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OPINIÃO POLÍTICA

Reconfiguração no continente

Ivan de Carvalho

O Hugo Chávez deveria iniciar no dia 10, quinta-feira, mais um mandato de presidente da Venezuela. Não vai ser possível, como já está evidente. Ele está travando, no melhor hospital de Cuba – o que talvez não seja esses balaios todos –, uma luta cujo desfecho não deve ser antecipado, mas, pelos sinais emitidos não se afigura animador, contra um câncer (com metástase) no que o governo chavista e o hospital convencionaram chamar de “região pélvica”.

Os detalhes resumem-se, na fase atual – a mais dramática das várias que já atravessou por causa da doença – às informações de que o pós-operatório desta quarta cirurgia nos últimos 18 meses é “complexo”, de que houve um episódio hemorrágico logo após a cirurgia do último dia 11 e de que, até ontem, a febre era permanente e uma severa infecção pulmonar exigia tratamento rigoroso e causava insuficiência respiratória, obrigando ao uso de respiração assistida.

O segredo oficial em torno do caso é o maior possível. Só é informado o que não pode deixar de ser. Com isso, alarga-se o espaço para boatos, rumores e informações de fontes que podem ser boas ou não, mas são necessariamente anônimas e pintam um quadro notoriamente terminal.

De qualquer maneira, o óbvio é que Chávez não estará em condições de tomar posse no seu novo mandato no dia 10, como prevê a Constituição da Venezuela. E prevê também que, isso não ocorrendo, a eleição de um novo presidente se fará imediatamente. Uma idéia de adiar-se o dia da posse, à espera de uma eventual recuperação de Chávez, foi lançada, talvez como um balão de ensaio, mas energicamente recusada pela oposição.

As forças e lideranças políticas governistas anunciaram haver feito um pacto de unidade e já há um eventual candidato a presidente indicado pelo próprio Chávez, o vice-presidente Nicolas Maduro, que emergiu do meio sindical para a política. É aceito como candidato natural pelos chavistas, mas não lhe será fácil ocupar o mesmo espaço político que o ditador-presidente Hugo Chávez vinha ocupando não somente na Venezuela, mas na América do Sul e até além.

As oposições, no entanto, vêm de uma derrota marcante nas eleições regionais, principalmente de governadores. O principal líder oposicionista, Henrique Capriles, que enfrentou Chávez na última eleição presidencial, elegeu-se governador na importante província de Miranda (parte da capital Caracas) e é o candidato natural das oposições, mas ainda não há certeza de que estas estarão firmemente unidas. E a unidade, não somente formal, mas real, é indispensável para que tenham alguma chance de vitória contra Maduro.

O fato é que a provável saída de Hugo Chávez da cena política deverá produzir consequências importantes na política da América do Sul, principalmente. A isso se soma a crise política e econômica à qual a presidente argentina Cristina Kirchner e seu governo tentam sobreviver. E a situação no Paraguai, onde o ex-presidente Fernando Lugo teve seu mandato cassado pela esmagadora maioria do parlamento e tentará voltar à presidência nas eleições deste ano.

A configuração política que se formara na América do Sul parece haver entrado em processo de mudança devido a causas aparentemente independentes, mas que em seus efeitos podem interpenetrar-se, numa sinergia talvez capaz de acelerar uma reconfiguração.

LÁ E CÁ – O ministro de Comunicação da Venezuela, Ernesto Villegas, na quinta-feira, fez uma comunicação em rede nacional de rádio e televisão para informar (insuficientemente) sobre o estado de saúde de Hugo Chávez. Aproveitou para denunciar uma onda de rumores e culpar a mídia por dar demasiada atenção à saúde do presidente enfermo e reeleito, com o objetivo de desestabilizar a Venezuela.

Chávez, o ditador-presidente, reelege-se, tem posse marcada para o dia 10, está em gravíssimo estado de saúde em Cuba e a culpa é da mídia. Lá, eles têm dado passos enormes para a regulação da mídia. Já “regularam” a maior parte dela. Aqui no Brasil, tenta-se desencadear o processo.

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