======================================================

Deu na revista digital Terra Magazine:
http://terramagazine.terra.com.br/

—————————————————————————————————————————————-

A TARDE e o Egito

Francisco Viana
De Salvador (BA)

Salvador – Há algo em comum, a despeito de se tratarem de histórias absolutamente distintas, entre a readmissão de um jornalista demitido injustamente pelo tradicional jornal A TARDE, de Salvador, e a queda do ditador egípcio, que ficou no poder por 30 anos. Qual? Em ambos os casos houve momentos reivindicatórios de massa. Num caso, a massa dos jornalistas do próprio jornal, no caso egípcio, grandes massas populares. Vou me fixar no caso de A TARDE e das mobilizações.

Primeiro um registro. Comecei minha carreira em A TARDE. Era um jornal conservador, mas do tipo liberal clássico. Não cedia a pressões, por mais ferozes que fossem. Defendia suas ideias e jornalistas. Na esfera política, dormia um sonho quase medieval: defendia o baiano nas questões do dia a dia, mas se revelava avesso a grandes reformas estruturais. Contudo, como na era medieval, havia uma consonância plena – o quase plena – entre o que professava e o que fazia. Deixei A TARDE no alvorecer dos anos 70 quando fui trabalhar em O Globo, no Rio de Janeiro, mas nunca deixei de acompanhar o jornal. Os primeiros anos de vida de um jornalista duram tanto como a vida e, talvez por isso, A TARDE foi sempre alvo de atenção, uma referencia.

Hoje, em Salvador, abro os jornais, leio os blogs, recebo e-amails de amigos e o que vejo: A TARDE imersa numa grave crise de identidade. A demissão do jornalista em foco, não é um episódio isolado. Precisa ser analisada à luz da realidade brasileira. A sociedade mudou. Mudaram os ventos políticos, mudaram as vontades. Diminuiu a influência da mídia, crescem os espaços públicos de manifestação. Na era do carlismo, a Bahia viveu uma situação opressiva em que “liberdade” de imprensa era ditada pela maior ou menor adesão a Antonio Carlos Magalhães. Os espaços públicos eram restritos. O tempo quase imóvel. Não havia liberdade para a sociedade. Não havia, portanto, liberdade para a imprensa.

Agora, a perspectiva é outra. A notícia é em parte um exercício da técnica, em parte um exercício da política. Editar um jornal exige uma visão de mundo ampla. Universal. Ser jornalista requer atenção: a quem servir: à sociedade ou aos interesses comerciais da empresa jornalística? Eis a questão, eis o enigma, eis o impasse. Os jornalistas de A TARDE que levantam a voz para reclamar da demissão do colega estão, em outras palavras, sendo pioneiros em trazer essa questão à cena. Qual é o sentido da liberdade de imprensa? Como articular democracia e liberdade de imprensa? Qual é o sentido da democracia para os jornalistas?

São questões que todo brasileiro tende a se colocar na atualidade. Qual é o significado dessa palavra tão falada e tão pouco levada à prática, democracia? Por isso, fiz a comparação com o Egito. Onde chegará, numa outra escala, a rebelião das massas? Se caminhará para uma autêntica liberdade?

A lembrança dos gregos é inevitável. Pereceram por força da escravidão. Não conseguiram transformar a liberdade num bem comunitário, no sentido de sociedade. Não fizeram da beleza e a força da igualdade um patrimônio comum. Será que nós conseguiremos? Essa a relação entre os movimentos de massas e a democracia. Não se consegue a liberdade sem a ação. Esse o desafio que enfrenta o jornalismo brasileiro nos dias atuais: equilibrar o poder empresarial dos que editam os jornais com o poder das redações. Não se trata apenas de fazer um jornal melhor ou de se conquistar leitores.

