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Postado em 17-07-2010
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 17-07-2010 00:12

Luiz Fernando no Super Sincero…

…E Marina na sabatina da Record

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ARTIGO DA SEMANA

SUPER SINCERA NA TV

Vitor Hugo Soares

Sabatinada esta semana na Rede Record de Televisão, no primeiro encontro com os candidatos à presidência da República da série programada pela emissora, Marina Silva, do Partido Verde, pode até não ter marcado pontos em futuras pesquisas de opinião, mera suposição ainda a verificar. Do ponto de vista político e jornalístico, porém, ela cumpriu como se deve o papel de um candidato nesta quadra da vida nacional: Falou a verdade, disse o que sente e ofereceu matéria de sobra para notícia, opinião e reflexões.

Nos instantes mais interessantes e cruciais da conversa com a apresentadora e jornalistas convidados, ou ao responder a questões propostas pelos tele-eleitores, Marina lembrou muito – para o bem e para o mal – aquele personagem vivido pelo ator Luiz Fernando Guimarães, no quadro O Super Sincero, que abrilhantava as noites de domingo no programa Fantástico, da Rede Globo.

Recordo, por exemplo, um episódio em especial, no qual o personagem da televisão atrasado a caminho do escritório de trabalho no centro da metrópole, se vê, de repente, no meio de uma ruidosa manifestação de ambientalistas. Destas com o propósito de salvar a humanidade de todos os perigos representados pelos predadores ambientais de todos os tipos e espécies.

Bloqueado pela passeata, sem conseguir se livrar da confusão, o personagem de Luiz Fernando bate de frente com uma jovem de cara pintada, daquelas que aqui na Bahia são chamadas com perversa ironia de “militante cri cri da natureza”. Atraente e sem perder a calma, diante de cada resposta ou argumento desconcertante do ator, ela tenta a todo custo “ganhar” Luiz Fernando para a “causa”, como diziam os antigos militantes de esquerda dos 60/70.

Sosseguem que não pretendo “torrar” a paciência de ninguém com detalhes da história, que pode ser vista em vídeos espalhados por inúmeras esquinas da Internet. Digo apenas que a moça acaba levando o personagem para conhecer o seu apartamento, um mini-universo do politicamente correto no terreno da defesa ambiental. No fim, não resisto revelar, depois de tudo (que não conto) os dois retornam aos seus papeis originais.

Voltemos então à candidata do Partido Verde na sabatina da Record. No estúdio, jovial e simpática como a moça da passeata ambientalista, Marina Silva, no entanto, esbanja sinceridade nas respostas ao tiroteio de perguntas a que é submetida, como o personagem do extinto quadro dominical da TV Globo.

Quão útil e oportuno seria sua apresentação neste período tão marcadamente insincero de campanha política, principalmente por parte dos dois candidatos melhores colocados nas pesquisas de opinião: Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB. Ambos, com suas diferenças específicas, provavelmente convencidos por seus condutores e conselheiros de que é isso exatamente o que as eleitores esperam de postulantes a cargos públicos. Insinceridade!

A acreana, boa conhecedora dos segredos da selva – embora talvez nem tanto do bicho homem, do animal político principalmente – preferiu caminhar por trilhas diversas às de seus adversários na briga pelo posto maior da República. Sem temer preconceitos ou ser chamada de “careta”, a candidata verde falou sem meias palavras de temas polêmicos e delicados, dos quais os demais postulantes ao Palácio do Planalto em geral se esquivam, ou respondem com meias verdades – o que no fundo não passa de uma mentira completa.

Na sabatina da Record, Marina Silva afirmou que nunca fumou maconha e acrescentou ser contra a legalização da droga. Nunca tomou bebida alcoólica, “só Biotônico Fontoura”, ressalvou, para ser totalmente verdadeira e ao lembrar do tônico famoso bebido na infância de menina pobre e raquítica, que fez a delícia de gerações inteiras e despertou o amor de muitos brasileiros pelo bar e a farra, como este que vos escreve.

Perguntada sobre o casamento homossexual, aprovado esta semana pelo Congresso da Argentina contra a vontade da Igreja Católica e sob o patrocínio corajoso – suicida para alguns – da presidente Cristina Kirchner, a candidata verde não fugiu da raia ao opinar sobre o casamento gay.

“No meu entendimento, o casamento é um sacramento. Não faço aquele jogo de falar por entre os dentes, de ir à Igreja e dizer uma coisa e ir à comunidade e dizer outra”, atirou. Marina ainda assinalou que o uso do Santo Daime em cultos religiosos não pode ser visto com preconceito, mas uma vez retirado do contexto, pode levar a aborrecimentos. “É uma prática religiosa que tem origem em comunidades indígenas. Tirado do contexto e tratado de forma esteriotipada, pode criar problemas”. Mesmo fazendo parte do contexto geográfico e humano do Daime, a candidata fez questão de frisar que jamais tomou um gole da bebida com poderes ditos “alucinógenos”.

Marina se queixou de sofrer preconceito simplesmente por ser evangélica. Ela opina, com razão, que o fato de ter e praticar uma religião não a torna – nem a ninguém – passível de pré-julgamentos e condenação prévia. “Fico triste quando vejo algumas pessoas acharem que pelo simples fato de professar a fé evangélica eu seria, a priori, uma pessoa limitada, conservadora”.

E, nesse ponto, a Super Sincera candidata mostrou as garras na TV: “Nunca gostei da forma como muitas vezes, até no meio religioso, as pessoas ficavam dizendo que o presidente Lula ia acabar com a Bíblia e com a religião”.

Na mosca. Pena que a sabatina de Marina tenha sido tão pouco noticiada e repercutida além dos limites da Rede Record, por nossos melhores jornais, emissoras de rádio, TV, blogs e portais na Internet – salvo honrosas exceções como o Terra, em seu espaço “Eleições 2010”. Meios tão generosos (e as vezes complacentes) com os dois candidatos melhores colocados nas pesquisas, como se a escolha presidencial não passasse de mero plebiscito.

A Super Sincera Marina merecia mais olhares e atenções para suas palavras.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: Vitor_soares1@terra.com.br

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