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21


O prefeito e a primeira dama de Salvador
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A editoria de Política do jornal Tribuna da Bahia realizou um mergulho de profundidade no mar turvo, cheio de esconderijos e labirintos mal iluminados da Prefeitura de Salvador , e produziu revelações importantes, cruciais mesmo, e até aqui pouco divulgadas – salvo raras e pontuais exceções.

Estão expostas na reportagem política assinada pela reporter Fernanda Chagas. Pelo mérito jornalístico e pela relevância das informações, Bahia em Pauta reproduz o texto da TB. Bravo!
(Vitor Hugo Soares)
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Fernanda Chagas

Um mergulho nos bastidores da política baiana e nos porões do poder municipal em busca de um entendimento melhor da atual crise que atinge a Prefeitura de Salvador revela um diagnóstico surpreendente: nove entre 10 políticos e não políticos ouvidos são diretos ao afirmar que o problema da Prefeitura tem várias origens, desde a queda de arrecadação aos repasses cada vez mais enxutos do Fundo de Participação dos Municípios, mas que o problema maior e que amiúda os outros não está em João. Está em Maria.

Com seu estilo voluntarioso, sempre presente em quase todos os momentos ou decisões tomadas pelo marido prefeito, a primeira-dama Maria Luíza acabou por criar uma figura externa ao poder municipal capaz de em muitas situações ter sua opinião transformada numa bíblia a ser seguida fielmente sob pena de uma perigosa colisão política de imprevisíveis, ou nem tanto, consequências para quem desvia do seu pensamento.

Sua personalidade forte ajudou, em muitas ocasiões, a fortalecer posições do prefeito, mesmo quando o exército aliado parecia em desvantagem para cruciais batalhas. Mas, na maioria das vezes, essa ajuda tem se tornado um tormento ou uma dor de cabeça para o marido prefeito, e, inserida no tabuleiro do poder municipal como uma peça que lá se instalou e parece irremovível, vai contribuindo hoje para o crescente desgaste experimentado pelo alcaide.

Contam que a primeira intervenção de Maria deu-se antes mesmo de João fazer a última prova do terno da posse para o seu primeiro mandato. João queria o irmão Sérgio na Casa Civil, por achá-lo – como meio mundo político acha – jeitoso e habilidoso para o trato com uma casa nervosa como é a Câmara Municipal. Sergio chegou a ser contatado, estava inclinado a aceitar, mas Maria foi contra.

Argumentou que não cairia bem para o perfil do alcaide trazer para um gabinete ao lado do seu exatamente o seu irmão, apesar de suas inegáveis qualidades políticas.

A interlocutores privilegiados ela teria dito: ele não senta naquela cadeira. E Sergio não sentou. Mas se por intuição feminina ou sopro de algum vidente, Maria acertou em cheio nessa intervenção. Mesmo sem estar no gabinete ao lado do mano, foi seu líder na Câmara e lá, com seus atributos, conseguiu a inédita façanha de aprovar todos os projetos encaminhados pelo executivo.

E por unanimidade. Sergio revelou-se uma peça importante no começo da primeira gestão de João, mas quando ia ao Palácio sentava num confortável sofá de couro preto na antessala do prefeito. Jamais na, nem tão confortável assim, cadeira de secretário Chefe da Casa Civil. Como previu Maria.

Era só o começo de uma gestão e de uma conturbada história de palpites e intervenções, felizes e infelizes, da primeira-dama que, para muitos, acabaram levando o prefeito à perda da sustentação política na Câmara, da confiança de influentes caciques políticos e até de fraternos amigos que, convidados a emprestar sua colaboração ao núcleo do poder municipal, acabavam enxotados não exatamente pelo prefeito, mas por uma estranha luz que parecia iluminar – ou não – seus pensamentos e decisões.

Pressão cresce e, com ela, as exonerações
Ao passar dos dias, o poder de fogo da primeira-dama, inevitavelmente, foi aumentando. Seus palpites e intervenções saltaram de esporádicos para constantes e os secretários de governo e assessores diretos foram virando alvos diretos. Um bom exemplo a ser citado foi o do advogado Carlos Sodré, ex-secretário particular do prefeito na primeira gestão, que em dezembro de 2005 pediu exoneração – o primeiro de uma série –, por se sentir desconfortável com algumas observações da primeira-dama.

Segundo Sodré, ele nunca teve nenhum problema pessoal nem com o prefeito nem com a própria Maria Luíza. “Sempre fui tratado com respeito. O problema foi no campo administrativo.

“E, o primeiro erro do prefeito foi permitir que ela (Maria Luíza) tivesse tanto espaço e poder. Afinal, foi ele quem foi eleito pela população. Ele que tem por obrigação gerir os destinos da cidade, mas, com o desejo de ajudar, ela acabava interferindo em tudo. Por interferência dela, foi criado um clima de dificuldades até para mim.

