Texto escrito em Boston , em 2009, quando a autora morava nos Estados Unidos e frequentava a Universidade de Harvard. Publicado na revista digital Terra Magazine e no site blog Bahia em Pauta. Vale a pena ler de novo. E conferir.

(Vitor Hugo Soares)
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Illinois e Alagoas

Rosane Santana

A “guerra contra o terror”, após o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001, marcou a gestão do presidente George W. Bush, que deixa hoje a Casa Branca. Historiadores são unânimes em realçar esse fato, ressaltado em todas as análises sobre o legado da Era Bush publicadas na última semana pela imprensa americana, repetindo dezenas de livros editados anteriormente, inclusive no Brasil. Curioso é que somente agora o fato é colocado pela mídia como uma camisa-de-força da qual não podera escapar nenhum dos próximos presidentes americanos, começando por Barack Obama que se elegeu com a promessa de mudança na política externa.

Alguns críticos sustentam que assim como na Guerra Fria, na Guerra contra o Terror não haverá espaço para políticas conciliatórias e que os Estados Unidos vão usar a força militar esmagadora para reagir a qualquer provocação, até que a população reconquiste a confiança na segurança interna, o que parece cada dia mais improvável. Basta um giro por cidades como Nova Iorque para constatar que o alerta laranja em áreas de grande concentração pública, como o metrô, virou regra geral, apesar de ignorado pelos incautos.

O terrorismo seria uma resposta à presença militar americana nos países islâmicos e o apoio a monarquias autoritárias em muitas nações árabes, além do suporte a Israel, segundo análises menos conservadoras. Nesse sentido, atentados terroristas serão recorrentes. Em contrapartida, o país verá o orçamento militar e o déficit público crescerem cada vez mais em detrimento dos recursos para a área social prometidos pelo presidente eleito, aumentando a dependência em relação a parceiros como a China e seus bilhões de dólares aplicados em letras do tesouro americano, até quando é difícil dizer.

Já em dezembro, depois de eleito, Barack Obama mudou o seu discurso: “Quando se trata de manter nossa nação segura, não somos nem democratas, nem republicanos, mas sim americanos”, afirmou, para justificar a permanência do atual secretário da Defesa, Robert Gates, à frente do Pentágono, e a indicação do general aposentado James Jones como conselheiro de Segurança Nacional, ambos republicanos.

Mais recentemente Obama também voltou atrás em relação ao fechamento de Guantánamo e não surpreenderá se mantiver a controversa legislação da Era Bush, aprovada pelo Congresso, permitindo a quebra de sigilo de e-mail, telefones, contas bancárias etc. e a prática de tortura contra suspeitos de terrorismo. No new occupant of the Oval Office can escape the grim legacy of Sept. 11 – and all of the presidential actions that followed (“nenhum novo ocupante do Salão Oval pode escapar do horrível legado de 11 de Setembro e todas as ações presidenciais que se seguiram”), segundo análise divulgada pela National Public Radio (NPR).

Em sua fala de despedida, transmitida pelas redes de TV americanas, Bush dedicou a maior parte do tempo a realçar suas ações para garantir “mais do que sete anos sem outro ataque terrorista em nosso solo” e advertiu ser esta a maior ameaça que paira sobre o governo de Barack Obama. Não há dúvida de que um fato dessa natureza seria devastador para a popularidade do novo presidente, que não tem outra saída senão seguir o receituário aplicado até aqui para evitar o pior.

No início da semana passada, enquanto a futura Secretária de Estado Hillary Clinton discursava no Senado para uma platéia de ex-colegas sobre o uso do poder inteligente em lugar da “ideologia rígida” na diplomacia, Israel promovia um verdadeiro massacre na Faixa de Gaza, com a morte de mais de mil civis, sob o silêncio de Barack Obama. Israel reproduzia, em escala reduzida, um pouco da guerra preventiva contra o terrorismo, no caso contra o Hamas, recomendada no receituário da “Guerra contra o Terror” de George W. Bush. Há retórica e mais retórica, portanto, pelo menos em relação ao Oriente Médio, onde os Estados Unidos desde sempre desejam garantir o fornecimento do petróleo para o Ocidente.

Mesmo evitando o discurso de Bush, os analistas prevêem que os próximos ocupantes da Casa Branca, inclusive Barack Obama, continuarão ignorando instituições como a ONU, como na invasão do Iraque, e a Organização do Comércio (OMS). A alegação é de que nesses fóruns as decisões são lentas e a proporção de votos de grandes potências como a China e a Índia, por exemplo, são incompatíveis com o seu contingente populacional quando comparadas com países menores, bem como considerada inadmissível a capacidade de veto destes últimos, menos expressivos, especialmente quando estiver em jogo a segurança interna dos Estados Unidos. Essas organizações, sem uma reforma, terão um papel cada vez mais secundário no cenário internacional, o que indica a permanência de uma política externa unilateralista na América.

Há, portanto, “muito mais mistérios do que possa imaginar nossa vã filosofia” nas movimentações de Obama, sua viagem de trem, suas aparições inesperadas em locais públicos e suas incursões pelo espaço cibernético, que não sei o porquê, sempre me fazem recordar as peripécias esportivas de Fernando Collor, também contrárias às medidas de segurança, quando se deixava fotografar em disparada em sua potente motocicleta ou em trajes de karateca.

Aliás, Illinois e Alagoas guardam em comum histórias nada edificantes na política.

Rosane Santana é jornalista

Comentários

vangelis on 10 junho, 2013 at 14:38 #

BIG BROTHER – a curiosidade de Obama…

http://obamaischeckingyouremail.tumblr.com/


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