Rosane Santana em Harvard
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ARTIGO DA SEMANA

O país do futuro que nunca chega

Rosane Santana

O Ministério da Educação acaba de divulgar o Censo da Educação Superior referente ao ano de 2010. Com o resultado, a surpreendente revelação de que quase a metade das vagas de ingresso para novos alunos oferecidas pelas universidades não foi preenchida, segundo a Folha de São Paulo. Explicações do secretário de Ensino Superior do MEC, Luiz Cláudio Costa, transmitidas àquele jornal, dão conta de que o fenômeno é positivo: “ é bom que o Brasil tenha um grande número de vagas porque ele está preparado para a expansão”.

Na outra ponta, a Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes), representante do setor privado, diz que a grande quantidade de vagas sobrando é que “parte das instituições solicita ao MEC autorização para um número maior de vagas do que pretende de fato preencher” e que isso “ocorre especialmente no caso das faculdades que não têm autonomia para abrir novas vagas e inflam esse número para não ter que solicitar outra autorização ao ministério caso queiram ampliar a oferta”.

Embora não seja especialista em educação, permitam-me o exercício do senso crítico, ante a realidade que tenho presenciado em sala de aula, como professora universitária e ex-professora do ensino médio no extremo sul da Bahia.Num país onde, historicamente, o diploma de ensino superior sempre foi uma forma de ascensão social, as declarações postas acima ajudam a entender o fenômeno, mas não o explicam. Está em marcha, neste país, podem registrar, um desastre sem precedentes na área da educação pública que comprometerá o desenvolvimento econômico, fruto do descaso de governos, nos últimos 40 anos, exatamente a partir do Golpe de 1964, que nos conduzirá a mais desigualdade social e mais pobreza na era da revolução tecnológica e da informação, quando um novo humanismo se vislumbra.

E por quê? O governo que aí está, de forma errada e atendendo a não sei quais interesses, investiu grande quantidade de recursos no ensino superior, para forjar supostos índices de desenvolvimento junto aos organismos internacionais, enquanto o ensino básico continua à deriva. Se duvidar, o Brasil tem hoje mais universitários do que os Estados Unidos teve, em qualquer época de sua história. No entanto, os EUA são campeões em patentes e prêmios Nobel, possuem as melhores universidades do mundo, continuam liderando culturalmente o mundo, apesar da crise, e o Brasil, ah, o Brasil tem um promissor mercado, dimensão continental, recursos naturais, como o petróleo e, como dantes, permanece grande exportador de matérias-prima.

O mais é exaltação do ufanismo, propaganda a serviço do governo e do não sei mais o quê, aceita internamente pelos cerca de 120 milhões que sobrevivem direta ou indiretamente dos governos federal, estaduais e municipais e dos 12 milhões beneficiados pelo bolsa família. Externamente, por aqueles que encontram grandes facilidades para lucros, num mercado de 203 milhões de pessoas, onde os juros são os maiores do planeta. E toma-lhe propaganda e aparelhamento do Estado, afinal, somos 53 milhões de eleitores analfabetos ou alfabetizados funcionais.

Se as universidades não estão recebendo a demanda de alunos que esperavam é porque o número de alunos que abandonam o ensino no primeiro grau é altíssimo, com toda a carga semântica que o superlativo absoluto sintético requer. E porque o ensino de primeiro grau está muito aquém da capacidade de estimular no aluno o interesse pelo estudo, pela ciência, num país onde os adolescentes do sexo masculino sonham em ser jogadores de futebol e do sexo feminino dançarinas de pagode.

Nas escolas falta tudo. Em primeiro lugar, pagamento em dia de professores. Na Bahia, por exemplo, 60% dos servidores da educação, incluindo professores, são prestadores de serviços que atualmente recebem um salário mínimo, com uma atraso de seis a oito meses, situação questionada pelo Ministério Público. O espaço físico da maioria das escolas públicas está depredado ou, na melhor das hipóteses, totalmente descuidado, para fazer uso de um eufemismo, o que se tornou a regra na imprensa brasileira onde governantes e marqueteiros ditam as pautas e corrupção, que é roubo, virou sinônimo de malfeito, como bem realçou meu amigo e grande jornalista Chico Bruno.

