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Arena Fonte Nova: futebol e política na inauguração

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ARTIGO DA SEMANA

Metrô de Salvador:o abacaxi transferido

Vitor Hugo Soares

Com o novo ministro dos Transportes, Cesar Borges (um ex-carlista de raiz) a tiracolo, na sua reduzida comitiva, a presidente Dilma Rousseff desembarcou na manhã de sexta-feira (5) em Salvador. Veio participar do ato restrito (mas nem tanto) de entrega da Arena Fonte Nova – um dos palcos mais suntuosos dos vários que estão sendo construídos no País para a Copa das Confederações, este ano, e a Copa do Mundo, em 2014, ano de referência para o futebol e a política no Brasil.

Desta vez, a estada presidencial produziu consequências administrativas e políticas de alguma relevância. Ao contrário da passagem pela capital baiana no mês de fevereiro, em pleno carnaval, para descansar na Base Naval de Aratu.

Então, o único fato de destaque produzido foi a topada que fissurou um dedo do pé da presidente da República e a obrigou a maneirar por um tempo na agenda (principalmente a de viagens) e exibir uma nada elegante (embora reconhecidamente confortável) sandália “Croc” nas cerimônias oficiais.

Vamos a exemplos concretos, sempre aconselháveis, e mesmo indispensáveis, na contextualização de fatos jornalísticos.

Ontem, cedinho, começou uma correria marcada por tensão flutuante. Visíveis não apenas no nervosismo das equipes de segurança e de organização da “mobilização urbana”, que antes se chamava de “trânsito caótico” e estressante, quase enlouquecedor, da cidade da Bahia.

Poucas horas antes (quase minutos) da presidente descer na Base Aérea de Salvador para cumprir de carro o largo percurso que separa o aeroporto da capital do Dique do Tororó – cenário de cartão-postal, em cujas margens fica a “arena” (antigo Estádio Octávio Mangabeira)-, o governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, promoveu uma reunião de emergência com o prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM.

Na agenda, o tema principal não foi a entrega da “arena”, obra majestosa e cara, mas pronta em menos de três anos para ser mostrada à presidente, e inaugurada “para a massa” dois dias depois, em histórico BAxVI pelo campeonato baiano, neste domingo (7).

O assunto foi outro, bem mais complicado e polêmico: o Metrô de Salvador, construção vergonhosamente interminável de apenas seis quilômetros na primeira etapa, que já consumiu quase R$ 1 bilhão, em 13 anos de denúncias cavernosas de desvios e equívocos, sem conduzir até agora um único passageiro.

Na verdade, um problemão a ser ainda resolvido. Algo que se pode denominar em simples e bom “baianês” soteropolitano, de autêntico “abacaxi de caroço”.

Vamos aos fatos, para encurtar esta história estranha, atrapalhada e que parece sem fim na Bahia. A ponto de causar incômodos constrangimentos na presidente Dilma, apesar das aparentemente descontraídas imagens de marketing produzidas ontem na Arena Fonte Nova. A começar pelo ponta-pé inicial na bola efetuado por Dilma, passe inaugural dado ao companheiro de time petista, Jaques Wagner.

O gol político quase de placa, no entanto, diga-se a bem da verdade, foi marcado pelo prefeito de Salvador, do DEM, ACM Neto. Adversário que se revelou duro de roer desde a última campanha municipal. Mesmo em fase “de amor e flor” com o governador e a presidente, o prefeito Netinho (como denomina um site de sucesso nas redes sociais) deu dribles de craque e terminou jogando o abacaxi do metrô no fundo das redes do governador Wagner. Por extensão, também no gol do governo federal, defendido por Dilma.

Sob pressão do iminente desembarque de Dilma na cidade, no encontro de Jaques com ACM Neto ficou enfim decidido: A administração da Linha 1 do metrô, já construída – liga a Estação da Lapa-Estação Acesso Norte/Rótula do Abacaxi, quanta ironia!) será transferida para o governo do Estado. A informação, confirmada pelas duas assessorias, também foi divulgada através do perfil do governador, no Twitter.

Uma aparente vitória da “proposta do governador Wagner”, segundo propagam aos quatro ventos os integrantes e aliados mais fiéis do governo petista. Na realidade, riem os seguidores do prefeito do DEM, tudo (ou quase) que ACM Neto queria.

A começar por se livrar da gestão de um dos mais caros e escandalosos abacaxis da administração pública do Brasil nestes tempos temerários. De quebra, o Estado assume também um antigo pepino municipal: o sistema ferroviário que serve à sofrida população do subúrbio de Salvador.

O acordo de transferência pactuado ontem, antes da chegada da presidente Dilma, será assinado por Wagner e ACM Neto na segunda-feira, 8, um dia depois do BA x VI de inauguração da Arena Fonte Nova.

“Eia, estamos na Bahia!”, diria, se vivo estivesse, o poeta satírico Gregório de Mattos, que conhecia e falava da terrinha como ninguém. Ou não? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares, jornalista, edita o blog Bahia em Pauta, em Salvador. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br.

Comentários

vangelis on 6 abril, 2013 at 21:15 #

Tia Dilma batendo nessa bola nesse estádio de futebol, que agora querem porque querem chamar de arena, trouxe-me lembranças da Velha Fonte Nova, dos anos 70, do Sapatão grande zagueiro do Bahia e do bom futebol que ali era jogado…


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