunca sai de moda, é o primeiro passo, depois do olhar (então é o segundo?) para que se aproxime de alguém com efetivo encontro de peles e tatos…

Beijar e fechar os olhos. Imaginar-se num mundo de amor e paz… Sem despedidas… Sem egoísmos, sem cobranças, sem depois…

Ficar sem beijar..Ficar sem falar. Fechar a boca.. Fechar-se aos beijos. Trancar o coração, abaixar os olhos, beijar só na saudade, e seguir vivendo, também pode ser uma escolha, uma fuga, uma decisão, um pós-trauma, um desgosto, a sensação que ninguém mais nos beijará daquele jeito…

E quantos de nós, ao entrarmos na velhice, solitários e resolvidos, voltamos a ser BVs? Parece engraçado? Pois façam uma pesquisa, há mas pessoas vivendo sem beijos na boca do que se pode imaginar… sobrevive-se, sim, verdade…

Como se vive sem um beijo na boca? Vive-se da saudade dele ou do esquecimento dele…é válido… o que pode doer é viver com desejo dele, sem se atrever a permitir-se correr atrás, dar-se uma chance…

Porque o sentimento pode assumir outras dimensões, beija-se a alma em pensamento, faz-se trabalho voluntário e caridoso, abraçam-se os necessitados de compreensão, atendam-se nossos vellhinhos, distribuam-se beijos na testa, confortem-se os sofrimentos alheios, e a vida segue…muitos casais trocam beijos na boca em homenagem a uma vida que sonham…

Quem vive sem eles, mesmo sem dar ou receber mais beijos na boca…é indispensável recordar o bolero e pedir “besame mucho” como se fora esta noche la última vez”…

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

abr
08
Posted on 08-04-2011
Filed Under (Aparecida, Crônica) by vitor on 08-04-2011

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CRÔNICA/SENTIMENTALIDADES

AMORES E REVOLUÇÕES

Maria Aparecida Torneros

Tenho passado as noites, há algumas semamas, na casa da minha mãe, de 84 anos, que anda baqueando em saúde física. Entretanto, quanto às memórias, sua saúde mental já não tão perfeita ainda dá mostras de conservar lembranças fortes, como constatei durante a apresentação do primeiro capítulo da novela “amor e revolução”, no SBT, a que assistimos juntas, em meio a uma pluralidade impossível de controlar.

Os sentimentos vieram aos borbotões, ela disparava frases sobre aqueles dias de 64, em que eu tinha 14 anos e ela 36, o quanto ela acompanhava noites adentro as transmissões da rádio da legalidade, com a voz forte e inesquecível do gaúcho Leonel Brizola a pregar o estado de direito e a permanência do presidente Jango no poder.
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Revivemos as questões familiares. Tio preso e sumido que era líder metalúrgico na Fábrica Nacional de Motores, meu pai perseguido no trabalho, por meses a fio, os vizinhos que nos estranharam, proclamando a vitória dos militares e dali por diante uma sucessão de fatos aos quais nos acostumamos a conviver. Nas esquinas, desde o subúrbio carioca onde morávamos, a caminho do centro, onde eu e meu irmão cursávamos o ginasial, nas esquinas, aparatos militares, muita boca fechada, muito medo e a sensação de que o país virava de cabeça para baixo.

No colégio, conversas sussurradas com coleguinhas mais conscientes, tentativas de compreensão e a certeza da ditadura que se instalaria e faria parte da nossa história por longo tempo.

Amores? era o nosso tempo de iniciá-los, a começar pelos jogos amorosos entre adolescentes sonhadores e indo ao encontro dos conceitos de amor à Pátria que o Colégio Pedro II tão magestosamente nos incutia através de paradas ocasionais, marchas em solenidades rotineiras, cantorias de hinos ufanistas, aulas inesquecíveis de história e geografia do nosso país imenso e rico.

Revoluções? centenas delas dentro dos nossos corações e atormentando nossas cabeças. Um ir-e-vir e informações truncadas, censuradas, mentiras, verdades camufladas, os próximos anos, tentativas de resistência, o fenômeno do militarismo acima da legalidade, o exílio de tantos, o desaparecimento de outros tantos, as torturas, as perseguições, um inferno sob a égide de um sol maravilhoso, tropical, os anos 60 escoando, a dureza do AI5 em dezembro de 68, a conquista da famosa Copa do Mundo em 70 e o mundo rondando em torno de novos ideais, resgate democrático, direito de votar, diretas já, em pouco mais de 15 anos, dentro de nós, mil amores e mil revoluções.

Pois a novela está só começando. Parece que vai misturar tudo num fervente caldeirão. Tomara que sirva para esclarecer e elucidar às novas gerações. Tomara que honre a memória dos tombados e desaparecidos, e que ajude a repassar e repensar período tão obscuro da vida brasileira.

Enquanto isso, eu e minha mãe, permanecemos juntas, testemunhas das nossas sentimentalidades e lembranças, diante de uma televisão capaz de transmitir episódios fortes, atingindo ainda que tardiamente, corações que se surpreendem frágeis, apesar das décadas que ficaram para trás. Daqui para a frente, um Brasil novo nos impele a festejar… é que acreditamos piamente…

Maria Aparecida Torneros é escritora e jornalista, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher necessária

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