Com eficiência e agilidade, chegam os computadores e os livros didáticos, para alunos analfabetos, já que as escolas são um filão precioso de vendedores de toda espécie e assim se move o capitalismo selvagem no terceiro mundo, que os atuais governistas dizem combater, mas permitem, não sei por que diabos, que banqueiros e empreiteiras façam a festa.

E, na propaganda, o Brasil continua o país do futuro que nunca chega.

Rosane Santana, jornalista, mestre em Historia pela Universidade Federal da Bahia, atualmente dedica-se ao ensino universitário no extremo sul da Bahia e colabora com o Bahia em Pauta.

Comentários

rosane santana on 11 novembro, 2011 at 14:50 #

Caro Vitor, para esclarecer, na foto, ao meu lado, com muito orgulho, o extraordinário professor Jeffrey DiIuglio, novaiorquino, doutor em Linguística pela Universidade de Boston, decano do Instituto de Línguas da Universidade de Harvard, figura humana que espero reencontrar num futuro próximo. Teve o pai e dois amigoas, segundo me revelou, mortos no atentado de 11 de Setembro. É daqueles professores que a gente nunca esquece.


rosane santana on 11 novembro, 2011 at 14:54 #

Caro Vitor, para esclarecer, na foto, ao meu lado, com muito orgulho, o extraordinário professor Jeffrey DiIuglio, novaiorquino, doutor em Linguística pela Universidade de Boston, decano do Instituto de Línguas da Universidade de Harvard, figura humana que espero reencontrar num futuro próximo. Teve o pai e dois amigoas, segundo me contou, mortos no atentado de 11 de Setembro. Ainda assim foi a favor do fim de Guatánamo e das guerras do Iraque e do Afeganistão. É daqueles professores que a gente nunca esquece.


rosane santana on 11 novembro, 2011 at 14:56 #

Correção: Guantánamo.


vitor on 11 novembro, 2011 at 15:06 #

Rosane

Está feito, e bem feito, o esclarecimento. Falta acrescentar apenas uma coisa; uma aluna brilhante e tão intelectualmente inquieta como você, também é impossível esquecer.


ros sofisticado, apurado, inteligenteane santana on 11 novembro, 2011 at 15:13 #

Obrigada, Vitor. Declaração de um amigo fiel, guardião, atento, de inteligência sofisticada, que a vida, sempre muito generosa comigo, quando se trata de amigos, me deu. Muito obrigada.bjs, rosane


rosane santana on 11 novembro, 2011 at 15:15 #

Obrigada, Vitor. Declaração de um amigo fiel, guardião, atento, de inteligência sofisticada, que a vida, sempre muito generosa comigo, quando se trata de amigos, me deu. Muito obrigada. rosane


rosane santana on 11 novembro, 2011 at 15:21 #

Esta foto foi tirada em 07 de agosto de 2009, nos jardins da Dunster House, em Cambridge, hospedaria dos alunos internacionais de Harvard, às margens do Charles River.


rosane santana on 11 novembro, 2011 at 15:22 #

Do professor Jeffrey, ouvi um discreto, próprio de americanos, “torci por você”.


Marcia Dourado on 12 novembro, 2011 at 9:25 #

Sua análise sobre andamento da educação no Brasil é uma lição. A Universidade do Extremo Sul da Bahia deve se sentir honrada em tê-la no seu quadro docente e os alunos, uns privilegiados. Avante Professora!!!


rosane santana on 12 novembro, 2011 at 10:52 #

Obrigada, Márcia. bjs. Honra mesmo é ter amigos como vc!


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