mar
20
Postado em 20-03-2011
Arquivado em (Artigos, Rosane) por vitor em 20-03-2011 13:32

Bahia em Pauta reproduz para seus leitores o texto da mestre baiana em História e jornalista Rosane Santana, produzido originalmente para o jornal A Tarde e publicado na edição impressa deste domingo, 20. Foi escrito em resposta a solicitação do diário baiano para que ela opinasse , como ex-aluna, sobre as razões que levam Harvard ao podium das universidades no mundo.

Confira a resposta de Rosane.

(Vitor Hugo Soares, editor do BP)

=====================================================

Rosane Santana em Harvard
=====================================================

Harvard é herdeira do Iluminismo

Rosane Santana

Há quase uma década, sucessivamente, a Universidade de Harvard é apontada por professores, pesquisadores e estudantes de todo o mundo, como a melhor universidade do planeta, disputando o podium com outras destacadas instituições de ensino superior americanas, a exemplo do vizinho Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), também situado na cidade de Cambridge, no leste dos EUA, no pequeno estado de Massachusetts, famoso por abrigar em seu território e imediações mais de uma centena de universidades.

Estudei inglês acadêmico em Harvard, entre 2007 e 2009, preparando-me para iniciar pesquisas na área de globalização e política, sobretudo as novas possibilidades de ativismo político propiciadas pela revolução tecnológica. Há, em Harvard, magnificência e riqueza material abundante – patrimônio em torno de 30 bilhões de dólares, depois da crise de 2008-, colocados a serviço da inteligência, além de rigor e disciplina nos métodos de ensino, os chamados diálogos socráticos, em sala de aula, voltados essencialmente para a formação do que os professores gostam de enfatizar como critical thinking (pensamento crítico). Mas não cairia na tentação de fazer comparações com universidades brasileiras, onde não há carência de cérebros (a inteligência humana é universal), porém, de recursos materiais e tecnológicos.

A sociedade americana e suas instituições são herdeiras do Iluminismo europeu e sua aposta na capacidade de progresso e superação do ser humano, através da razão e da inteligência. Por isso, atribuem à educação um espaço sagrado, um altar, entre os seus mais altos valores. O historiador americano John Lukács diz que, nos Estados Unidos, “desde o início do século XX, a mania nacional de educação havia se tornado parte do credo norte-americano”, abraçado por gente de todos os matizes políticas, republicanos e democratas, capitalistas e socialistas.

Para o bem ou para o mal, a nossa sociedade é filha do catolicismo barroco e do reformismo ilustrado de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. A universidade de Coimbra, que formou a elite política fundadora do Estado brasileiro, no final do século XVIII e início do XIX, sempre esteve atrasada em relação a universidades européias de seu tempo, como Oxford e Cambridge, na Inglaterra, que disputam com as americanas, suas herdeiras, as melhores posições no ranking . Portugal, de braços dados com a Igreja Católica, ficou à margem das idéias e revoluções que sacudiram a Europa, no século XVIII, e nos legaram as tranformações políticas e culturais da revolução francesa e, antes, a revolução americana, associada à idéia de justiça, progresso e liberdade.

Em 300 anos de colonização portuguesa, instituições de ensino superior, em território brasileiro, só foram permitidas após a chegada da Família Real, em 1808. No final do século XIX, em 1872, apenas 16% da população do Brasil era alfabetizada. Universidades ,como a USP, surgiram nos anos 30 do século XX, com a ascensão da burguesia industrial. São ainda muito jovens, portanto, em comparação com instituições de ensino européias e americanas.

Essa é a nossa origem, a nossa formação. Transformá-la, requer um trabalho conjunto e sucessivo de muitas , inúmeras gerações, fundamental para um verdadeiro protagonismo brasileiro no mundo. Sem isso, o Brasil será sempre uma promessa, a ilusão de um país do futuro. Não há mágicas, saídas mirabolantes, jogadas populistas. É preciso, sobretudo, mudar a mentalidade de uma sociedade que relega a educação ao último lugar em sua escala de valores, onde os jovens do sexo masculino sonham em ser jogadores de futebol e os do sexo feminino, dançarinas de pagode.

Rosane Santana é graduada em jornalismo e mestre em História pela UFBA. Estudou na Universidade de Harvard entre 2007 e 2009.

Comentários

marcia on 21 março, 2011 at 5:07 #

Parabéns Rosane, texto “nu e cru” de pura verdade!!!


rosane santana on 21 março, 2011 at 12:02 #

Obrigada, Márcia. É uma contribuição simplória de uma jornalista “desfocada”.rsrsrs


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: