Meireles (com Temer): carta jogada às pressas para 2018…


…Piaçabuço(AL), onde o São Francisco é mais salgada:seca e abandono.

ARTIGO DA SEMANA

O El Pais e o Rio São Francisco: de sorrir e de chorar

Vitor Hugo Soares

Na batida de novembro, do primeiro grande ensaio marqueteiro de longo alcance gestado no Palácio do Planalto da era PMDB, para assustar adversários e injetar novo ânimo na combalida e desidratada proposta de reforma da Previdência – à medida que 2018 se aproxima -, o soturno ocupante do Jaburu, Michel Temer, tentou produzir lance de efeito para as arquibancadas e quase se esborracha. Fez Isso ao praticamente jogar a toalha no embate crucial de seu governo, já sem apoio da sociedade de há muito, e que agora perde força parlamentar: ampliou desconfianças no meio empresarial, derrubou a Bovespa, aumentou ruídos e desconfortos em seu ministério e no Congresso, e precisou tirar do bolso do colete, antes da hora, o nome do ministro da Fazenda, Henrique Meireles como postulante do campo oficial a presidência na eleição a caminho, para acalmar os ânimos e jogar panos quentes no bafafá que se formava.

Comova-se, compre a pule e acredite quem quiser. Mas o que eu quero é lhe dizer que no meio disso tudo, foi o jornal espanhol EL Pais, em duas reportagens de conteúdos diferentes, que arrancou lágrima e fez sorrir o rodado jornalista “que vem de longe” (com o pedido póstumo de permissão a Leonel Brizola pelo uso da expressão que ele cunhou e citou tantas vezes no curso de sua larga trajetória pessoal, administrativa e de frasista político de primeira linha).

Seja como for, mesmo que o autor não consiga explicar a contento, aos fanáticos da objetividade jornalística, essas aparentemente despropositadas derivações de seu pensamento, o fato é que o enfoque principal deste artigo é o jornal de Madri. Mais propriamente, as emoções deste ex – profissional do JB (o emblemático jornal carioca de dimensão nacional e peso internacional que manteve, durante décadas, muita semelhança e identidade no jeito de pensar e fazer jornalismo do espanhol El Pais) – na leitura de duas matérias editadas esta semana. Ao contrário do desafortunado diário carioca, o madrilenho parece flutuar em céu de brigadeiro em meio ao espaço de crise e de ameaçadoras zonas de turbulência enfrentadas pelas empresas jornalística em geral, e a chamada mídia impressa em particular, no Brasil e no resto do mundo. Por seus profissionais também.

Começo, portanto, com a informação que me levou ao grande contentamento: o diário mais lido em espanhol no planeta, alcançou em outubro passado, a marca extraordinária dos 100 milhões de leitores mensais. Esse é o número de usuários únicos que o El Pais conquistou, registra a notícia em sua abertura. Para quem gosta de dados exatos, são 100,3 milhões, o recorde absoluto marcado pelo jornal no mês passado, de acordo com registros internos. Do total, metade dos usuários na Internet vêm de fora da Espanha, principalmente da América Latina

“Com esse dado o EL PAIS entra no top 10 mundial dos veículos de comunicação mais lidos do mundo na Internet, liderados pelo chinês Xinhua e no qual estão o The New York Times (2º) e o The Washington Post (6º)”, assinala a reportagem, com mais que justificado orgulho. E explica, para quem quiser seguir o exemplo de sucesso: “No espaço de três anos, o EL PAIS triplicou sua audiência digital, conquistando a liderança informativa na Espanha. Realizou esse feito após uma profunda transformação que o consolida como líder mundial de referência da informação em idioma espanhol. Infográficos, programas de televisão e uma grande oferta de artigos de opinião e análises”. Opinião e análises, sim se nhor, é bom prestar atenção a este detalhe, porque isso torna o feito ainda mais gratificante e extraordinário, além de desmentir e demolir montanhas de mistificações que andam rolando por aí , nas redes sociais e na cabeça e boca de muita gente nestes dias temerários da nossa imprensa.

E mais um dado da informação, que fala bem de perto ao Brasil neste cenário da conquista do grande diário espanhol: o destacável progresso da edição brasileira do El Pais. “Prestes a completar quatro anos de existência no próximo dia 26, a versão em português se transformou numa referência jornalística no Brasil. Segundo os últimos dados oferecidos pela ComScore, o El Pais Brasil somou, somente pelo indicador de audiência digital ComScore, 6,5 milhões de leitores no mês de setembro, um crescimento de 24% em relação a maio deste ano, e de 72% em comparação com setembro do ano passado. O número de páginas visitadas chegou a 23 milhões em setembro, uma alta de 22% em relação ao ano passado. A e dição brasileira está entre os seis jornais mais lidos do Brasil”, destaca a reportagem. Vibro com a notícia. Hollá!

Vem das páginas da edição brasileira deste jornal, igualmente, a emoção que causa indignação e arranca lágrimas que não posso atribuir apenas à bruta crise de conjuntivite que me pegou de surpresa neste começo de novembro cheio de vírus rondando no ar. Refiro-me à reportagem assinada por Marina Rossi, enviada a Alagoas para ver de perto e denunciar em Piaçabuçu, na foz do Rio São Francisco, mais um lance dolorosamente dramático do rio da minha aldeia, que segue perdendo, a olhos vistos, a batalha para evitar o definhamento que ameaça levá-lo à morte definitiva. O texto mostra como a doçura da água do Velho Chico vai virando sal. O drama da seca atual, do abandono, da má gestão dos recursos hídrico s – somados à perversa exploração empresarial e corrupção que, ao lado do cinismo, grassa na política e na administração pública – salga ao invés de adoçar o café de cada dia e adoece moradores de cidades ribeirinhas de Alagoas. “A água do mar avança, cada vez com mais força, leito adentro do rio, resultando no fenômeno da salinização”, aponta a reportagem. Mais uma desgraça que parece irreversível, entre tantas que estiolam o rio, em cuja margem nasci na ribeira baiana, e cujo som da correnteza, passando quase no quintal de casa, guardo até hoje como primeira e mais forte impressão da vida. Paro por aqui e recomendo a leitura completa da reportagem.

Antes do ponto final, quando o cinismo político ensaia jogar mais uma vez a questão do São Francisco na agenda de nova campanha eleitoral, registro: Anivaldo Miranda, do Comitê da Bacia do São Francisco, avisa na reportagem que, mais do que uma questão climática, existe também um problema administrativo. “É uma questão de crise de gestão e não só uma questão hídrica”, afirma. “Todo mundo fala do clima, mas isso já estava previsto. Estão fazendo a farra da água em muitos pontos da bacia e isso se reverte na vazão do São Francisco”, enfatiza.

Está feito o alerta, mais uma vez, antes do salve – se quem puder. Parabéns El Pais.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

Lucia Jacobina on 11 novembro, 2017 at 15:56 #

Caro Vitor,
Machado é celebrado como o escritor que escreve nas entrelinhas. Observo que você frequentemente se utiliza dessa técnica/tática de estilo que considero privilegiada.
Entre as inúmeras questões que nos afligem atualmente, a água aparece como uma das mais importantes delas e sobre esse assunto você vem insistentemente enfocando em seus escritos. Coincidentemente nesta semana, assistimos no noticiário televisivo a denúncia de uma invasão a uma fazenda por populares que protestavam contra o uso de água e acredito que o desenrolar dessa investigação deve interessar a todos que se preocupam com o tema.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: