Última edição do JT: toque de filme “noir”
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ARTIGO DA SEMANA

A MORTE DO JT ( E O JB )

Vitor Hugo Soares

Na quarta-feira desta semana (31/10/2012), chegou às bancas de São Paulo a última edição do Jornal da Tarde. Na manchete um agradecimento óbvio, previsível e restrito demais: “Obrigado, São Paulo”. Na ilustração, uma fotografia que dizia mais, muito mais: o centro da capital paulista na semi-escuridão, dividida em pequenas partes visíves e grandes espaços encobertos.

Na imagem, um toque de tensão e melancolia de filme “noir”. Faz lembrar o diário brasileiro criativo e inovador nascido na segunda metade da década de 60. Morto e sepultado aos 46 anos de idade, na quinta-feira (1/11/2012), irônica e simbolicamente uma véspera de Dia de Finados.

Dói no peito do jornalista que escreve estas linhas de Salvador, como um corte de “peixeira de baiano” mal amolada. E tudo isso junto remete a uma das sensações mais amargas e pungentes de que me recordo em minha vida pessoal e profissional.

O caso tem relação com a morte de outro diário, este de circulação nacional e peso informativo e de opinião bem mais profundo e amplo: o Jornal do Brasil, onde trabalhei durante 17 anos, atuando na sucursal da Bahia. Aconteceu no Rio de Janeiro, onde eu acabara de desembarcar em glorioso e ensolarado dia de domingo, para participar dos trabalhos da comissão de seleção dos melhores trabalhos jornalísticos da edição histórica dos 50 anos do Prêmio Esso.

Era janeiro de 2006, quando eu respondia pela Editoria de Opinião de A Tarde, jornal baiano que comemorou 100 anos mês passado

Então o JB – a exemplo do JT nestes seus últimos dias – sangrava em prolongada e sofrida agonia, antes do amargo fim e do sepultamento da inigualável edição impressa de um dos mais extraordinários e importantes jornais na história da imprensa brasileira e da América Latina em qualquer tempo.

No táxi que tomei naquele dia no Aeroporto do Galeão (Tom Jobim) para atravessar a Linha Amarela a caminho do hotel em Ipanema, onde se reuniria a Comissão do Esso, tive um susto sem tamanho ao passar – depois de vários anos de ausência da Cidade Maravilhosa e já fora da empresa – bem na frente do quase totalmente arruinado prédio da sede do JB, na Avenida Brasil 500.

A casa do grande JB, abandonada, acabara de ser invadida por grupos de sem-teto de comunidades pobres de áreas próximas. Fotos de outros jornais cariocas e imagens em movimento na televisão mostraram pessoas carregando na cabeça o que conseguiram arrancar da casa do moribundo antes do último suspiro: portas, armários, mesas, cadeiras, divisórias, luminárias. Levaram junto, pedaços da cultura, da história e da memória de um País.

Ainda sob impacto da leitura do editorial do grupo Estado, comunicando aos leitores o fim do paulistano JT, sinto necessidade de reproduzir, como desabafo, trechos do que disse “a sangue quente” no artigo que escrevi na época, sobre o que sentí naquele começo de tarde no Rio, diante das ruínas do JB:

“O prédio abrigou o jornal durante 29 anos, tempo suficiente para, praticamente, servir de sepultura a uma mais que centenária legenda da imprensa brasileira. Obrigada a pagar as milionárias dívidas contraídas em tempo de baixa irreal do dólar (na época do “milagre econômico” da ditadura), a empresa se descapitalizou.

Veio então a asfixia financeira, sofregamente enfrentada com a venda das rádios AM e FM. A queda no precipício começou em 2002, no arrendamento por 60 anos do que restava do grupo, com o jornal incluído no pacote, e o abandono do prédio. O JB retornou, agora como inquilino, à antiga sede da Avenida Rio Branco, onde purga o restante dos seus pecados.

Inúmeras vezes andei na sede da Avenida Brasil 500 como ovelha desgarrada de Salvador. Ia participar de reuniões de planejamento de coberturas com alcance nacional: da Política, da Geral, da Economia, do Esporte. Sou testemunha ocular do vigor e euforia – às vezes, tensão à flor da pele – que percorriam todas as editorias do jornal como fagulha elétrica. O entusiasmo começava na proprietária do JB, a Condessa Pereira Carneiro.

Como esquecer? Das reuniões de pauta, das idéias e debates da cobertura estimulados´, em diferentes fases, por profissionais como Carlos Castelo Branco (Castelinho), João Saldanha, Sandro Moreira, Juarez Bahia, Zózimo Barroso do Amaral , Félix de Athayde, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos que se foram. Ou por Alberto Dines, que o reformulou, Paulo Henrique Amorim, Ziraldo, Zuenir Ventura, Artur Xexéo, Ricardo Noblat, Rosental Calmon Alves, Marcos Sá Correia, Élio Gáspari, Walder de Góes, Carlos Lemos, Hedyl Vale, Renato Machado, Xico Vargas, Beatriz Bonfim, Miriam Leitão, entre tantos que ainda aí estão, espalhados por outras redações, ou no próprio JB, como Evandro Teixeira e Rogério Reis, que revejo nesta viagem (també m naquela comissão do Esso). Sem falar da Rádio JB: Ana Maria Machado – hoje imortal da ABL – e o incansável Procópio Mineiro à frente.
Na passagem, a visão do estrago, mesmo à distancia, dói fundo. O prédio do JB virou um edifício-fantasma de nove andares na entrada da cidade. Abandonado, várias vezes saqueado e depredado, os sem-teto levaram móveis, divisórias, portas e janelas. Os objetos de cobre, mais valiosos, foram vendidos como sucata por R$ 8 o quilo e o alumínio a R$ 6.

Atento, o motorista do táxi percebe as lágrimas e se espanta. “O ar do Rio continua com essa poluição insuportável!”, minto. O educado taxista finge acreditar na desculpa, mesmo diante do límpido e ensolarado dia que faz”. Encerro aqui a transcrição (o texto completo anda pela Internet) para não precisar inventar outra desculpa qualquer, se algum curioso perguntar por que estou enxugando os olhos, agora, na frente do teclado do computador, enquanto escrevo estas linhas semanais.

Diante do fechamento do Jornal da Tarde, nascido em 4 de janeiro de 1966, por onde transitaram profissionais como Mino Carta, seu idealizador, Rogério Sganzerla, Fernando Morais, Maurice Capovilla, Sábato Magaldi, Fernando Portella, Leo Gilson Ribeiro, Jota Jota de Moraes, Mauricio Kubrusly, Olney Kruse, Eric Nepomuceno, Luiz Nassif, entre tantos outros, mortos e vivos da arte, cultura e talento do jornalismo brasileiro, eu possa responder com a verdade, como é dever na profissão: “Choro na véspera de Finados pelo JT , pelo JB e pelo País”

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

Olivia on 3 novembro, 2012 at 7:59 #

Beleza de artigo. Já compartilhei no twitter. Bravo!


Mariana Soares on 3 novembro, 2012 at 10:39 #

Mais um belo e emocionante artigo! Viva! Parabéns!
Que bom que você é tão diferente dessa gente estúpida e sem coração que enchem muitas redações por aí!


Mariana Soares on 3 novembro, 2012 at 10:43 #

Ah! Lembro que estivemos juntos nesta época no Rio, eu você, Olivia, Biga e Joca, quando fomos tomar uma na Lapa! Grande e inesquecível encontro! Bjos, Mari


Graça Azevedo on 3 novembro, 2012 at 11:10 #

Mais um artigo que nos emociona e enriquece. Agradecemos!
Quando fui ao Rio em agosto, comentei com o jornaleiro em uma banca em Ipanema, que sentia falta do JB. E ele me respondeu: “o Rio hoje, para minha tristeza, é cidade de um jornal só.” Sabedoria do povo.


vitor on 3 novembro, 2012 at 20:36 #

Verdade, Mariana. Boa memória!E depois fomos todos para o Garcia & Rodriguez, no Leblon, que também não existe mais. Foi lá a saideira, com pão e vinho.
Tim Tim


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