nov
13

Márcia!, Marcia!

Artur Xexeo

Vi, pela primeira vez, Márcia Cabrita na redação de um jornal que nem existe mais. Eu editava o caderno supostamente cultural da publicação. Ela divulgava um restaurante no Humaitá — naquela construção onde hoje funciona a Casa do Mago. Tinha vinte e poucos anos e já era atriz, mas tentava aumentar a renda mensal com o dinheiro extra da divulgação. Estava sempre ao lado de Luís Salém, outro ator que se desdobrava em atividades pouco artísticas para ter algum troco a mais no fim do mês. Era uma alegria. A barra pesada do fechamento diário era interrompida para a gente ouvir Márcia e Salém contando alguma coisa. Podia ser qualquer coisa. Era sempre engraçado.

Foi pra “dar uma força” àquela garota simpática que me vi em ambiente que, em condições normais de temperatura e pressão, eu não frequentaria. No porão da boate Kitinete, ali na Barata Ribeiro, onde um dia tinha funcionado o Crepúsculo de Cubatão (ou será que foi no Crepúsculo mesmo?), Márcia e Salém uniam-se a Aloísio de Abreu em espetáculo irresistível. Não precisava de “força” alguma. “Subversões”, o show no qual o trio apresentava paródias de sucessos musicais, tinha casa cheia toda noite. Depois de “Subversões”, tornou-se impossível ouvir “Amor e poder”, o hit de Rosana, e não se lembrar de “Meu nome é Creusa”, a versão subversiva do trio. “Subversões” poderia ficar em cartaz para sempre. E meio que ficou.

Márcia foi a primeira pessoa que viu nos meus textos aqui da coluna algum humor que serviria ao teatro. Pelo menos, foi a primeira pessoa a me convidar para escrever um esquete para ela e Salém. Eu, bobo, não aceitei. E fiquei devendo esse texto para ela.

Acompanhei sua ascensão profissional e torci muito por ela quando seu rosto começou a ser conhecido do grande público — “Subversões”, definitivamente, era do circuito alternativo — pelos programas da Globo. Ela não se conformava de eu me lembrar das aparições que fazia no seriado “Delegacia de Mulheres”. Márcia era parte do que hoje se chama de “elenco de apoio”, mas, na época, era figuração mesmo. Acompanhei a alegria com que ela entrou para o elenco de “As atrizes”, um exemplar do mais digno teatrão, que não tinha nada a ver com sua carreira alternativa até então. O texto era de Juca de Oliveira, as atrizes do título eram Tônia Carrero e Lucélia Santos. O elenco ainda contava com Osmar Prado e Mauro Mendonça. Márcia estava no lugar certo, no meio de estrelas.

Foi nessa época que ela começou a ter dúvidas se tinha acertado ao escolher seu nome artístico. Cabrita? Acho que Tônia implicou com o sobrenome que Márcia herdou dos antepassados portugueses. Ela, então, veio me fazer uma consulta profissional. Já que eu convivia bem com o Xexéo, ela deveria manter o Cabrita? Dei força. Sabia que o talento de Márcia faria o público nem se dar conta de que, talvez, aquele sobrenome fosse meio esquisito. Eu estava certo.

Por dois ou três anos, Márcia, Salém e Aloísio promoveram uma entrega de prêmios. Era o Prêmio Subversões para os destaques do ano. Bem, destaques na visão daquele trio demolidor. Lembro-me de um ano no qual Vera Loyola estava entre os premiados. Eu também. Fui indicado na categoria Arquivo X. Os candidatos eram Xuxa, Xexéo e… desculpa aí … xoxota. Fui o escolhido. Subi ao palco do Teatro dos Quatro para receber a estatueta de uma modelo linda e inteiramente pelada (ela era a terceira indicada). Por que topei pagar o mico? Porque eu adorava Márcia Cabrita. Todo mundo adorava Márcia Cabrita.

Sem dúvida, o melhor papel na carreira de Márcia foi a empregada de “Sai de baixo”. Era uma missão difícil. Márcia estava simplesmente substituindo a insubstituível Cláudia Jimenez. Não lhe deram muitos instrumentos. A empregada de Márcia não tinha nem nome. Foi ela quem a batizou de Neide Aparecida. Interpretou o personagem por três anos. Foi a empregada que durou mais tempo naquele apartamento do Largo do Arouche. Há quatro anos, quando o canal Viva produziu quatro episódios especiais do programa, dez anos depois de ele sair do ar, Márcia reencontrou o mais popular de seus personagens. Desta vez, o colunista que vos fala teve a honra de escrever os roteiros dos novos episódios. E não é que, enfim, escrevi um texto teatral para a minha amiga Márcia Cabrita?

Doente há sete anos, Márcia nunca deixou de trabalhar. Na época do “Sai de baixo” do Viva, ela estava bem frágil. Mas animadíssima. Esses sete anos foram assim, tempos bons interrompidos por recaídas. Até outro dia, estava no ar em “Novo Mundo”, novela que não conseguiu gravar até o fim. Ainda aparece nos episódios do humorístico “Treme-Treme” no canal Multishow.

Toda vida dedicada à arte de fazer rir deve ser celebrada. Neste Brasil no qual a gente se cerca de tanta coisa sem graça, Márcia conseguiu manter o bom humor e nunca deixou de alegrar o público. Num país que cada vez provoca mais tristeza na população, a Cabrita vai fazer falta.

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