Quando percebi que o clima era muito ruim, já que ela interferia em tudo, até na hora do almoço, pedi para sair”, relembrou. Ainda, segundo Sodré, cerca de 156 nomeados do primeiro e segundo escalão já foram demitidos por interferência de Maria Luíza.

“Para comprovar, basta pegar o Diário Oficial do Município e o maior detalhe é que, no afã de ajudar, ela interfere no governo sem pedir segredo. A primeira-dama acaba se metendo em tudo. Ou seja, com ela por perto, quando os meus males forem velhos, os de alguém serão novos”, desabafou.
Nos bastidores do poder credita-se à primeira-dama a saída de valiosos quadros, auxiliares que muito contribuíam com a gestão municipal, mas acabaram agastados com algumas intervenções de Maria. Entre eles, é possível mencionar entre os casos mais recentes os dos secretários José Carlos Brito (Saúde), André Curvello (Comunicação), Carlos Ribeiro Soares (Educação) e Fábio Mota (Serviços Públicos), alguns da cota do PMDB, antigo partido de Maria Luíza, pelo qual ela tomou “ódio mortal”, ao se desentender com o líder da sigla, Geddel Vieira Lima.

O caso de Curvello, que também não resistiu às pressões e entregou o cargo, após ter pedido demissão quatro vezes, foi um dos mais emblemáticos. Sua saída teria sido gerada após uma resposta da Secretaria de Comunicação sobre um assunto polêmico ligado à gestão municipal.

A nota teria deixado o prefeito numa situação delicada e, sem hesitar, a primeira-dama partiu em defesa do marido e criticou a posição da Secom, leia-se de Curvello, de forma aberta.

No que diz respeito a José Carlos Brito, circula nos bastidores que a sua saída se deu pelo simples fato de Maria querer participar mais de perto da gestão do Fundo Municipal de Saúde e Brito ter batido de frente por ser o titular da pasta. Este teria sido o estopim para sua cabeça ir a prêmio. Já no caso do secretário Fábio Mota, classificado pelo prefeito como um dos seus melhores quadros, também teria saído por pressão da deputada Maria Luíza, simplesmente por fazer parte da cúpula dos Vieira Lima.

Assim, técnicos de renomada qualificação acabaram defenestrados de posições estratégicas da máquina municipal sem uma explicação muito lógica. Outros preferiram pedir as contas e tomar outro rumo por constatarem que estavam entrando numa perigosa rota de colisão com a primeira-dama, onde haveriam de pagar um preço altíssimo por mais algumas semanas ou meses de sobrevida. E, fincado na sólida estrutura familiar, o prefeito seguia e segue a ouvi-la em momentos delicados ou, muitas vezes, nem tanto.

Sempre presente com palpites temidos
A figura muitas vezes invisível, mas sempre presente, da primeira-dama foi criando no mundo político uma sensação de que o que era acordado com João muitas vezes sucumbia diante de uma eventual resistência de Maria, da voluntariosa e sempre voltada a ajudá-lo Maria, mas, para muitos, de alguns palpites infelizes ou posições emocionais, incompatíveis com a gestão de uma capital como Salvador.

“Não é justo dizer que ela viva a conspirar ou a querer, em algum momento, o mal para o prefeito ou para a cidade. Ela apenas exagera em seus palpites, sufoca o prefeito em momentos onde seu bom senso seria o melhor conselheiro e ela acaba sendo ouvida. E desandando tudo que ia muito bem para frente. E com a cadeira de deputada, aí é que a coisa ficou pior ainda”, desabafa um ex-auxiliar de João.

No campo político, porém, esses palpites são tidos como “temidos” pela pequena margem de acertos e por tornar acordos longamente negociados ou cuidadosamente costurados susceptíveis de um rompante de Maria.

“Ela age guiada pela intuição feminina, mas deixa que o emocional fale mais alto. Com isso, em vez de interpretar uma situação levando em conta os vários elementos que a compõem, vai logo se posicionando, desfazendo alianças ou trabalhando para que elas não durem muito. Seu desejo de ajudar a faz querer exercer um poder incompatível com o que é de direito na máquina municipal, e quando não é ouvida começa a afiar uma potente e fatal guilhotina, independente do brilho que emane da cabeça a ser decapitada”, dispara outro destacado personagem da vida pública baiana.

Na visão da líder do PT na Câmara, Vânia Galvão, se isso, de fato, estiver ocorrendo, as recomendações de Maria Luíza ao prefeito, sem dúvida, são de péssima influência.
“Afinal, a cidade enfrenta uma grave crise. Portanto, o conselho que dou a ela, como representante da classe feminina, é que deixe o prefeito exercer o seu papel, que as urnas lhe destinaram”.

E Sodré sentencia: “tem que haver uma força-tarefa de todos os partidos pelo bem de Salvador para garantir a governabilidade na cidade. Contudo, sem a intromissão de Maria Luíza”, reiterou.

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