Noites(e dias) de medo e vazio no verão de Salvador
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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

De Salvador (BA)

Os seguidores do Candomblé cobrem Yemanjá de cravos e rosas, os atabaques anunciam o orixá do mar, as contas em azul e branco escorrem nos tabuleiros. Na praia do Rio Vermelho, os barcos vão ao alto-mar, pejados de flores. “Chegou, chegou, chegou/ Afinal que o dia dela chegou”. A canção de Caymmi governa o Dois de Fevereiro. O som de uma das barracas a confronta: “Minha vó tá maluca/ Tanta coisa pra comprar, ela compra uma peruca”.

Os milhares de devotos, místicos e transbaianos ignoram a greve parcial da Polícia Militar. Mas os pequenos furtos, as enfiadas de mão nos bolsos e uma certa agressividade, alimentadas pela presença recolhida de policiais, anunciavam qualquer coisa. Na Avenida Paralela acontecera qualquer coisa, não ali. Houve qualquer coisa na Avenida Sete. E um arrastão, qualquer coisa assim, no Imbuí. As mensagens são disparadas pelos celulares, durante almoços festivos: “Merda geral na cidade”, “Tiroteio na Paralela”, “Fique aí, tem arrastão”.

Os boatos abafam Caymmi e limpam a noite do Dois de Fevereiro, por tradição fervilhante no Mercado do Peixe. Policiais encapuzados paralisam os ônibus. O pânico em Feira de Santana. O governador está em Cuba. O prefeito de Salvador prefere o Rio de Janeiro, onde seria surpreendido num cooper, em Copacabana, pela cantora Mariella Santiago.

A cidade vazia se impõe. Dezoito homicídios na região metropolitana. Dois dias depois, na Colônia de Pescadores do Rio Vermelho, a própria Casa de Yemanjá seria arrombada por ladrões – os quais, num refluxo, levaram as moedas ofertadas à Mãe d’Água. Do Centro à periferia, a madrugada cairia em saques, homicídios e assaltos, apesar da convocação da Força Nacional.

A “grande noite de paz da Bahia”, evocada por Jorge Amado em Capitães da Areia, aos poucos seria apenas vazia. Bem antes da greve, um passeio noturno por Salvador poderia demonstrar a morte das ruas, pois há uma década a cidade de cultura popular e de boemia ancestral se converteu num reduto do medo.

“Essa porra hoje vai inchar”, diz o motorista de táxi, enquanto observa as praias vazias e os primeiros grupos de soldados do Exército. Por hábito engarrafada, Salvador tem um fluxo menor de carros. À tarde, no bairro litorâneo da Barra, um dono de banca de revista, assustado por boatos, começa a guardar seus magazines. “O arrastão está na Graça, descendo para aqui. Vamos fechar”. Na Avenida Sete, de comércio popular, os lojistas iniciam a cerimônia de encerramento.

Nas televisões, o jornalismo de sensação e de histeria – a linguagem também se rebaixa em comentários cafajestes. A palavra: “bandidagem”. Volta a noite. Em pronunciamento, após regressar de Cuba, o governador Jaques Wagner fala em “momentos de intranquilidade” e garante: “agi imediatamente e com rigor”.

O terror recolhe os baianos, apesar das tranquilidades do Estado. No Solar do Unhão, o show de Karina Burh está cancelado. Outros espetáculos tomam rumo igual, da Timbalada a Ivete Sangalo. O Pelourinho em silêncio. Mesmo os tradicionais puteiros seguem fechados. No Santo Antonio Além do Carmo, os bares são salvos pela frequência marciana de turistas.

Do início da greve, em 31 de janeiro, até a madrugada deste sábado (4), a Bahia registrou 53 homicídios. Uma guerra cotidiana, não apenas episódica, realçada pela greve de 30% da PM (estimativa oficial). Na laje de um bar do Santo Antônio, em cima da encosta que rasga a topografia de Salvador, vê-se, outra vez, “a grande noite de paz”. E a cidade vazia. Poucos carros deslizam nas avenidas da Cidade Baixa. O porto permanece reluzente, com navios ancorados na larga barra. A Igreja do Bonfim está apagada. O verão do medo, somado à noite de paz, ganharia mais doze mortos até o amanhecer.

Comentários

Graça Azevedo on 5 fevereiro, 2012 at 0:20 #

Tão poético o seu texto que quase esconde o horror do que acontece. Lindo, como sempre.


Gracinha on 5 fevereiro, 2012 at 3:06 #

Muito lindo!!! Gostei imensamente tb do” O medo em lugar da alegria” de Samuel Celestino, publicado no Bahia Noticias.


rosane santana on 5 fevereiro, 2012 at 8:52 #

Graça e Gracinha falam por mim, que antes já tive vontade de postar um comentário e não o fiz. Cláudio, não perca tempo, porque a vida é curta. Seu campo é a literatura. Tenha a coragem de abraçá-la. O tempo urge! Não seja uma carolina. “É preciso estar atento e forte”. Dé no pé, já! Tá passando da hora, irmão!beijos.


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