Fernando Peres:”editores não ganham
dinheiro com poesia”. Foto Divulgação
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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Em seu novo livro de versos, “Bula Pro Nobis”, o poeta e historiador Fernando da Rocha Peres enfrenta a morte, a perplexidade religiosa e a própria hipocondria na criação poética. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e ex-diretor do Iphan, Peres é um dos mais importantes escritores baianos.

Autor de “Memória da Sé” – obra elogiada por Drummond, Jorge Amado e Pedro Nava -, ele construiu, paralelamente à historiografia, uma obra poética que inclui “Febre Terçã” e “Estranhuras”. Nava confiou-lhe a edição das cartas recebidas de Mário de Andrade, reunidas em “Correspondente contumaz”, de 1982. Em “Bula Pro Novis”, o memorialista mineiro, que cometeu suicídio em 1984, ressurge no poema “Sem Código”:

“O suicida
tem suas razões.
Se o corpo é
objeto próprio,
a decisão por morrer
não comporta explicações.
A fenda, interior
ou exterior, abre-se
no gesto calculado,
tresloucado, mas sempre
no roteiro da morte
- encontro, desencontro -,
que pode ser venenosa,
balística ou salto no ar (…)”

“Uma procura de compreender a morte do amigo e também uma reflexão sobre a morte através do suicídio, que é algo execrado inclusive pela Igreja Católica”, define Fernando Peres. Nesta entrevista a Terra Magazine, ele critica a deficiência das escolas e o desinteresse crescente por poesia.

- Drummond é, inegavelmente, um grande poeta. Mas edições de Drummond, quando ele estava vivo, não passavam de três mil exemplares. Quantos habitantes têm o Brasil? Quantos leitores virtuais tem o Brasil? Em verdade, os editores é que não gostam de poesia, porque, com elas, não ganham dinheiro – diz o poeta baiano.

“Bula Pro Nobis” será lançado nesta quinta-feira (24), às 18h, na Livraria Cultura do Salvador Shopping, na capital baiana. O livro é ilustrado pelo artista plástico Mário Cravo Jr.

Terra Magazine – “Bula pro nobis” tem uma gestação longa, não é?
Fernando da Rocha Peres – Tem uma gestação de dez anos. Anunciei este livro em 2001, quando publiquei o “Febre Terçã”. Os poemas ficaram guardados, fui mexendo e andei meio assim desencantado com a condição de escrever poesia e a poesia ser tão pouco lida neste País. Como eu vou fazer 75 anos, no dia 27 de novembro, decidi publicar para colocar fora alguns temas que eu persigo, como, por exemplo, a hipocondria, as questões relativas à conjuntura atual do Brasil…

Há alguns versos de circunstância.
Alguns versos de circunstância, a minha perplexidade religiosa e poemas que, de um certo modo, saíram publicados nos jornais baianos. Depois de publicados, eu mexi. Faço esse jogo do alfaiate ou do sapateiro, que fica costurando e batendo palavras.

Os sonetos são recorrentes no livro. É uma forma que tem sido pouco usada?
Não, tem, tem. Alguns poetas ainda carregam o soneto nas costas (risos). Uma cesta de sonetos! Aliás, um título bonito pra livros: “Cesta de sonetos”. Tem um poeta, Glauco Mattoso, que já escreveu, sei lá, cinco mil sonetos (risos). Ele é o recordista mundial de sonetos, se não for o recordista da galáxia… Os sonetos do livro não são extremamente formais. São mais livres. Eles têm a forma do soneto, claro, o ritmo, mas já não têm a rima. Além de tudo, a forma gráfica é bonita.

O senhor diz que a poesia não é mais tão lida no Brasil. Por quê?
Não é, seguramente, o jejum do leitor, mas é a falta do leitor ou a falta da educação para a literatura e, em especial, para a poesia. Hoje, o que se lê é best-seller ou o besteirol. E a prova disto é que eu fui ver o filme de Almodóvar, “A pele que habito”, e tinham dez pessoas no cinema. No mesmo complexo de cinemas, tinha uma fila infindável pra ver o filme “Amanhecer”, desta sequência que se chama “Crepúsculo”.

Nome sugestivo.
Pois é. Amanhecer de quê?

Do Crepúsculo…
Amanhecer do “Crepúsculo”, não é? O povo gosta do “amanhecer do crespúsculo” (risos). O leitor gosta, hoje, do amanhecer do crepúsculo. É falta de educação, desde a educação doméstica.

Leia a entrevista de Fernando Peres em Terra Magazine

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