Keith: Rock, música, drogas e mulheres

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Livro/ “Life”/ Keith Richards (final)

DROGAS, SEXO & ROCK’n ROLL

Regina Soares

Por natureza, Keith não nasceu pra ser o anjinho bom, e ele próprio, com uma tremenda franqueza, adverte aos menos avisados, “não sigam meu exemplo. Eu sou o travesso que escapou do raio que atingiu o nervo, e devo ser exibido como advertência aos jovens sobre os perigos das drogas, ainda que tenham a sorte de não engasgar no seu próprio vômito”.
A leitura vai ficando pesada e difícil, custa acreditar que o personagem esteja vivo pra contar a estória. Ele mesmo ri das estatísticas e predições da sua esperada defunção. “Eu sei que estou nessa lista há mais de 10 anos, por 10 anos eu sou o número um nessa lista!”

Desde o começo da narração, com uma cena em que Richards é quase preso em Arkansas em 1975, com um carregamento de “grass, peyote and mescaline. … hash, Tuinals, some coke” sendo disperso pelo caminho enquanto ele e Ronnie Wood esvaziavam os bolsos, num épico 4 de Julho. Não faltam episódios como esse, repetindo-se nos quatro cantos do planeta. Várias vezes respondeu processos relacionado com o uso ilegal de drogas diante das cortes do Reino Unido, Canadá, América do Norte, e, constantemente, na da opinião publica. Para tornar a situação ainda mais inexplicável, existe a resposta que ele deu ao ser perguntado qual teria sido a substância mais estranha que ele havia cheirado, responde: “meu pai, ele foi cremado e eu cheirei um pouco das cinzas, desceu bem, e ainda não morri”. Ainda hoje se discute a veracidade ou não da anedota.

Keith Richards não se esconde das partes mais difíceis da sua vida, e elas não são poucas nem despidas de dor e severidade, como é de se esperarar, ao abrir e exibir suas feridas no seu livro, que é a própria VIDA dissecada, Richards toca o nervo de quem não está acostumado ao atormentado caminho do viciado, que aprisiona, escravisa e o reduz a pó. A lista é longa e culmina com heroína, “…e não se chama “heroína” por nada, é uma sedutora, …é muito sutil, te agarra devagar, depois da terceira ou quarta vez, você percebe a mensagem”. Não só o agarrou, como arrastou por décadas. Richards, no entanto, explica que o segredo foi “qualidade em vez de quantidade”. “Atribuo minha sobrevivência, não somente a alta qualidade das drogas que usei, mas a maneira meticulosa com que as tomei” “I’d never put more in to get a littel higher”.

No campo do sexual, surpreendentemente, ele é muito mais controlado e peculiar, para alguém que se considerava no topo do mundo “com mulheres arrancando as calcinhas e atirando em sua cara” como ele relata ao explicar a fama dos Rolling Stones de, através de suas músicas, incitar uma reação do público, que era reflexo de sua própria imagem: cínicos, desagradáveis, cépticos, rudes. “Satisfaction” refletia o sentimento de uma geração insatisfeita com a realidade do “mundo adulto” que a juventude tinha a sua frente, e que encontrou, nas letras de suas músicas, a trilha sonora da ruidosa rebelião, tocando o nervo social. “Tudo que elas haviam sido instruídas a não ser, elas podiam ser e fazer nos shows de rock’n roll”.
Chegaram a ser acusados de misoginia, devido algumas letras, culminando com o álbum “Aftermath”, como “Stupid Girl”, “Under my Thumb”, “Out of Time”, “That Girl Belong to Yesterday”, “Yesterday Paper”, entre outras, o que, para eles, eram uma forma de “dar corda, abrir suas cabeças e consciências para a idéia de que, em verdade, “elas eram mulheres fortes e não just little chick”, e isso ficou óbvio quando tocava-mos para elas.

“Linda Keith, a primeira a quebrar meu coração, dezessete anos, impressionantemente bela, cabelos escuros, a imagem perfeita dos anos 60’s. “Quando eu a conheci eu me surpreendi por ela estar interessada em mim, eu, muitas vezes não acreditava que essas mulheres, “Crème de la crème “, quisessem dizer hello, muito menos deitar comigo”. Geralmente as garotas davam o sinal ou ele as roubava de um outro integrante da banda, como foi o caso de Anita Pallenberg, sua grande paixão e companheira por 12 anos, mãe de três de seus filhos, com quem conviveu os duros anos da adição as drogas e começo dos Stones e foi companheira de Brian Jones e Mick Jagger, antes e depois de Keith. Finalmente, Patricia (Patti) Hansen, com quem se casou em 1983 e com quem teve duas filhas, Theodora e Alexandra.

