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Postado em 18-11-2011
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 18-11-2011 17:35


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Artigo/ Um lugar

A ENIGMÁTICA MONGÓLIA

JC Teixeira Gomes

Continuarei com meus leitores a viajar pelo Expresso Transiberiano, partindo da imponente Pequim até chegar à cidade de Er Lian, última etapa chinesa antes da Mongólia.
Poucas regiões do mundo serão tão ignoradas pelo Ocidente. Dela, a única coisa que sabemos é que foi a pátria de Gengis Khan, para os mongóis o herói nacional que nenhuma nação iguala.
Escondida no segredo das estepes, pelo menos desde o séc. XIX se abriu ao mundo, com o incremento da construção da ferrovia transiberiana. Mas permanece enigmática e tida como terra de extravagâncias, entre as quais a de servir escorpião grelhado (“grilled scorpion”) entre as iguarias da sua cozinha. Garanto que não comi.
A ignorância ocidental sobre a Mongólia é engordada pelo desrespeito, pois foi através das pesquisas do médico inglês John Down, no século XIX, que se criou a palavra “mongolóide” para designar os portadores da Síndrome de Down, presente até hoje nos dicionários. No entanto, é uma designação pejorativa e indigna, nascida dos preconceitos do homem branco europeu contra os asiáticos no século XIX, época de esplendor do colonialismo. Formulando uma antropologia racista, a visão eurocêntrica da Ásia ajudava o Ocidente a subjugar os asiáticos pela humilhação, para facilitar a dominação política e econômica.
Em Er Lian, fundada em l953, nosso trem foi substituído pelo russo, pela diferença da bitola dos trilhos até Moscou. Situando-se numa área que envolve um trecho do deserto de Gobi, Er Lian é um sítio palenteológico, como, aliás, toda a Ásia. Por isso, os chineses lá construíram um gigantesco Parque de Dinossauros, representados em metal, nas dimensões exatas dos seus ancestrais naturais, um assombro. O espectador fica imediatamente paralisado pelo realismo das peças expostas. Todas as espécies estão ali reunidas, dando a impressão de que são animais reais, não esculturas. Com alguma imaginação (e temor), o visitante, tomado de surpresa, pode vê-los andando, rugindo, atacando.
Os imensos animais, noventa e nove ao todo, em posições diferentes, distantes uns dos outros, foram moldados segundo os detalhes e características das descrições científicas ou das melhores representações no cinema. Mas não é Hollywood ou a Disneylândia, brincadeiras americanas. O grande parque é uma área de respeito e seriedade. É o trabalho de cientistas chineses, expondo o resultado das suas pesquisas. Custa a crer que a poderosa China não tenha ainda divulgado para o mundo o fascinante viveiro metálico dos seus dinos.
Er Lian, cidade que detém essa preciosidade, possui cerca de 120 mil habitantes, caracterizando-se por longas avenidas, além de sólidos edifícios. Sente-se que está em plena expansão. De lá, rumamos para Ulan Bator, a capital da Mongólia, país de nômades montadores de cavalos, habitantes de tendas, amantes dos grandes espaços naturais e avessos à prisão das cidades. Ainda assim, a capital, fundada em 1639, expandiu-se, e possui hoje cerca de 1 milhão e trezentos mil habitantes. Contemplada do alto de um mirante, dinâmica e irregular, não quer parar de crescer. Seu tráfego é intenso e caótico, seu comércio muito rico, destacando-se um shopping de cinco andares, com belas e elegantes mulheres desfilando sem cessar, mais alvas que as chinesas.
Se o mundo nivelou-se pela comunicação, a diferença se faz por meio da cultura. E foi nessa área que a visita mais se enriqueceu, diante da exibição do balé da Mongólia e da sua Orquestra Sinfônica, de instrumentos típicos. Sobre a marcante coreografia dos belos dançarinos mongóis, homens e mulheres de excepcional coordenação rítmica, falarei depois. Por ora, cumpre dizer que a Sinfônica da Mongólia fez uma apresentação de gala. Destaque para as vozes dos seus baixos e barítonos interpretando canções budistas. Confesso que tais vozes me elevaram – a mim, pobre homem de pouca fé – às portas do paraíso, às regiões mais diáfanas da espiritualidade humana e da concentração mística.
Mas, queridos leitores, falta muito do que dizer. No próximo artigo, contarei como dormi nas tendas de Gengis Khan, sob o frio polar da noite da Mongólia.

João Carlos Teixeira Gomes, jornalista e escritor baiano, mora atualmente no Rio de Janeiro e acaba de regressar de viagem transiberiana.

Comentários

rosane santana on 18 novembro, 2011 at 19:14 #

Caro Joca, delícia de leitura! Espero que registre seus textos de viagens em livro. Aguardo ansiosamente sua crônica sobre a apresentação da Sinfônica da Mongólia. Vc que é um erudito tb em música clássica certamente fará um texto maravilhoso. Aliás, vc está devendo uma apresentação de música clássica em seu apartamento, na Bahia, para os mortais, como eu, Margô, Vitor, Olivia e outros amigos. Sua inteligência é coisa rara e sua erudição um luxo que não podemos dispensar. bjs, rosane


Olivia on 18 novembro, 2011 at 19:30 #

Isso Rosane, nosso Pena de Aço, apelido que Joca tanto gosta, escreve como poucos, e o melhor, texto limpo e sem pedantismo, todos compreendem. Vamos aguardar sua chegada para rolar a festa. Avante Joquinha!


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