Capinam: uma voz em defesa do museu afro-brasileiro
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Fotografia de Bauer Sá é parte do acervo em exposição em Brasília/TM
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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

À espera da liberação de verbas contigenciadas pelo governo, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, sediado em Salvador (BA), apresenta em Brasília, até 23 de outubro, o acervo inicial de sua coleção de arte. Acolhida pelo Museu Nacional, a mostra pretende destacar o nascimento da instituição e instigar os parlamentares a apoiarem a fase inicial do projeto.

Na gestão de Juca Ferreira no Ministério da Cultura (MinC), a primeira parcela (de R$3,8 milhões) dos R$10 milhões previstos foi liberada para garantir a restauração do prédio do Tesouro, no Centro Histórico de Salvador. Uma parte dos recursos se destinou à compra do acervo, que estacionou em 300 peças.

Um dos principais letristas do Tropicalismo e da canção brasileira, o poeta José Carlos Capinan dirige o museu na Bahia. À frente da Amafro (Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira), ele esclarece os sobressaltos da criação:

- O projeto começou em 2002, com o ministro Francisco Weffort. Ele já existe de fato, mas precisa ser aprovado o projeto de lei, para se institucionalizar. Chegou a hora. Para isso, precisamos de apoio parlamentar. Vou procurar todos os ministros e políticos baianos. A presidente Dilma se orgulhará de saber que será na sua gestão que o museu vai ser instalado. É o maior projeto cultural que a Bahia tem hoje em processo. Acredito que o governo do Estado estará comprometido com isso – afirma Capinan, acrescentando que a abertura oficial ocorrerá em novembro.

Curador do museu e organizador da mostra “Primeira coleção de um acervo em perspectiva”, o artista plástico Emanoel Araújo procurou evitar a estigmatização do espaço destinado à arte afro-brasileira.

- Meu envolvimento com o museu vem de quando Weffort me pediu para escolher o prédio, em Salvador. Escolhi o Tesouro para fugir da ideia de um museu de cultura afrodescendente em um lugar estigmatizado. Chegaram a ofertar a Casa de Sete Mortes…! Não quisemos. O Tesouro foi construído pelo governador J.J. Seabra e tem uma arquitetura eclética, além da questão simbólica da moeda, do ouro.

Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro Brasil em São Paulo, esclarece que a exposição brasiliense cumpre um objetivo político.

- Esse museu passou por dois ministros baianos, Gilberto Gil e Juca Ferreira, que pouco fizeram por ele. Enfim, no apagar das luzes da gestão de Juca, foi liberada uma parcela da verba para terminar o edifício e fazer com que o museu se constituísse em suas atividades museológicas. Minha participação foi a convite do próprio Capinan, para ser curador do museu. Nesse projeto com o MinC, houve R$ 600 mil para a compra do acervo, com o parecer do conselho (do qual também participam Juarez Paraíso, Muniz Sodré e Ubiratan Castro de Araújo). Por outro lado, como o museu não está em Brasília, achei que esta exposição seria uma forma de trazer para a capital o conhecimento do que foi feito, para que essa verba seja liberada.

A reportagem ( de Terra Magazine)foi convidada para o lançamento da primeira mostra da coleção, aberta neste 13 de setembro, no Museu Nacional (DF), ao lado da exposição “Hereros”, do fotógrafo Sérgio Guerra. No acervo, constam obras de artistas como Rugendas, Debret, Heitor dos Prazeres, João Timótheo, Agnaldo Manoel dos Santos, Rubem Valentim, Yêdamaria, José Maria, Helio Oliveira, Walter Firmo, Eustáquio Neves, Mestre Didi, entre outros. Capinan diz que o museu discutirá “a inclusão do negro na sociedade brasileira”:

- Será um roteiro maior para abordar a cultura afrodescendente, desde o tráfico de escravos, passando por todos os saberes – a língua, a comida, a dança, o canto. Não é só uma reverência ao passado, mas perguntar o que esse passado tem a ver com o amanhã. E o acervo é também a cidade do Salvador. O museu é o lugar onde se concentra a força desse diálogo. Não será um diálogo monotemático, mas permeável a todas as discussões – conta o poeta.

Segundo Capinan, o museu pode se intregrar a um futuro “corredor cultural” no Centro Histórico de Salvador, fortalecendo a presença do Espaço Unibanco de Cinema, do Liceu de Artes e Ofícios e dos antiquários da rua Rui Barbosa.

- É fazer uma rede de casas de cultura e reestruturar o Centro Histórico, que está, neste momento, muito machucado, arruinado, desfigurado. O visitante precisa ver que os shoppings não representam a alma baiana – argumenta Capinan.

A senadora Lídice da Matta (PSB-BA) se engajou na batalha parlamentar para garantir os recursos e a aprovação do projeto de lei. Congressistas baianos como Emiliano José (PT), José Carlos Aleluia (DEM), Lúcio Vieira Lima (PMDB), Luiz Alberto (PT), Josias Gomes (PT) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) compareceram ao evento. Lídice pretende mobilizar o governador Jaques Wagner:

- Logo no início do governo Dilma, nós estivemos com a ministra Ana de Hollanda. Ela nos falou do contigenciamento e se comprometeu em liberar o restante, o que ainda não ocorreu. Apenas um terço dos recursos do museu foi liberado. O lançamento dessa exposição vai renovar nosso compromisso. Mantive contato com a Petrobras, para ver o que eles podem ter de patrocínio, através da Lei Rouanet. Quando o governador Jaques Wagner voltar de viagem, vamos pedir o envolvimento dele – relata a senadora.

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