nov
07


DO EL PAÍS

Afonso Benites
Brasília

Três pilhas de papéis em sua frente, uma lupa sobre a mesa para ler trechos desses documentos e uma língua afiada para responder a qualquer acusação contra si mesmo ou contra o presidente Michel Temer (PMDB). Assim se mostrou o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) durante a audiência na 10ª vara federal de Brasília em um dos processos judiciais a que ele responde, nesta segunda-feira. Longe do foco político e midiático que o elevou a um dos principais cargos do país, ficou claro que o peemedebista aproveitou seus quase 13 meses de prisão para preparar sua autodefesa.

Acusado de desviar recursos do banco estatal Caixa Econômica Federal, o peemedebista passou quase sete horas sendo interrogado sobre o assunto e aproveitou os holofotes de duas dezenas de veículos de comunicação para afirmar que, não recebeu dinheiro da JBS para se manter calado e que essa tese apresentada pelo empresário Joesley Batista tinha como objetivo derrubar Temer da presidência. É o mesmo argumento usado pela defesa do presidente. “Não existe essa história de dizer que eu estou em silêncio ou que eu vendi o meu silêncio para não delatar. Atribuo isso para justificar uma denúncia que pegasse o mandato de Michel Temer. Essa é que é a verdade. Deram uma forjada e o Joesley [Batista] foi cúmplice”, afirmou.

Além de negar qualquer crime de que é acusado, Cunha, que tentou fazer delação e até agora não conseguiu, usou uma clara estratégia de tentar abalar a credibilidade do delator Lúcio Funaro, um doleiro que confessou ser o operador de propinas do PMDB e se tonou um de seus principais acusadores. “A delação que ele faz agora está me transformando no posto Ipiranga. Tudo é Eduardo Cunha”, afirmou em tom irônico ao se referir à propaganda da rede de posto de combustíveis. O ex-deputado negou que tenha recebido 1 milhão de reais de propina de Funaro ou que tenha intermediado o pagamento de 1,5 milhão de reais para Temer, como acusa o doleiro. Aproveitou também para criticar sutilmente um de seus adversários políticos do PMDB do Rio, o ministro da Secretaria-Geral, Wellington Moreira Franco. “Se Moreira Franco recebeu, e se tratando do Moreira Franco até não duvido, não foi através das minhas mãos”.

Cunha, que já foi condenado a 15 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro, ainda chamou Funaro de maluco, o desafiou a provar suas acusações, afirmou que ele mentiu em diversas ocasiões, disse que o doleiro omite parte de seus recursos obtidos de forma ilícita em instituições financeiras da China e o acusou de esconder obras de arte e joias na véspera de ter um de seus imóveis vasculhados pela Polícia Federal. “Ele não tem limites com a covardia”, disse.

Funaro é apontado pelo Ministério Público Federal como o operador das propinas do PMDB. Apesar disso, Cunha diz que ele era um “nada” dentro do partido e que não tinha a capacidade de influenciar os outros políticos. “Todo mundo que ele conhece fui eu quem apresentei [...] Se ele [Funaro] se coloca como operador do PMDB, onde estão os outros deputados?”, indagou Cunha. Até agora, apenas o ex-deputado foi apontado como o receptor de recursos ilícitos do Fundo de Investimentos do FGTS.

Apesar das críticas ao delator, Cunha admitiu que ganhou “muito dinheiro” com ele, principalmente entre os anos de 2003 e 2006, quando operaram juntos na Bolsa de Valores. Esse relacionamento foi interrompido por quatro anos e retomado após 2010. O ex-parlamentar também confessou que conversavam quase todas as semanas com Funaro. Afirmou também que em cinco ou seis ocasiões usou um avião particular do doleiro e outros da JBS e da Bertin para participar de encontros políticos. Um deles, em Assunção, durante uma reunião com o presidente do Paraguai, Horário Cartes. Questionado se, como uma autoridade pública, ele achava correto esse expediente, disse que não via nada de errado. O único momento em que Cunha se calou foi quando o advogado de Funaro, Bruno Espiñera, fez suas dezenas de perguntas.

Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: