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Postado em 18-10-2010
Arquivado em (Crônica, Gilson) por vitor em 18-10-2010 14:31

Serrinha(Ba): estação sem o trem de gente
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Crônica/Tempo e lugares

O Maracassumé e o trem faminto

Gilson Nogueira

A louça era branca, como, branco, o avental do professor de desenho do Colégio São Bento, Arlindo. Com ele nos ensinando trabalhos manuais, começávamos a utilizar régua e compasso, no despertar dos “artistas” e, principalmente, do fazer bem os trabalhos, a fim de tirar boas notas, a caminho de mais um ano a ser vencido na estrada da vida, expressão esta bastante utilizada por aquele garoto tirado a poeta que, um dia, já formado, ao encontrar-se com o mestre de trabalhos manuais, disse-lhe: “ Você continua o mesmo, Arlindão, não mudou nada, forte e simpático, que Deus o conserve, sempre jovial, com esse seu carisma, professor!” Nunca mais vi o bom Arlindo!

Voltando à louça. Havia, também, pratos, bule de café, açucareiro, mantegueira, potes e outros apetrechos de mesa, em azul e branco, com aqueles desenhos de cavalos e castelos e um nome inglês indicando haver sido fabricados na Europa.

O ar de silêncio e cheiro de coalhada, sem esquecer o de perfumes de coisa antiga e de alecrim, invadiam cozinha,salas, quartos e a varanda, onde havia um sino, cor de ouro, tocado por tio Dida, toda vez que ele nos via chegar, nas férias, para uma visita, acompanhados dos nossos pais.

A primeira vez que ouvi o som daquele sino aconteceu na primeira visita. Justamente, dia do batizado! Não sei, não lembro se foi meu ou de anjos, e passarinhos, de todas as cores, que voavam lá, dia e noite, como se o paraíso fosse, ali, naquele local com pinta de presépio, perto da Estação e do Matadouro.

Recordo, com clareza, que, depois de pedir a benção ao irmão de minha avó paterna, que Deus a tenha, a primeira coisa que eu fazia era correr para a entrada do Sítio Maracassumé, montar na cancela ,e ficar a ver o trem passar. Já escrevi sobre ele, o trem faminto, em texto que enviei, não lembro quando, para a Tribuna da Bahia, jornal que, ao folheá-lo, até hoje, sinto a pulsação do novo e o exalar dos seus ideais calcados no forte propósito democrático, há mais de 40 anos, preconizado por seus fundadores, antigos e novos dirigentes e colaboradores.

Foi, ali, em Serrinha de minhas doces lembranças de brincadeiras de criança, como fazer de conta que era caubói, atirando com a ponta do dedo indicador da mão direita, que, ao pescar piabas e traíras, no riacho da Bela Vista, vendo o trem passar no pontilhão, sobre o Açude da Bomba, onde imaginei o dia em que não veria mais o trem faminto.

Foram-se os anos de criança, ficaram recordações que dão sabor especial ao cardápio de saudade daquela época em que o mundo parecia outro, literalmente. Não havia violência. Isso é tudo. E não estou tão distante, assim, dos tempos de criança. No pontilhão, atualmente, passam trens, de carga, somente, não mais como antes, aos montes.Os de passageiros, pelo que soube, “já eram!”.

- Um moço de Salvador falou que o trem de gente pra Juazeiro vai voltar, com aquelas máquinas porretas, sem chaminés, mais rápidos!”
Tomara! As locomotivas dos antigos trens, pretas e douradas, inglesas, quando passavam, imponentes, engoliam trilhos, distâncias, retas e curvas, ziguezagueando feito serpentes , no mato, em busca de mais comida, imaginava eu, que ficava contando o número de vagões do bicho e dando adeus para as pessoas nas suas janelas, como se todas elas fossem da minha família. O mundo parecia mais feliz. As pessoas sorriam mais.

Gilson Nogueira

Comentários

Hilder on 19 outubro, 2010 at 13:10 #

Belas lembranças as suas Gilson. Em outros lugares e provavelmente com a mesma temporalidade, tenho belas recordações da época dos trens de gente.


Marco Lino on 19 outubro, 2010 at 13:54 #

Ainda tenho esperança de, saindo da Calçada e passando por Alagoinhas, Serrinha e outras jóias baianas, chegar ao São Francisco, na quentíssima Juazeiro, de trem. Refazer o trajeto histórico descrito por Euclides da Cunha.

Que venha a Oeste-Leste e que renasçam as ferrovias Bahia-Minas (via Recôncavo) e Salvador-Juazeiro. Não custa nada sonhar.


JOSE SILVA on 19 outubro, 2010 at 14:45 #

Voce fez meu dia muito feliz, relembrei minha infancia em minha querida SERRINHA.
Obrigado; jose silva DF


marcell ribeiro on 5 abril, 2011 at 12:53 #

olá, gilson! fico muito emocionado em poder dividir contigo esse registro mais do que nostalgico e magico,sou neto de jose d’avila ribeiro q/ foi 1 dos patriarcas da familia ribeiro.lembro-me de muitas ocasioes em q estive no sitio de meu avó zé ribeiro e ter esse privilegio de acenar para os passageiros de alem-mar.fato engracado era de qdo a molecada estava no 3º sono(2 ou 3 da madruga) o velho e querido trem passava por la dando aquela sensaçao de entrar pelos 4 cômodos da casa.era massa! um saudoso e querido abraco,marcell ribeiro RR


gilson on 5 abril, 2011 at 20:02 #

Caro Marcell, ao abrir a janela do BP, vejo você, na paisagem, acenando emoção e gentileza para o amigo que provocou-lhe, com a crônica, lembranças da sua família, a partir do velho José D´Ávila.
Fico,como você, também emocionando, sempre que o trem das gratas recordações apita na curva do presente o passado que não morreu. Grande abraço! Gilson Nogueira


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