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OPINIÃO POLÍTICA

De primavera a verão

Ivan de Carvalho

Começou como Primavera Árabe, mas passaram o tempo e muitos fatos e já agora não dá mais para usar essa esperançosa denominação primaveril. O fenômeno atingiu a estação do verão, muito quente, como sempre na região. Os riscos parecem aumentar gradualmente, mas sem cessar.

Primeiro, um dado não árabe que se insere no conjunto. O contencioso Israel – Irã. Este último país, dominado por uma teocracia radical de linha xiita, corrente minoritária no islã, mas forte, ousada e geralmente agressiva, desenvolve um programa nuclear, parte ostensivo, parte secreto.
Nove em cada dez especialistas no assunto (inclusive os cientistas e técnicos da ONU) acreditam que a intenção é construir armas nucleares. Embora abarrotado de petróleo, o Irã insiste que seu programa nuclear tem fins pacíficos, de produção de energia. Mas não abre mão do processo de enriquecimento do urânio nem deixa ninguém ver a tal parte secreta das instalações nucleares.

Ora, a teocracia iraniana tem como primeiro objetivo manter-se no poder e, como segundo, extinguir o Estado de Israel. Enquanto isso, Israel estuda uma eventual e difícil ação bélica contra as instalações nucleares iranianas. Não dá para saber de onde vem esse ódio todo do Irã por Israel, até porque historicamente o Irã, antiga Pérsia, se deu muito bem com o povo de Israel. Na Antiguidade, Ciro, rei da Pérsia, citado na Bíblia como ungido pelo Senhor, venceu Babilônia e libertou os israelitas que eram escravos lá. No século passado, antes da teocracia fundada por Khomeini assumir o poder, o Irã, governado pelo Xá Reza Pahlevi, mantinha relações diplomáticas e de amizade com o Estado de Israel.

Hoje, no entanto, o Irã patrocina atentados terroristas contra Israel em qualquer parte do mundo em que haja oportunidade para isso, financia e arma o Hezbollah, movimento terrorista anti-israelense “sediado” no sul do Líbano e dá a cobertura possível ao Hamas.

No mundo árabe, as coisas mudam. Parece que começam a mudar no Egito, sutilmente. O tratado de paz deste país com Israel é fundamental à relativa (nunca é plena) estabilidade política e militar na região. Os militares egípcios são favoráveis ao tratado e ainda têm muita influência em seu país, que, no entanto, elegeu um presidente, Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana, movimento clandestino antes da queda do regime anterior, liderado por Hosni Mubarack.

Na semana passada houve um conflito dentro do Egito, perto da fronteira com a Faixa de Gaza, dominada pelo movimento palestino terrorista Hamas, que, como o Irã, quer a extinção do Estado de Israel. Terroristas saíram de Gaza usando uma rede clandestina de túneis, alcançaram um grupamento militar egípcio, mataram soldados egípcios, apreenderam armas e carros de guerra. Com esse material, tentaram atravessar a fronteira com Israel para atacar israelenses. Foram repelidos.

Agora, enquanto o governo egípcio de Mohamed Morsi determina uma operação de fechamento dos túneis, a Irmandade Muçulmana que ele comandava antes de ser eleito presidente declara que é preciso fazer uma revisão importante no tratado de paz Egito – Israel. É um gritante sinal de perigo.

Se tudo isso acontece no Egito, na Síria acontece muito mais. Uma revolta começou em março do ano passado, poucos acreditaram que iria adiante, mas ela cresceu e tornou-se um grave conflito interno que já superou o recorde de matança de 20 mil pessoas estabelecido em 1982 pelo ex-ditador vitalício Hafez Assad, pai do atual ditador vitalício Bashar al-Assad. Ninguém sabe ainda o que a Síria, implacável inimiga de Israel, com o qual tem litigiosa fronteira, será ao fim desse conflito

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