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Gabriela 2012: cenas de antologia na TV
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ARTIGO DA SEMANA

Ilhéus de Gabriela, Brasília dos caças

Vitor Hugo Soares

A Ilhéus povoada de quengas e coronéis da novela Gabriela, adaptação do famoso romance de Jorge Amado, que outra vez encanta e surpreende o País no horário das 11h, da TV Globo, produziu imagens emblemáticas nos últimos oito dias. Coisas bonitas de ver e que também fazem pensar como se verá nestas linhas.

Impressionantes mesmo quando comparadas com as cenas, incrivelmente reais, dos voos rasantes de caças da FAB sobre o espaço aéreo da Praça dos Três Poderes, em Brasília. Vidraças estilhaçadas do prédio do STF, e trincadas no Senado e no Palácio do Planalto. Tudo mostrado para o mundo em meio ao espanto de turistas e de moradores do lugar, que pontuam vídeos amadores produzidos e espalhados no YouTube e outros espaços de informação.

É ensurdecedor o “silêncio obsequioso”, cheio de dedos ou claramente complacente, diante deste episódio digno de figurar em filmes do tipo Teoria da Conspiração. Mais ainda, nas pautas e matérias jornalísticas de veículos de comunicação que deveriam investigar melhor fatos como este: carregados de dúvidas, elementos de polêmica, além de suspeitas, que, mais que reflexão, cobram esclarecimentos públicos e transparentes e punições exemplares .

Menos de uma semana depois do fato espantoso (ou simples trapalhada à luz do dia, temperada de incompetência e omissão?) na cidade do poder, o silêncio é ensurdecedor no Planalto Central. Mesmo no prédio do Supremo, o mais diretamente atingido, povoado de magistrados de ouvidos sensíveis aos ruídos, alguns deles notoriamente figuras esquentadas e que não costumam levar desaforos para casa.

Neste caso, é praticamente como se nada de incomum tivesse acontecido. Mal comparando, uma espécie de ensaio geral da cegueira (e da perda da voz), como no romance magistral de Saramago, transformado em filme apresentado esta semana em canal privado de TV.

Então sobrevoemos agora com atenção e respeito a cidade de Ilhéus de Gabriela, do turco Nacib, do coronel Ramiro Bastos e seu filho pusilânime e mulherengo, Tonico. Miremos o universo romântico e cruel, belo, contraditório e instigante da obra de Jorge Amado, mostrado em forma de folhetim com direção de Walcyr Carrasco. A Ilhéus dos padres fazendeiros e complacentes, dos jornalistas ambíguos nos embates da política e nas relações com o poder e com os poderosos. A cidade dos poéticos professores, das mulheres doces e aparentemente submissas, mas indomáveis em suas lutas existenciais e em suas paixões amorosas.

Das jovens revolucionárias do seu tempo, como Gerusa e Malvina. Das putas encantadoras e comoventes do Bataclan. Dos boêmios do Bar Vesúvio. Dos políticos da Bahia e do País em seus labirintos, contradições ou pura safadeza. De Gabriela, enfim, no centro de tudo e no pensamento de todos: a linda, doce e tentadora “filha do povo” banida, pela seca e pela miséria, de sua terra sertaneja, que aporta no litoral sul baiano para seduzir e conquistar Ilhéus portentosa na riqueza do cacau e de seus poderosos coroneis.

Estes ambientes e estes personagem brilharam intensamente, esta semana, na tela da Globo, em momentos marcantes de pelo menos dois capítulos, dignos de figurar em antologias das melhores novelas da televisão brasileira em todos os tempos: a procissão pedindo chuvas para salvar a esturricada lavoura do cacau; o tango comovente dançado pela quenga Zarolha com Nacib, ao se despedir de seu amado “turquinho”, caído de amores por Gabriela; a invasão do jornal de Ilhéus e o diálogo de arrepiar do coronel Ramiro Bastos com o jornalista Douglas sobre a relação imprensa e poder. Imagens e interpretações para não esquecer.

Quinta-feira(5), em Paraty, na décima edição da FLIP, Jorge Amado ressurgiu, também, do limbo nacional onde o notável romancista havia sido lançado, com a sua obra, desde a sua morte em Salvador. Foi trazido outra vez para o centro do palco e dos debates, no emocionante encontro do escritor João Ubaldo com o diretor da novela, Walcyr Carrasco, mediado pelo jornalista Edney Silvestre.

Por um tempo “Gabriela” figurou como o romance que marcaria o afastamento do autor da esquerda e do Partidão (PCB). Ubaldo não engole de todo a ideia.

“Gabriela não é um momento de ruptura, porque de fato isso não aconteceu de forma tão deliberada. O que houve foi que, ao escrever o romance, Jorge, que morava no Rio, estava se preparando para voltar a viver na Bahia. O que mudou naquele momento foi uma postura diante da vida e não uma concepção ideológica. A partir daí, ele engordou estilisticamente, foi tomando uma certa pachorra diante da vida. Inúmeras vezes eu o ouvi dizer “compadre, existe filho de puta tanto de direita quanto na equerda”, revelou o autor de “Viva o Povo Brasileiro” em Paraty.

A novela “Gabriela” mostra isso à perfeição. Vale a pena conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-maiI: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

rosane santana on 7 julho, 2012 at 9:59 #

É, caro Vitor, e neste momento o que mais existe é filho da puta de “esquerda”. Beleza de artigo!


luiz alfredo motta fontana on 7 julho, 2012 at 11:50 #

Caro VHS

O silêncio do STF face aos excessos das forças armadas é histórico.

Quem permaneceu calado por longos 21 anos (1964-1985), cala-se durante um desastrado voo rasante sem pestanejar.

Já a Gabriela só me traz saudades de Sonia Braga.


vangelis on 7 julho, 2012 at 11:56 #

Caro Vitor,
Jorge Amado é o nosso ícone maior da literatura baiana, jamais estará no limbo nacional, até porque era declaradamente ateu, mesmo para aqueles que não leem os seus livros, tantos os filmes e as novelas deixaram e deixarão a sua marca nesses não leitores.
Interessante é que nesses tempos em que se fala de caboclo estranho no Governo da Bahia, em 1945 dois comunistas baianos, do Pecebão, foram eleitos a deputado federal por São Paulo, Jorge Amado e Milton Caires de Brito e participaram da constituinte de 1946. Milton permaceu fiel aos ideais até a morte, não chegou a ver a queda do muro de Berlin.
Jorge abandonou o Partido Comunista Brasileiro desencantado com o stanilismo que assassinou milhões de pessoas na imposição do seu(lá dele) regime. Talvez, por isso, muitos camaradas fizeram-lhe críticas, diziam que muito do seu sucesso editorial na Europa foi o Partido Comunista que lhe ajudou, daí tenha saído a frase de constação para o “cumpadre” João Ubaldo: “Tem filho da puta de direita e filho da puta de esquerda” . Como um sábio parece que anteviu a queda do muro de Berlin. O jornalista Tito Celestino, que também foi do PECEBÃO e como muitos se desencantaram com o Partidão, partiram para o desbunde a la Gabeira, dizia que gostava dos seus romances, mas, amava e era especialista nos livros da Zélia Gattai. Adorava!
Jorge Amado pertencia a outra geração.

Ops, a cegueira quase me pega! E os aviões por que deram rasante?

P.S.: Jorge Amado o Nobel deve-lhe o prêmio.
“Em 1958, escreveu “Gabriela cravo e canela”, passando, a partir daí, a ser um contador de histórias. Nas histórias contadas por ele fez uso do romantismo e da sensualidade característicos do povo baiano. No seu retorno às letras, alguns críticos disseram que o romance “Gabriela” era um marco na sua carreira de escritor. Ele acabara de sair do partido Comunista, ao qual pertencera durante vinte anos. A essa crítica, Jorge Amado respondeu anos mais tarde: “Existe essa idéia de que eu escrevi “Gabriela”, porque tinha saído do Partido Comunista. Não é verdade. Eu teria escrito esse romance de qualquer maneira porque, como eu disse, “Gabriela” representa uma continuidade dentro de minha obra”. “Gabriela” vendeu 20 mil exemplares nos primeiros quinze dias e, em três anos, foi reeditado vinte vezes. Era a consagração total para o escritor.”
“Vendi Gabriela barato demais, por 100 mil dólares. E depois fizeram esse pornozinho qualquer que descaracterizou e vulgarizou meu livro”.
“Fazer oitenta anos significa perder o tesão, porque a beleza está na força da juventude”.
“A idéia da velhice não me atrai”.
“Em um país sem memória, quem morre é imediatamente esquecido. Quando eu morrer, vou passar uns vinte anos esquecido”.

http://www.youtube.com/watch?v=gXHYGwkpt3g

http://www.youtube.com/watch?v=RFhE2fvYG04


Mariana Soares on 7 julho, 2012 at 12:48 #

Belo artigo, meu irmão!
O silencio do poder, quando lhe é conveniente, já não é mais novidade e nem me espanta, tudo se resume na tal da aprovação popular, cantada em versos e provas das pesquisas.
Quem sabe o “incidente” no Predio do STF adiasse um pouquinho mais o inicio do julgamento do mensalão, ou mesmo servisse para sinalizar algo além aos nobres magistrados??? Ninguém jamais saberá, isto morrerá como outros tantos segredos nacionais…Deixa pra lá…
Gabriela, a novela, é claro, nos ajuda a exorcisar estas “duvidas”.
Bom sábado a todos!


vitor on 7 julho, 2012 at 12:59 #

SINTO SAUDADES TAMBÉM, POETA. MUITA SAUDADE.PRINCIPALMENTE DO PRIMEIRO ENCONTRO COM SONIA-GABRIELA, QUANDO ELA ESTEVE EM SALVADOR PARA CONVERSAR COM JORGE AMADO NA CASA DO RIO VERMELHO E EU TRABALHAVA NO JORNAL DO BRASIL. UMA COISA, POETA!

AINDA ASSIM NÃO PERCO UM CAPÍTULO DA GABRIELA 2012. CADA DIA MELHOR, PENA QUE AGORA SÓ NA TERÇA-FEIRA!

TIM TIM

Vitor Hugo


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