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DEU NO SITE DE CHICO BRUNO ( http://www.chicobruno.com.br/ )

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Direto da Varanda: Chico Bruno

O novo secretário e a velha prática carlista

O jornal A Tarde foi às ruas do Centro Historio de Salvador ouvir a opinião de turistas sobre o estado de conservação do espaço onde a cidade nasceu.
Os visitantes saúdam o local como um dos mais bonitos e importantes sítios históricos do mundo, mas reclamam do péssimo estado de conservação.
A jornalista Mary Weinstein, autora da reportagem lembra que “o Programa de Recuperação do Centro Histórico, iniciado em 1992, contou com aprovação entusiasmada de vários setores, até 1994, quando começou a enfrentar ritmo lento de execução. Em 1995, a mídia já dava conta da degradação que ameaçava retornar ao sítio classificado pela Unesco”.

Mary aborda, ainda, que “em 2007, o governo Jaques Wagner se propôs a prestar atenção especial ao que passava a ser chamado de Centro Antigo, agregando bairros adjacentes ao conceito do conjunto. E divulgou iniciativas como a requalificação da comunidade da Rocinha e a instalação de um escritório de referência”.
Como não poderia deixar de ser, Mary foi ouvir “o recém-empossado secretário da Cultura, Albino Rubim”, que substituiu o diretor de teatro Márcio Meirelles, ex-secretário da primeira gestão de Wagner e autor do plano de requalificação do sítio histórico.
Albino diz que “faz um reconhecimento da área e dos problemas, como os apontados por turistas e baianos. E avisa que, antes de mais nada, está tomando pé da situação”.
As primeiras palavras do secretário deixam no ar a sensação que ele vive em outro planeta, pois a questão do Centro Histórico está presente no dia a dia dos soteropolitanos há décadas.
Mas, para não se furtar a conversa com a jornalista, Rubim diz obviedades como “essa área é vital. É um símbolo, um espaço compartilhado, que dá identidade à cidade. É onde Salvador nasceu. Quem fala de Salvador não se refere à Pituba ou Itaigara, mas ao Centro Antigo. Os soteropolitanos e turistas sabem que este centro tem uma importância extrema para a nossa concepção de cidade”.

E prossegue o secretário explicando que houve um momento em que a cidade se deslocou. “E essa não é uma singularidade de Salvador. Aconteceu em várias cidades. A questão é como intervir nesses centros”, reflete.

Rubim crítica o que foi feito pelos governos carlistas.
Para ele aquela intervenção tinha tudo para não dar certo, pois “foi voltada para o turismo. E não poderia haver sustentabilidade ancorada no turismo. Não havia potencialidade. Teria que ter uma dinâmica com suporte da população”.
O interessante é que Rubim ao mesmo tempo em que diz que precisa tomar pé da situação, discorre sobre as intervenções ocorridas no local nos anos 90 e mostra conhecimento sobre o plano de Meirelles para a área.
Mas, o secretário coloca os pés pelas mãos, ao discorrer sobre uma suposta “substituição dos moradores”.

Usando um palavreado confuso, ele afirma que “foi uma revitalização sem a população e determinados empreendimentos que davam vida ao lugar. Criou-se um simulacro de dinâmica. Uma revitalização sem considerar os grupos afros, sem uma concatenação. Como era novidade, a classe média frequentou. O Estado jogou uma grana ali, uma situação artificial. E começou a decadência. Para ser honesto, muito antes do governo Wagner”.
Ora, bolas!
O secretário começa mal a jornada.
Os grupos afros e os “empreendimentos que davam vida ao lugar” nunca se afastaram do Pelourinho, muito pelo contrário são eles que mantêm acessa a chama mágica do local.
O grande problema do Centro Histórico de Salvador é o desleixo.
A prefeitura de Salvador, por exemplo, há muito tempo não dá a mínima atenção ao sítio histórico da cidade. A municipalidade vive a sombra das intervenções feitas pelo governo do Estado.
Entra prefeito, sai prefeito e o Centro Histórico é tratado como se fosse um enclave do governo estadual em Salvador.
Justiça seja feita à ex-prefeita Lídice da Mata que tentou reverter essa história, mas foi massacrada pela intolerância de Antônio Carlos Magalhães, que usurpou o Pelourinho do poder municipal com a conivência dos prefeitos da época transformando-o em uma bandeira eleitoral.
O pior é que Meirelles não tentou reverter essa lógica e ao que parece Rubim tende a mantê-la.
Esta na hora do prefeito João Henrique resgatar o controle do Pelourinho para Salvador, talvez essa ação o tire do buraco em que se encontra.

Comentários

Marco Lino on 23 janeiro, 2011 at 12:39 #

Bom, muito bom.

Só discordo do autor (e concordo com o atual secretário e tb com o ex, que disse a mesma coisa na carta resposta a Caetano Veloso) quando este diz que a população não foi removida do Centro Histórico. É fato que a maioria das famílias foi convidada gentilmete a sair (algumas por alguns trocados que não deram uma semana).

Aliás, a política de “higienização” praticada no Pelourinho já havia sido operada antes em Salvador pelo “prefeito do século”, quando este preparou a cidade para o turista contemplar. Lacerda fez o mesmo no Rio. Nenhuma novidade.

No mais, muito bom!


danilo on 23 janeiro, 2011 at 19:41 #

é verdade, Marco Lino. deixa o Pelô como está. o Pelô tá uma maravilha. tá parecendo até o “centro antigo” de Milão…


Marco Lino on 23 janeiro, 2011 at 22:56 #

Não acho, Danilo. O Pelô está morto.

Mas creio que não pode pensar em “revitalizar”, “ressuscitar” sem gente, povo, vida – como foi feito.

No final do verão a turistada vaza, e aí? Quem segura a onda?!

Casa desabitada, meu caro, cai! Não fossem as “putas” que habitaram o Maciel e adjacências, babau Pelô. Tirar esse povo de lá foi uma verdadeira injustiça contra quem segurou a onda lá por tanto tempo.

No final, os novos comerciantes pularam fora e o crack tomou conta. Imagino que não se deve pensar o Pelourinho somente como negócio, mas acima de tudo deve-se concebê-lo como um bairro onde more gente, que tenha vida.

Por que não pensar a volta do bonde? É só falar com Mário Kertész, ele tem a receita do bonde moderno.

Abraços


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