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Postado em 03-11-2011
Arquivado em (Artigos, Claudio) por vitor em 03-11-2011 14:20


Fernando Peres: “Sistema de editoras brasileiras favorece picaretagem editorial” / TM

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Nelson Motta: o autor contestado/TM

DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Os membros da geração Mapa, liderada na Bahia pelo cineasta Glauber Rocha (1939-1981), questionam a veracidade da narrativa biográfica de “A primavera do dragão” (Editora Objetiva), do produtor musical e jornalista Nelson Motta. O livro retrata a juventude de Glauber, o maior diretor da história do cinema brasileiro, e se estende até o início da trajetória internacional do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, em 1964.

O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres se irritou com os erros da obra e dirigiu um telegrama à Objetiva: “Senhor Editor: Recebi dois exemplares não-solicitados do livro A Primavera do Dragão, do Sr. Nelson Motta. Agradeço a oferta editorial. Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos. Deste modo, acredito que o editor vai cuidar de minorar este equívoco que foi a publicação de um livro irresponsável.”

Em mais de 25 citações a seu nome, Peres é chamado de “Bananeira”. Mas este é o apelido de outro Fernando da geração Mapa, o jornalista Fernando Rocha.

- Tenho esse apelido desde a idade de 12 anos. Em Boa Vista de Brotas, minha casa tinha uma touceira de bananeiras. Eu e minha família distribuíamos bananas aos amigos. O ‘Bananeira’ vem daí – explica Rocha. – Nunca falei com ele (Motta). É um absurdo isso, rapaz! O cara escreve por ouvir dizer, sem tomar conhecimento.

Peres tem uma opinião mais dura:

- A troca de nomes pelo senhor Nelson Motta revela a sua incapacidade de lidar com o gênero biográfico.

Admitindo a troca, Nelson Motta pede desculpas:

- Gostaria de me desculpar com o poeta e historiador Fernando Rocha Peres e o jornalista Fernando Rocha, por ter atribuído a um o apelido do outro (“Bananeira”), um equivoco que lamento e será corrigido na próxima edição, mas em nada afeta a narrativa em que o protagonista absoluto é outro Rocha: Glauber.

As histórias de “A primavera do dragão” são cravadas de adjetivos: “mentirosas”, “folclóricas”, “falsas”, “inverídicas” e “ficcionais”, disparados por amigos de Glauber ouvidos por Terra Magazine.

A geração Mapa (o nome da revista do grupo, inspirado em poema homônimo de Murilo Mendes) atuou na literatura, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, contribuindo para a renovação da cultura brasileira nos anos 50 e 60. O núcleo inicial era formado por Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, João Carlos Teixeira Gomes, Fernando da Rocha Peres, Jaime Cardoso, Fernando Rocha, Calasans Neto, Ângelo Roberto, Antonio Guerra Lima (o “Guerrinha”) e Albérico Mota. Também se agregaram ao grupo os escritores Carlos Anísio Melhor, Fred de Souza Castro, João Ubaldo Ribeiro, Florisvaldo Mattos, Sônia Coutinho, Noênio Spínola, David Salles e o pintor Sante Scaldaferri, entre outros.

“Anedotário gasto”

Protagonista da Mapa e autor de “Glauber Rocha, esse vulcão” (Ed. Nova Fronteira), reputada pela crítica como a melhor biografia do diretor de “Terra em transe”, João Carlos Teixeira Gomes avalia que Motta usa “um anedotário gasto, sem sentido e já desmoralizado”.

- Como biógrafo de Glauber, não gosto de analisar livros sobre ele escritos por outros autores. Mas não pode deixar de me incomodar essa tendência, que julgava superada, de se engrossar a crosta de anedotário sobre uma figura da dimensão cultural de Glauber Rocha. O livro está cheio de erros, falhas de informação, que tumultuam a leitura – critica Joca, como é conhecido (no texto de Motta, ele é chamado de “Joca Teixeira”, tratamento jamais usado por seus camaradas).

Para o biógrafo e amigo de Glauber, há “coisas absolutamente estranhas” em “A primavera do dragão”.

