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Elevador Lacerda:Má gestão ameaça entregar
símbolo público da cidade a negociantes
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CRÔNICA

Baratas e ratos da Cidade da Bahia

Gilson Nogueira

Um copo com água foi o remédio que uma cliente encontrou para se acalmar depois de nocautear uma barata voadora que acabara de subir no seu ombro no interior de uma loja localizada na Avenida Sete de
Setembro, ontem, no Centro de Salvador.O “rebu” durou pouco, mas, o tempo suficiente para provocar correria do mulherio em pânico, adiamento de compras, boatos fulminantes, como assalto com arma de fogo, e obrigar a jovem senhora a despir-se da blusa que vestia para
ficar, apenas, por poucos minutos, de sutiã, na base do desespero e, posteriormente, alívio, por ter aplicado o cruzado que atirou a barata invasora na calçada, logo pisoteada, com raiva, por um curioso, que trajava camiseta do Esporte Clube Bahia ,e que só foi embora
quando o segurança da loja mandou a galera de enxeridos evacuar o pedaço.

Era horário de pico na área habitada, à noite, por drogados e ladrões, que vivem aterrorizando moradores e transeuntes, a poucos passos do prédio antigo da Secretaria de Segurança Pública, majestosamente situado diante do Jardim ( sujo) da Piedade, onde mendigos e vagabundos imaginam ser hóspedes de hotel ao ar livre, com direito a companhia do Gabinete Português de Leitura, de duas igrejas católicas, e, juntinho, da loteria do mestre Gildo Alfinete, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, tão maltratado quanto suvaco de aleijado, como diz o povo, e outros imóveis de alto valor e importância.

Ou seja, o Centro de Salvador é o paraíso do abandono e da esculhambação, no salve-se quem puder dos camelôs e consumidores, nos passeios, espremidos, a sugerir folia momesca, entre ratos e baratas. “Imagine o Trio-Elétrico deslizando alegria no asfalto quente e a galera jogada contra as paredes e vitrines”, afirmou a empregada doméstica que presenciou a cena da barata baixo astral e a
consumidora aflita.

“Foi o maior corre-corre, com as mulheres gritando e a coroa enxuta tremendo mais que vara verde. Aliás, depois que ela levantou da cadeira e colocou a blusa deu pra ver seu corpão, o que fez o segurança, que estava também assustado, ficar todo cheio de gentileza,” acrescentou a testemunha do fato inusitado.

O lance, revelado com pitadas de exagero, ou não, lembra trechos de chanchadas cinematográficas assistidas nos antigos cinemas da Baixa dos Sapateiros, nos anos 1950/1960. Mais um episódio hilariante, quase tragicômico, em meio a outros, do mesmo nível, que agitam, para
o bem ou para o mal, aquele trecho de Salvador?
Sim, o Centro da Cidade é o símbolo da decadência da administração urbana de uma das sedes da próxima Copa do Mundo de Futebol. É uma zebra, diria o apostador da Loteca.

Creio eu, tanto no que se refere ao seu patrimônio histórico, quanto no aspecto do comércio, dos negócios, em geral, o Centro da Cidade, nem de leve lembra o período em que as escadas rolantes do Edifício
Fundação Politécnica, em São Pedro, e a da Loja Duas Américas, na Rua Chile, eram atração de peso para rapazes e moças e idosos, homem e mulher, interessados em consumir e paquerar, sem a violência a
interromper-lhes os passos.

Enquanto isso, o Elevador Lacerda vai balançando por falta de cuidado e sendo entregue à iniciativa privada para que dele cuide e não o deixe cair. Um ícone do turismo baiano e, sobretudo, um dos caracteres definidores da nossa identidade, do nosso berço, como primeira capital do Brasil, fora das mãos do poder público. Por essa
a Cidade da Bahia, não esperava.

O estado, como um todo, vai descendo a ladeira. E não é a da Conceição da Praia, outro papo.

Gilson Nogueira é jornalista, colaborador do Bahia em Pauta

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