Mulher vinha em terceiro lugar na lista de prioridades de Keith, sendo a música primeiro e as drogas segundo. “Eu nunca tomo a iniciativa com as mulheres, eu não sei o que fazer, meu instinto me diz que deixe elas tomarem a iniciativa, enquanto isso eu concentro meu esforço em criar uma aura de intolerável tensão entorno delas… “Hey, somebody have to do something…” eu sabia como me comportar entre elas, tendo sido criado em torno delas, me sentia confortável, se elas estivessem interessadas, elas fariam o primeiro movimento, isso eu descobri”.

Naqueles anos de loucuras e juventude, drogas, sexo e rock’n roll se misturavam e se dissolviam de uma maneira que era impossível separar um do outro, imagino…

Música, porém, mais precisamente Rock’n Roll e, com ela, sua guitarra, foram seu maior interesse na vida. Não havia outro motivo para viver, “necessitávamos trabalhar juntos, treinar sem pausa, compor e ouvir música, era uma mania. Disciplina Beneditina, qualquer que saísse pra transar era um traidor. Tinhamos que passar todas as horas acordadas estudando Jimmy Reed, Muddy Waters, Little Walter, Wowlin” Wolf, Robert Johnson. Esse era o nosso trabalho. Qualquer momento que nos tirassem disso era um pecado!” Nos primeiros passos, e por cinco décadas, a banda passou por muitos apuros, modificações de ritmos e componentes, lugares de residência, se espalhou pelo mundo e alcançou altos e baixos na popularidade, brigas e encontros dos quatro britânicos loucos que, sem regras, pois Rock & Roll não tem regras, e se tivesse, não seria Rock & Roll. Apenas um código, não escrito, “real rockers never quit”!!!!!!

Na leitura, irreverente, leve, e reveladora do longo livro LIFE de Keith Richards, descobri muitas coisas e confirmei outras, sua generosidade deixou ver que, detrás da pele, prematuramente marcada pelos anos, vividos com uma intensidade e irregularidade de quem quer viver mais de uma vida, encontra-se o charme de quem se despe com tanta honestidade que, inexplicavelmente, comove. A vida de Keith Richards, provavelmente resuma, o que consideramos seja o estilo de vida de uma estrela do Rock – ele não esconde sua profunda admiração pelas drogas e mulheres – mas, seu melhor momento, é quando ele se refere ao seu primeiro amor, o Rock.
“Quando funciona, baby, você cria asas, e voa sem pedir licença”

Regina Soares é advogada, especializada em eleições nos Estados Unidos, fissurada em música, mora em Belmont, na área da baía de San Francisco -Califórnia(EUA)

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 26 janeiro, 2011 at 10:11 #

Cara Regina

Esta série sobre os Stones, e especialmente sobre Keith Richards, merece a frase que encerra teu texto:

“quando funciona, baby, você cria asas, e voa sem pedir licença”

Você alçou vôo, e nos levou com ele.

Grato como leitor, grato como “um menino que amava os Beatles e os Rolling Stones”.


luiz alfredo motta fontana on 26 janeiro, 2011 at 10:12 #

Cara Regina

Esta série sobre os Stones, e especialmente sobre Keith Richards, merece a frase que encerra teu texto:

“quando funciona, baby, você cria asas, e voa sem pedir licença”

Você alçou vôo, e nos levou com ele.

Grato como leitor, grato como “um menino que amava os Beatles e os Rolling Stones”.

Tim Tim!


danilo on 26 janeiro, 2011 at 16:27 #

belo texto, Regina.

e o melhor de tudo na vida de Keith Richards é que ele não chora o “Leite Derramado”. afinal esta é uma tarefa pros caretas velhácos da MPB que ainda imaginam viver em tempos parnasianos…


Marco Lino on 26 janeiro, 2011 at 23:21 #

Bem que a série poderia continuar e virar um livro. Por que não? Perguntaria um velhaco e pagodeiro baiano.

Seria interessante cruzar informações dos stones com outras de congêneres dos EUA e dos malucos baianos Raulzito e Marceleza, por exemplo.

Prato cheio.


regina on 27 janeiro, 2011 at 0:35 #

Gentlemen, obrigada! Vocês são um doce!

errata: em vez de “no campo do sexual” leia-se “no campo sexual”.

Recomendo o livro, o cara é muito louco e divertido!

Abraços…
RS


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