Olivia e Francis Hime no dia de seu casamento, em 1969 com o padrinho Dori Caymmi (de bigode)

DA FOLHA DE S. PAULO/UOL

FRANCIS HIME

“Porque o samba nasceu lá na Bahia,/e se hoje ele é branco na poesia,/ele é negro demais no coração”. Estes versos de Vinicius de Moraes talvez sejam os que mais me transportam para ares baianos, provocando em mim uma sensação de ligação com a “boa terra”.

O amor pela Bahia vem de longe, passando por tantos de seus personagens, a começar por Dorival Caymmi —de quem, desde criança, ouvia aquela bolacha maravilhosa de suas canções praieiras, só voz e violão. Melodias primorosas, de uma beleza realçada pela simplicidade tão comovente. E aquela voz que nos levava para um mundo de sonhos.

Reencontrei a música de Caymmi quando, anos mais tarde, minha mulher, Olivia, gravou o disco “Mar de Algodão” (uma referência à vasta cabeleira branca de Dorival), formado de três suítes sinfônicas sobre aquelas canções que tanto me tomavam. Emocionou-me muito quando li, em um songbook meu, um depoimento de Stella, mulher de Dorival:

“Francis nem sabe disso, mas ele marcou a minha vida e a de Dorival. Foi dia 30 de abril de 1965, no show no Beco das Garrafas [no Rio]. Fui assistir ao meu filho Dori e lá o encontrei fazendo parceria com Francis. Dorival estava em Los Angeles, e era nosso aniversário de casamento. Quando ele cantou ‘Minha’, fui inundada de amor. Ele nem sabe disso, mas adotei-o como filho, desde esse dia”.

Na verdade, quem cantava a música, minha com letra de Ruy Guerra, era Dori, meu querido amigo e padrinho de casamento. Stella se refere ao primeiro show que fiz em minha carreira artística, nós dois cantando e tocando músicas nossas e de outros colegas, no templo da bossa nova.

Eu seguiria cruzando com outros baianos nas minhas andanças musicais. Como na ocasião em que fiz a direção do show “Pois É”, que reunia Vinicius de Moraes, Maria Bethânia e Gilberto Gil.

Gil tinha aqueles sambas sensacionais da fase pré-tropicalista: “Roda”, “Louvação”, “Ensaio Geral”. E Vinicius, maravilhado, dizia: “Pessoal, tem que prender este baiano, que ele é bom demais!”. De quebra, Gil ainda cantava um samba meu e do poetinha, “Tereza Sabe Sambar”, com ginga e balanço tão envolventes que parecia música dele mesmo.

Nesta época, fiquei muito próximo de Caetano Veloso, para quem já havia feito três arranjos no seu antológico disco “Domingo”, com outra baiana, Gal Costa, que na época ainda se chamava Gracinha.

Eram tempos que prenunciavam o movimento tropicalista, que surpreenderia o mundo musical e às vezes sofria rejeição de músicos mais tradicionais. Eu, apesar de ser de certa maneira “cria” da bossa nova, achava que a diversidade musical era bem-vinda e sentia —como hoje— que esta pluralidade é o nosso maior tesouro.

Certa noite, fui assistir ao show que Caetano fazia na Sucata, uma casa noturna no Rio, onde ele apresentava muitas de suas composições na nova linha tropicalista.

Gostei muito do espetáculo e, ao final, fui ao camarim para parabenizá-lo. Ao me avistar, Caetano foi logo dizendo: “Que bom que você veio nos ver, até agora foi o único músico que apareceu por aqui”.

Algum tempo depois, Olivia e eu fomos passar nossa lua de mel em Salvador. Não gostávamos muito de avião (Tom Jobim dizia que o problema do avião é que a oficina fica lá embaixo). Assim, pegamos um navio que ia até Manaus e saltamos na capital baiana.

Lá, nossos cicerones eram Caetano e Dedé (com quem ele era casado), que nos levaram para conhecer os belos recantos daquela adorável metrópole. Carregaram-nos para comer um maravilhoso efó, que dona Canô, sua mãe, preparou em nossa homenagem.

Há pouco tempo, participei das comemorações do centenário dela, em Santo Amaro da Purificação. Olivia e eu fomos cumprimentá-la. Ao seu lado, Maria Bethânia indicava quem eram as pessoas que vinham lhe saudar.

Quando chegou a nossa vez, ela disse a dona Canô: “Estes aqui são Olivia e Francis Hime, para quem a senhora fez um grande almoço quando vieram para cá em 1969″.

Ela respondeu: “Claro, minha filha, imagine você se eu não me lembro que preparei um efó especialmente para eles, abençoando o casamento”. A bênção funcionou, pois até hoje estamos juntinhos, caminhando pela vida afora.

São estas algumas lembranças que tenho da Bahia, e assim como comecei estas divagações com aqueles versos de Vinicius, arremato agora com um poeminha dele, “O Pique”, feito para o mictório do bar de Gesse (sua sétima mulher), com quem morou em Itapuã. Encontrei o manuscrito assinado por ele num velho baú de partituras e bilhetes. Diz assim:

No mundo vale ter pique
É da vida o que nos fica
Mas não há nada que fique
Sem o pique de uma pica

FRANCIS HIME, 78, é compositor, pianista e cantor. Lança o livro “Trocando em Miúdos as Minhas Canções” (Terceiro Nome), sobre seu processo de criação.

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