- Nunca soube que Caetano Veloso, que nem tinha vinculação com nossa geração, nem aparecia em nada que fazíamos, teve algum caso de amor com Anecy (Rocha, irmã do cineasta). E, se teve, isso é absolutamente irrelevante para a compreensão da vida de Glauber. São muitos os erros de informação, dando uma visão completamente falsa do que foi a geração Mapa, repleta de anedotários irrelevantes, quando na verdade era uma geração de papel cultural destacado na Bahia.

Na abertura do livro, Motta descreve as fontes de boa parte das histórias: “Conversei com seus amigos de colégio e faculdade, o artista plástico Calazans Neto, os poetas e escritores João Carlos Teixeira Gomes e Fernando Rocha Peres, o cineasta Orlando Senna, o produtor e escritor Rex Schindler, o cineasta e inventor Roberto Pires, que criou uma lente de Cinemascope baiana”. Segundo o autor, o romancista João Ubaldo Ribeiro contou “aventuras e travessuras com Glauber”.

Ocorre que Peres e Joca, incluídos nessa lista, sustentam que nunca foram entrevistados por Nelson Motta. Apenas teriam sido procurados para fornecer e identificar fotografias. O pintor e gravador Calasans Neto morreu em maio de 2006. Peres reage à citação:

- Esta é uma mentira mais deslavada. Não me recordo que este rapaz tenha me entrevistado e creio que também não entrevistou Sante Scaldaferri e Joca, certamente não entrevistou outros companheiros da geração. O que eu fiz foi atender a um porta-voz dele, que me solicitou a identificação de pessoas em uma fotografia que seria publicada no livro. Fiz isto, a contragosto. Hoje, me arrependo, pois o que eu deveria ter dito é que eu só faço depois de ler o livro, porque constato que esse rapaz não sabe escrever. O que ele sabe é enrolar o público, com muita habilidade e um sorriso muito gentil, através da televisão. A competência dele não passa disso. Lamentavelmente, o sistema editorial brasileiro favorece esse tipo de picaretagem editorial. Por isso mesmo, ultimamente vem ululando escritores que mais parecem macacos de circo.

Em resposta enviada a Terra Magazine, Nelson Motta sustenta que o entrevistou, na capital baiana, em 1989:

- Em 1989, quando fui a Salvador fazer entrevistas para o livro sobre Glauber que pretendia escrever na época, fui muito bem recebido por Fernando Rocha Peres, que pode ter esquecido, mas gravou uma entrevista (que tenho até hoje) em que contou com graça e bom humor alguns ótimos episódios da Jogralesca, da revista Mapa e de farras juvenis de Glauber (…) Se o citei como participante de algum episódio em que ele não estava presente, me desculpo e o deletarei na próxima edição. Eram muitos os amigos, conhecidos e colegas de Glauber em sua juventude, não acredito que um a mais ou a menos faça grande diferença para contar como Glauber Rocha se tornou Glauber Rocha.

( Confira a íntegra da resposta de Nelson Motta)

Além de Peres e Joca, as críticas partem de outros companheiros geracionais de Glauber: o jornalista Fernando Rocha (“Bananeira”), o artista plástico Sante Scaldaferri, o advogado Antonio Guerra Lima (“Guerrinha”), o poeta Florisvaldo Mattos e o pintor Ângelo Roberto. Nenhum deles foi entrevistado por Motta.

“Livro é ficção”, diz membro da Mapa

No livro, Motta explica a origem do projeto biográfico, que remonta a 1989. “Com as gravações das entrevistas transcritas, eu começava a estruturar o livro quando uma notícia de jornal me fez mudar de ideia: Zuenir Ventura estava escrevendo uma biografia de Glauber Rocha”, revela

Contudo, o jornalista Zuenir Ventura desistiu do projeto depois de perder o material pesquisado “no carro de uma amiga que foi roubado numa rua de Ipanema”. Autor de “Noites Tropicais” e “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, Nelson Motta relata que, a partir de 2010, entrevistou Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, Cacá Diegues, Sérgio Ricardo, Yoná Magalhães, Walter Lima Júnior e Caetano Veloso – personalidades que não integravam o grupo de amigos de Glauber na “fase baiana”.

- Adoto o princípio glauberiano: cada um é livre para escrever o que quiser. Mas o livro é uma ficção. É mais para enaltecer Glauber. Ele não tem compromisso com a verdade dos fatos – avalia Guerrinha.

Joca procura condensar parte das críticas ao livro:

- Vários os episódios relatados jamais testemunhei como integrante da geração Mapa. Nunca soube, por exemplo, de qualquer tentativa de sequestrar o dono do “Jornal da Bahia”, João Falcão, para metralhar Juracy Magalhães ou para pichar um navio espanhol em protesto contra a ditadura de Franco. Tudo isso, se ocorreu, jamais foi comentado entre os membros da geração Mapa, que, afinal de contas, ao lado de Glauber, eram os protagonistas da história, que Nelson Motta não soube contar – diz Teixeira Gomes, incluído na bibliografia de “A primavera do dragão”.

Motta minimiza a polêmica e considera que “não dá para levar a sério” o relato das conspirações – “nem era para isto.”

- As “conspirações” de araque – como a tentativa de pichar o navio Ciudad de Toledo, a de explodir bancas de jornais, de assassinar políticos, de sequestrar banqueiros, de “espalhar o caos bakuniniano” na Bahia – que compõem alguns dos momentos mais divertidos da história, e que obviamente não eram sérias, apenas fantasias anarquistas de jovens movidos a cerveja e alegria, me foram relatadas pelo artista plástico Calazans Neto, pelo escritor João Ubaldo Ribeiro e pelo cineasta Orlando Senna, em entrevistas gravadas, às gargalhadas – argumenta o jornalista.

Na Bahia, o artista plástico Calasans Neto era conhecido pelo talento para fabular e contar anedotas nem sempre fidedignas. Cético, Peres duvida que Ubaldo tenha se equivocado:

- Não creio que João Ubaldo tenha sido o grande informante do senhor Motta, pois sendo mais jovem não fazia parte de nosso grupo e portanto não pode ter tanta memória. A amizade acontecida entre os dois, posteriormente, possivelmente, não teria permitido informações inverídicas, levianas e grosseiras. Com a palavra João Ubaldo!

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Leia integra da reportagem de Claudio Leal e mais sobre o assunto em Terra Magazine:

http://mail.terra.com.br/

Comentários

Eduardo Queiroz Setúbal on 20 setembro, 2012 at 12:18 #

Eduardo Queiroz Setúbal on 10 setembro, 2012 at 12:28 # O entusiasmo, a coragem do abnegado professor João Carlos Teixeira Gomes (JOCA) na Escola de Biblioteconomia da UFBA, sempre, foi cativante… A sua disposição em defender o seu Jornal – Jornal da Bahia – fazia renascer vultos históricos baianos de consagrada estirpe a exemplo do poeta da liberdade Castro Alves e do Boca de Brasa ou Boca do Inferno, magistral Gregório de Matos. A luta foi árdua, eu sei, mas, imperou, prevaleceu a lei do mais forte… Aquele semanário sucumbiu às perseguições e imposições politicas, mas, a Bahia ganhou e, definitivamente, conheceu um outro grande poeta de notável conhecimento, destemor e inteligencia rara. Com Joca, um amigo professor, ministrando “Literatura Brasileira”, aprendi a respeitar e gostar do legado deixado pelo poeta da liberdade e pelo Boca de Brasa ou Boca do Inferno, mas, também, fiz-me cativo do douto magistério do dedicado mestre e maior poeta do Brasil contemporaneo JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES.
Pois, é professor, por opção e por apego à boa leitura, tantos anos passados, na Escola de Biblioteconomia da UFBA, ainda, “me encontro” naquela mesma sala de aula, aprendiz confesso do criador da obra, e fã incondicional do domador de gafanhotos.

SONETO DA PERDIÇÃO

Deu-me um deus de legado o tempo escasso

e o anseio de retê-lo em urdiduras.

Murcham flores nos campos por que passo

exilado em angústias já maduras.

0 que sou não sei bem, nem o que faço.

Débil luz entrevejo nas clausuras

das fatais emoções em que desfaço

a antiga vocação das coisas puras.

Viajante que perdeu os seus roteiros

por querê-los é que ando em desatino

sob o cerco de demônios traiçoeiros.

Nau fendida que busca o porto vasto,

quanto mais de meus rumos me aproximo

mais sinto que de mim próprio me afasto.


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