fev
11
Postado em 11-02-2011
Arquivado em (Artigos, Eventuais) por vitor em 11-02-2011 22:28


Aguirre:reflexo da insensatez
====================================================

ARTIGO/IMPRENSA E PODER

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

Washington de Souza Filho *

Ainda vivo, o jornalista Aurélio Velame, para comentar um dos muitos casos de desmandos vividos em redações, na época na Tribuna da Bahia, usou uma frase, adequada para o momento atual, da demissão de Aguirre Peixoto, jovem jornalista, repórter de A Tarde.
- Pior do que ser capataz é ser chicote de feitor.
Aurélio, bom frasista, excelente redator de títulos e, posteriormente, editoriais, criou a expressão em um momento de discussão interna, em que a tônica era o poder exacerbado de quem determina o cumprimento de ordens, adequadas a uma conveniência relacionada ao que é chamado nas redações de IP – interesse do patrão, na linguagem dos jornalistas.
A demissão de Aguirre é um reflexo da insensatez que, infelizmente, faz parte das redações, nas quais as relações de poder sempre atingem o elo mais fraco da corrente. A justa reação da redação de A Tarde é compreensível pela natureza e caráter de Aguirre, a quem conheci e convivi como aluno da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. A situação, porém, deveria ser analisada pelo papel que desempenham os repórteres como ele – gente que precisar estar nas ruas.
A razão apontada para a demissão dele tem ligação com outro recente, com a participação dos mesmos personagens, apontados como os responsáveis pela decisão do jornal: os empresários acusados, de acordo com diversas publicações, de integrarem um esquema para a ocupação de áreas diversas de Salvador, em especial na orla e na avenida Paralela, apontado como especulação imobiliária. Um fato que ganhou espaço nas páginas policiais, com acusações de diversas formas – de extorsão a tráfico de influência.
A punição a Aguirre é por ter agido de forma diferente, como jornalista. Sem nenhuma máscara, levantou as informações, procurou as fontes, quis ouvir a todos. Elaborou a sua reportagem e a submeteu aos responsáveis pela publicação. O risco ao qual ele foi exposto é uma tendência do jornalismo atual, que transforma o autor de uma reportagem em alvo de quem tem o poder, em especial do dinheiro como o seu maior símbolo – e inibe o jornalismo como ação de interesse público. No regime militar, era uma prática comum, promovida, solidariamente, por muitos editores e chefes em geral, salvaguardar os autores com a omissão do nome, a assinatura. O peso da publicação era do meio de comunicação.
O fato corresponde a um padrão, infelizmente comum nas redações, em que os diversos chefes têm os seus poderes condicionados pelos interesses dos seus patrões, em uma atividade que em a crença comum é a de que o jornalista é um ser livre para exercer a sua capacidade, desde que cumpra os diversos preceitos da profissão – a sua garantia de proteção, do valor do seu trabalho e do seu veículo. A demissão de Aguirre tem outro peso, com o fato de que a informação, pelo avanço da tecnologia ter favorecido o desenvolvimento de formas diversas de comunicação, que ampliaram o limite para a sua divulgação. O necessário é a apuração, de forma clara, para a publicação, de maneira honesta, de fatos – algo que muitas vezes não ocorre.
A disposição de fazê-lo culpado é a comprovação do que sempre disse Aurélio. O evidente, no caso, é que os algozes nem precisaram sujar as mãos.

*Washington Filho é Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação (UFBA)

Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: