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22

Ai de ti, Palourinho!
BP
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BP EDITORIAL

GAVETÃO DO PELÔ

Nos anos 60 e 70, a imprensa baiana contava com Misael Peixoto. Era um mestre, um profissional, em sua época insuperável nas funções de diagramador e paginador, suas especialidades, sem contar o preparo intelectual de autodidata comunista que lhe permitia dar, nas redações, lições de jornalismo aos jornalistas e de escrita a redatores. Mas Misael, que para geral consternação do meio midiático e de muito mais gente morreu há tempo em acidente automobilístico, tinha lá suas histórias.

A preferida dele, que não perdia a oportunidade de contar às gargalhadas quase incontroláveis, era a da “maquininha de mostrar serviço”. Em algum tempo, ele trabalhara com várias outras pessoas em um amplo salão, cada qual em sua mesa. E em cada mesa, além de outros equipamentos e materiais necessários, havia uma maquininha de alguma senventia – ele nunca se deu ao trabalho de explicar qual – quando operante.

Mas havia pouco trabalho a fazer nesse emprego, porque havia muito mais empregados que os necessários. Então, Misael e seus colegas passavam a maior parte do tempo matando tempo. Mas havia um chefe e era severo. Quando era ouvido no corredor o toc, toc dos seus sapatos, todas as vozes se calavam, todos os sorrisos eram suprimidos, todas os rostos tornavam-se modelos de sisudez.

E todas as mãos lançavam-se às “maquininhas de mostrar serviço”, furiosamente rodando uma pequena manivela e alternadamente apertando um botão. O chefe saía feliz, convicto de que ali se trabalhava no limite da capacidade humana.

Décadas depois, o governo baiano pretende gastar mais de R$ 4 milhões para construir um aéreo “gavetão moderno”, que classifica como alguma espécie de palco, no Pelourinho. Uma inovação
arquitetônica espantosa em um ambiente de preservação de antiguidades.

Misael nos dava notícia de uma “maquininha de mostrar serviço” onde serviço não havia. O “gavetão moderno” é mais sincero e franco: mostra falta do que fazer. Assim, direto, na lata.

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 22 julho, 2011 at 11:19 #

Ah o sonho Wagneriano!

Deixar sua marca, mesmo que em forma de um enorme caixote, ou “gavetão” como sabiamente batizou o povo baiano.

Caro VHS, triste mesmo, e a lembrança advém da foto no post do Ivan Carvalho, é saber que Lídice da Mata, aquela senadora que em três, de quatro, discursos proferidos na tribuna do Senado, resume-se a elogiar Wagner, deverá entoar um cantochão em louvor da dita obra.


Mariana on 22 julho, 2011 at 15:15 #

Tanta coisa para se fazer nessa cidade do Salvador e no Estado da Bahia em geral, tanta gente morrendo nos corredores dos hospitais, tanto lixo na rua, tanta criança sem escola e sem pão, tanta violência tomando conta de toda gente baiana, enfim, tanto, tanto, tanto a se fazer, e o governador gastando dinheiro a toa…Triste Bahia!


rosane santana on 22 julho, 2011 at 16:17 #

Creio que, como muitos, nestes casos escabrosos da política brasileira, já passei do estágio de indignação. Não sei se para o bem ou para o mal, estou naquela fase em que se assiste a todas as aberrações e, por total impotência, não se diz nada. Aliás, apesar de estudar a política, sempre fui meio beatnik, Allen Ginsberg, autor de Uivo: “Nem capitalismo, nem socialismo. A ordem é ampliar a área da consciência”.


Marco Lino on 22 julho, 2011 at 21:02 #

As críticas petistas ao modelo de revitalização carlista do Pelourinho parecem muito justas. Entretanto, como ensinou o velho e cada vez melhor barbudo alemão, é preciso ir além das críticas, é preciso fazer, transformar – especialmente quem ambiciona tanto o poder.

Wagner chegou sem projeto – nem ele mesmo acreditava que ganharia – e sem projeto continua. Ter chegado ao poder sem projeto, especialmente para quem disputou tantas eleições contra o carlismo (e que, ao menos em tese, montou tantos projetos), foi vergonhoso; continuar é simplesmente triste!

Querem ressuscitar Napoleão – desprezam o poder do imaginário. A história se repete, Hegel? Como farsa, Barbudo! Lá, foi o sobrinho; aqui… Que o bom Deus me guarde.

Poucos são os petistas que ainda lêem Marx – especialmente os do poder. Pois que fiquem com Fukuyama e o seu pensamento único. Cada um lê o que merece.


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