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Torquato Neto no filme “Nosferato no Brasil”


DA UOL/FOLHA/ILUSTRADA

CLAUDIO LEAL
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Atropelado na avenida Ipiranga, em São Paulo, Tom Zé não encontrou em Torquato bons ouvidos para queixas. “Seus sapatos voaram longe?”, perguntou-lhe o poeta. “Estou com uma dor enorme nas costas e você me pergunta pelos sapatos?”. Sim, insistiu: “Os sapatos de todos os atropelados voam longe. E os seus?”. Tom Zé admitiu: “Não é que voaram longe?”.

Em frente ao TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), no bairro da Bela Vista, porque eram “nordestinos ou tropicalistas”, Torquato afligiu-se com o carro veloz: “Vamos rápido! Aquele ali já nos viu”. Na ressaca do tropicalismo, um ficou em São Paulo, o outro, no Rio. Nunca mais atravessaram juntos a rua.

No final de 1968, passada uma tentativa de suicídio, o poeta pediu à figurinista Regina Boni, numa clínica em São Paulo: “Fique comigo”. Regina viveria encontros mais doces com Torquato e sua mulher, Ana –nenhum deles com jeito de despedida.

No elevador da avenida Rio Branco, 14, onde trabalhava numa empresa de navegação, o poeta e produtor Hermínio Bello de Carvalho dividia sempre segundos com Torquato, que seguia para a gravadora Mocambo. Chocado com a morte do vizinho de repartição, Hermínio descreveu num poema “sua boca larga, cheia de dentes e poesia”.

No Quartier Latin, em Paris, o letrista Ronaldo Bastos morou na mesma pensão de Torquato. Em 1969, flanavam, bebiam e pensavam no Brasil. O teto do quarto de Ronaldo era forrado de poemas. Torquato dizia que o poeta beat Allen Ginsberg havia morado ali. Nasceram versos: “Saiba, Ronaldo, acontece/ uma vez em qualquer vida:/ as teias que a gente tece/ abrem sempre uma ferida”. No Brasil, se viam menos. O último encontro foi num show de Milton Nascimento.

“NAVILOUCA”

Torquato levou ao porto o artista plástico Luciano Figueiredo, que embarcaria para Londres, onde era esperado por Óscar Ramos. A amizade nasceu após a tropicália, em 1970. Nunca tiveram um papo íntimo. Luciano e Óscar criaram o projeto gráfico da “Navilouca”, revista vanguardista liderada por Torquato e Waly Salomão, inimigos das caretices panfletárias. Luciano despediu-se de um homem “amável e essencialmente calado”, que morreria 20 dias mais tarde.

“A transa da ‘Flor do Mal’ é simples como uma fórmula mágica.” Em 1971, na coluna “Geléia Geral” (“Última Hora”), Torquato festejava o jornalista Luiz Carlos Maciel por levar às bancas o nanico “Flor do Mal” e a versão brasileira da revista “Rolling Stone”. Ana Duarte trabalhava com Maciel no “Pasquim”, que editava o tabloide “Flor do Mal”. Maciel viu o tropicalista pela última vez na porta do jornal, à espera de Ana, com quem foi de mãos dadas para casa.

Um desencontro na contracultura. Exilado entre 1965 e 1972, o compositor Jorge Mautner não ficou amigo de Torquato. De volta ao Brasil, apenas o cumprimentou duas vezes em festas cariocas. Entristeceu-se com a morte prematura do “homem que levava tudo aos extremos”.

O cineasta Ivan Cardoso, autor das célebres imagens de Torquato em “Nosferato no Brasil” (1970), diz que não conheceu o “dark side” do poeta. Ele se considera lançado pelo amigo como diretor e fotógrafo. “Nunca o dirigi. Ele tinha dentro dele o personagem do vampiro. Torquato é o Nosferato que está na tela.” Cardoso levou o tropicalista ao Carnaval da Bahia, em 1972. Minutos após a exibição de um filme de Rogério Sganzerla, no MAM (RJ), convidou Torquato para ir ao casamento de Graça, irmã de Nelson Motta. Torquato preferia festejar o próprio aniversário num bar na Usina. Era a noite de 9 de novembro de 1972.

CAJUÍNA

No Carnaval de Salvador, reencontrou Caetano Veloso e Gilberto Gil, recém-chegados do exílio em Londres. Ele e Ana apareceram na casa de Caetano e Dedé. Torquato percorreu as ruas do centro para conferir a Caetanave, trio em homenagem ao compositor baiano. Celebraria a folia em sua coluna na “Última Hora”: “Quem não foi perdeu. E não está com nada, por enquanto”. Gil viajava ao Rio com mais frequência e ainda reviu o parceiro. Caetano, que se despediu de Torquato no Carnaval, comporia “Cajuína” em 1979, impactado pela visita a Heli, o pai do amigo, em Teresina: “Existirmos: a que será que se destina?”.

Deste Carnaval restou uma cena definitiva para a atriz Helena Ignez. “Louca de paixão” pelo cineasta Rogério Sganzerla, apoiado pelo poeta na artilharia contra o cinema novo, ela não via nada à sua frente. Guardou a lembrança de “encontros demolidores”. O mais claro: Torquato atrás de um trio elétrico, espremido pela multidão da Praça Castro Alves.

Ao poeta e tradutor Duda Machado, seu amigo desde 1961, na Bahia, revelou um projeto novo, pouco antes de morrer: um livro de poemas.

Nas Dunas do Barato, em Ipanema, o poeta Jorge Salomão dividia a areia com seu irmão, Waly, e com Torquato. Antes da estreia do show “Luiz Gonzaga Volta para Curtir”, dirigido por Jorge, Torquato dava pulos de alegria com o Rei do Baião. No Café Lamas, perto do fim, parecia ter uma chama intensa e enigmática. Mas divertia-se. Na manhã de 10 de novembro de 1972, um telefonema acordou Jorge em seu quarto no Vidigal. Aos 28 anos, o chapa Torquato se suicidara na madrugada, abrindo o gás do aquecedor do chuveiro.

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