Essa conquista resultará da qualidade dos profissionais e da harmonia com a sociedade. O desafio é como o jornalista poderá exercitar a liberdade de criticar, denunciar, fiscalizar ou mesmo aplaudir. É uma questão de uso efetivo do espaço público. O que está em jogo é mais do que a readmissão de um colega. Isto é importante. É vital. Mas é importante que não se esqueça do modelo de negócio do jornal. É, repito, guardadas as proporções o drama egípcio: o que acontecerá passada a euforia inicial pela renúncia do ditador?

Penso que os jornalistas de A TARDE estão dando um exemplo supremo. Trata-se da coesão, do sentimento de solidariedade, da capacidade de se revoltar e de se expor. Enfim, estão trazendo à vida a indignação. Uma sociedade que não tem, nem cultiva tais predicados está condenada a fenecer, a se autodestruir. Na rebelião de A TARDE existe a chama de uma fenômeno que cedo ou tarde vai incendiar o jornalismo brasileiro, exigir mudanças das empresas jornalísticas. Onde iremos chegar, não sei. Sei de um fato histórico: o movimento dos jornalistas de A TARDE é uma advertência. Como é uma advertência, o movimento das massas no Egito. Não existe o homem único, nem a empresa única. Existe, sim, a sociedade e a plenitude do ser humano em geral. Esse o sentido da advertência. Uma empresa jornalística, como qualquer outra empresa, precisa ter credibilidade. Com a diferença de que a empresa jornalística é testada pela opinião pública todos os dias. Como criticar, se não há credibilidade? Dai, a antiga ética de A TARDE. Era preciso ter credibilidade. Será que os gestores – é assim que se passou a chamar, não ? – têm consciência de tal nuança nada sutil?
==================================================
Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br). Repórter de destaque em coberturas nacionais e internacionais por grandes veículos da mídia brasileira, começou profissionalmente em A TARDE.

Comentários

rosane santana on 14 fevereiro, 2011 at 10:50 #

Francamente, confesso minha incapacidade de entender as analogias e os conceitos postos neste artigo.


rosane santana on 14 fevereiro, 2011 at 11:17 #

“Há algo em comum, a despeito de se tratarem de histórias absolutamente distintas, entre a readmissão de um jornalista demitido injustamente pelo tradicional jornal A TARDE, de Salvador, e a queda do ditador egípcio, que ficou no poder por 30 anos. Qual? Em ambos os casos houve momentos reivindicatórios de massa. Num caso, a massa dos jornalistas do próprio jornal, no caso egípcio, grandes massas populares” (Ops!!!)


rosane santana on 14 fevereiro, 2011 at 11:18 #

” Não cedia a pressões, por mais ferozes que fossem. Defendia suas ideias e jornalistas. Na esfera política, dormia um sonho quase medieval: defendia o baiano nas questões do dia a dia, mas se revelava avesso a grandes reformas estruturais. Contudo, como na era medieval, havia uma consonância plena – o quase plena – entre o que professava e o que fazia” (Ops!!!)


rosane santana on 14 fevereiro, 2011 at 11:20 #

“A lembrança dos gregos é inevitável. Pereceram por força da escravidão. Não conseguiram transformar a liberdade num bem comunitário, no sentido de sociedade. Não fizeram da beleza e a força da igualdade um patrimônio comum. Será que nós conseguiremos? Essa a relação entre os movimentos de massas e a democracia. Não se consegue a liberdade sem a ação. Esse o desafio que enfrenta o jornalismo brasileiro nos dias atuais: equilibrar o poder empresarial dos que editam os jornais com o poder das redações. Não se trata apenas de fazer um jornal melhor ou de se conquistar leitores.” (Ops!!!)


rosane santana on 14 fevereiro, 2011 at 11:22 #

” Na rebelião de A TARDE existe a chama de uma fenômeno que cedo ou tarde vai incendiar o jornalismo brasileiro, exigir mudanças das empresas jornalísticas. Onde iremos chegar, não sei. Sei de um fato histórico: o movimento dos jornalistas de A TARDE é uma advertência. Como é uma advertência, o movimento das massas no Egito.” (Ops!!!)


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: