DO EL PAÍS

Opinião

O camaleão que corre por fora

Marcello Faulhaber

Em outubro do próximo ano, os brasileiros irão às urnas eleger um novo presidente da República.

Assim como outros analistas e estrategistas político-eleitorais, venho fazendo pesquisas e acompanhando de perto a movimentação dos potenciais candidatos – tenham eles declarado oficialmente a intenção de concorrer ou não.

Nas últimas semanas, o potencial candidato que mais se movimentou foi o apresentador Luciano Huck: ele participou da criação de um fundo que objetiva melhorar a qualidade dos nossos representantes no poder legislativo; declarou que é hora de sua geração passar a comandar o país; conversou, a portas fechadas, com pelo menos, três partidos políticos; e publicou um artigo no jornal de maior circulação do país, reafirmando seu compromisso com a renovação política no Brasil.

Tudo isso demonstra que Huck é candidatíssimo. De acordo com as pesquisas qualitativas que tenho feito em vários municípios do país e com o modelo de projeções de resultados eleitorais que eu adoto (que cruza variáveis como nível de conhecimento, rejeição e intenção de voto dos diversos candidatos) ele, assim como Lula, Jair Bolsonaro e Joaquim Barbosa, já tem o dobro de chances de ir para o segundo turno se comparados com Marina Silva, Geraldo Alckmin, João Doria e Ciro Gomes.

Se Lula, realmente, não conseguir ser candidato; João Doria se ver obrigado a recuar do seu sonho presidencial; e Joaquim Barbosa decidir não disputar as eleições como cabeça de chapa, ouso afirmar, com doze meses de antecedência, que Luciano Huck, inevitavelmente, será um dos dois nomes do segundo turno das eleições. Mais que isso: poderá até ganhar a corrida presidencial já no primeiro turno, especialmente se conseguir fazer de Joaquim Barbosa, o seu vice.

Para compreendermos o porquê disto, é preciso, em primeiro lugar, entender como o eleitorado brasileiro está segmentado.

A maior parte dos analistas, tende a segmentar o eleitorado brasileiro a partir de uma percepção unidimensional do eleitor. Com esse tipo de percepção, divide-se o eleitorado em esquerda e direita, ou, na melhor das hipóteses, em esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita e direita.

Nos polos desse tipo de segmentação, situam-se “entidades míticas” que habitam o inconsciente coletivo da classe média e que coincidem com os posicionamentos das tradicionais elites políticas do país: A “esquerda” – defensora do Estado grande e de valores comportamentais liberais; e a “direita” – defensora do Estado pequeno e de valores comportamentais conservadores.

Esse tipo de segmentação funciona muito bem em alguns países desenvolvidos, mas não no Brasil. De fato, em território tupiniquim, existe um problema grave nesse tipo de segmentação: a suposta correlação entre os valores comportamentais do eleitor e a sua visão a respeito do papel do Estado.

No Brasil, esse tipo de correlação é absolutamente falsa – mesmo no ambiente polarizado das redes sociais que tende a reduzir as pessoas a “coxinhas” e “mortadelas”. Não é verdade, especialmente entre eleitores das classes C2, D e E, que quanto mais conservador (do ponto de vista comportamental) for um eleitor, maior a sua preferência por um Estado pequeno; ou que, quanto maior a preferência de um eleitor por um Estado grande, mais liberais serão seus valores do ponto de vista comportamental.

Na realidade, o eleitor brasileiro, mesmo sem se dar conta, faz suas escolhas políticas, primordialmente, de acordo com essas duas variáveis não-correlacionadas: seus valores comportamentais e a sua visão a respeito do papel do estado. Em 2018, esse fenômeno será mais forte do que nunca.

Dessa forma, para segmentar corretamente o eleitorado brasileiro, precisamos percebe-lo a partir de dois grandes eixos: o “eixo valores” e o “eixo visão do Estado”.

O “eixo valores” tem a ver com a opinião dos eleitores a respeito de assuntos como homossexualidade, religião, drogas, aborto e formas de combate à violência, entre outros. Os elementos causais mais críticos que definem o posicionamento do eleitor em relação a esses diversos temas são sua percepção sobre a família (o que é e como preservá-la) e sua defesa dos valores cristãos mais tradicionais. A forte correlação que existe no posicionamento dos eleitores em relação a esses diversos temas comportamentais, nos permite estabelecer dois polos no “eixo valores” e aqui – já consciente das críticas que virão de alguns teóricos – usarei a nomenclatura “liberais” e “conservadores”.

O “eixo visão do Estado” tem a ver com a opinião do eleitor a respeito do papel do Estado na provisão de renda (por meio de transferências) e de serviços para a população, além do quanto ele deve intervir na economia, seja como indutor do crescimento, seja como regulador. As duas variáveis mais críticas na definição do posicionamento do eleitor nesse eixo são a sua formação política na juventude e principalmente, o seu nível de renda. Há também uma forte correlação nas preferências do eleitor em relação aos temas deste eixo. Chamarei o primeiro polo do “eixo visão” de “Estado grande” e o segundo, de “Estado pequeno”.

A partir desses dois eixos, podemos segmentar o eleitorado brasileiro em quatro grandes grupos: 1) eleitores com valores conservadores que preferem (ou precisam de) um Estado grande; 2) eleitores com valores liberais que preferem (ou precisam de) um Estado grande; 3) eleitores com valores conservadores que preferem um Estado pequeno; 4) eleitores com valores liberais que preferem um Estado pequeno.

Como já me referi anteriormente, nossas elites políticas se dividem entre os “liberais do Estado grande” (“a esquerda”) e os “conservadores do Estado pequeno” (“a direita”). Já as maiores fortunas e as lideranças dos principais grupos empresariais do país (o establishment) que, em larga medida, tem forte influência sobre a mídia, identificam-se com valores liberais e preferem um Estado pequeno (com exceção da conta de juros, evidentemente).

A última pesquisa que realizei, indica os seguintes percentuais para cada um desses segmentos do eleitorado: 55% para os “conservadores do Estado grande”, 23% para os “liberais do Estado grande”, 16% para os “conservadores do Estado pequeno” e apenas, 6% para os “liberais do Estado pequeno”.

Esses percentuais nos demonstram o porquê da maioria da população se sentir tão pouco representada, seja por nossas elites políticas, seja pelos mais importantes veículos de comunicação do país.

A única candidatura que provavelmente adotará uma narrativa coincidente com um segmento específico será a do PSOL: seu discurso será liberal do ponto de vista comportamental e em defesa do “estado grande”.

Lula (apesar do PT), Bolsonaro, Doria, Alckmin e Ciro são candidatos que se posicionam exclusivamente em um polo de um eixo específico e são difusos no outro eixo: Lula e Ciro são os champions do “Estado grande”; Bolsonaro e Alckmin são os champions dos valores comportamentais conservadores; e Doria é o champion do “Estado pequeno” – não por acaso até muito recentemente, era o mais querido do mercado financeiro.

Huck, Marina e Joaquim Barbosa são candidatos “camaleônicos”: conseguem expressar imagens e discursos variados dependendo do público. Eles podem, por exemplo, ser percebidos por eleitores das classes C2, D e E como “conservadores do Estado grande” e simultaneamente, serem percebidos como “liberais do Estado pequeno” pelos eleitores das classes A, B e C1.

No mundo de hoje, a figura que mais classicamente, encarna esse tipo de posicionamento, é a chanceler alemã Angela Merkel: a líder que há mais tempo comanda um país democrático no mundo.

Num primeiro olhar, esse tipo de posicionamento pode parecer infalível, mas não é bem assim.

No segundo turno das eleições, ela é bem próxima da invencibilidade, mas, no primeiro turno, ela pode ser bastante arriscada, especialmente num momento de forte polarização política como é o caso do Brasil atual.

De fato, a fluidez nos posicionamentos pode se tornar alvo fácil dos adversários no primeiro turno – candidatos camaleônicos podem acabar ficando marcados por uma imagem de indecisão, incoerência e ambiguidade. Por isso, esse tipo de posicionamento demanda cuidados extras na comunicação política: a imagem pode sim ser camaleônica, mas o discurso jamais.

Além da correta segmentação do eleitorado e do posicionamento dos principais candidatos dentro dela, há uma terceira variável que será determinante na projeção do resultado da eleição presidencial de 2018: a habilidade dos candidatos se comunicarem com os eleitores das classes C2, D e E (que juntos, equivalem a 55% do eleitorado brasileiro).

Apesar da eventual multiplicidade de candidatos e da possível pulverização dos votos, aqueles candidatos que não conseguirem se fazer ouvir pelos eleitores mais pobres, fatalmente ficarão fora do segundo turno.

E aí, é preciso distinguir a imagem do candidato da capacidade dele se fazer ouvir. A imagem, de fato, potencializa a capacidade de se fazer ouvir. Mas, a imagem sem a capacidade de se fazer ouvir, torna-se inócua.

Dentre os diversos candidatos, os únicos que podem desenvolver de forma crível uma imagem de quem conhece os problemas dos mais pobres, que se solidariza com eles e que trabalhará prioritariamente por eles, são: Lula, Marina, Luciano Huck, Joaquim Barbosa e Geraldo Alckmin (apenas em São Paulo).

Por outro lado, os únicos que tem demonstrado capacidade retórica de serem ouvidos pelos mais pobres são: Lula, Bolsonaro e Luciano Huck – Marina se perdeu na complexidade dos próprios pensamentos “progressistas”; Joaquim Barbosa, depois de tantos anos de atividade jurídica, trocou a linguagem popular pela retórica da lei e terá dificuldades de fazer a viagem reversa; Ciro tem a capacidade de ser ouvido pelas massas, mas, há muito tempo, optou pela retórica tecnocrática a qual ele domina melhor que qualquer outro pleiteante ao maior cargo da república.

Sendo assim, por conta das características dos eleitores mais pobres, os candidatos que podem mais se beneficiar da eventual ausência de Lula das eleições são o apresentador Luciano Huck e por incrível que pareça (mas, em menor escala), Jair Bolsonaro – afinal, não há nada mais próximo de um extremo do que o outro extremo, especialmente num momento de grave crise econômica e de convulsão social.

É verdade que Ciro e Marina poderiam ser os herdeiros naturais dos eleitores de Lula, mas os problemas na retórica e na linguagem de ambos assim como suas críticas periódicas ao ex-presidente, tornam essa possibilidade cada vez mais remota.

Quanto à possibilidade dos votos de Lula serem herdados por um “poste” do PT, esqueçam. É verdade que preso ou condenado, Lula se tornará o maior eleitor do país, mas ele conseguir levar um representante orgânico do PT para o segundo turno é algo muito improvável por conta da enorme rejeição ao partido – muito maior que a dele próprio. Se, como se vem falando, esse nome for o do Haddad – um “poste” derrotado e paulista – o que já era improvável, tornar-se-á impossível.

Em resumo, todos os caminhos hoje, indicam que se Lula não conseguir ser candidato, o segundo turno será disputado entre Luciano Huck e Jair Bolsonaro.

Mas, o caminho é longo e erros fatais poderão ser cometidos.

No caso de Bolsonaro, há três erros possíveis no horizonte: 1) Ele adotar um discurso liberal na economia – Bolsonaro não pode perder a imagem do militar nacionalista, defensor do estado forte, que induz o crescimento econômico e que protegerá a população da ganância de grandes grupos empresariais; 2) Ele não suavizar um pouco sua retórica conservadora – ele precisa fazer isso para evitar o crescimento da candidatura Alckmin (ou Doria) e principalmente, para ter alguma chance de vitória no segundo turno; 3) Ele permitir que uma outra candidatura do seu campo, como, por exemplo, a do General Hamilton Mourão, ganhe força nos próximos meses.

No caso de Luciano Huck, há também três erros que podem inviabilizar o sucesso de sua jornada rumo ao Palácio do Planalto: 1) Ele ser identificado pelos eleitores, especialmente os mais pobres e a classe média, como o candidato dos ricos, do establishment, da Globo. Afinal, a revolta da população com os principais veículos de comunicação do país é tão grande quanto sua revolta com nossas elites políticas – não adianta surgir como um não-político e ao mesmo tempo, ser percebido como o candidato do grande baronato do crony capitalism brasileiro; 2) Ele cair na armadilha, assim como Aécio fez em 2014, de bater em Lula. Aécio, incensado pelo establishment nacional e pelo tucanato paulista, não concentrou suas baterias sobre a presidente Dilma e seu governo, mas sobre Lula e o PT. Esse erro foi fatal na medida em que permitiu que os estrategistas do PT, levassem o debate para a comparação dos 12 anos do PT com os 8 anos de FHC. Foi essa estratégia equivocada de pregar para os convertidos que, em última análise, fez Aécio perder uma eleição que estava ganha. O fato é que milhões de brasileiros continuam extremamente gratos ao ex-presidente pela melhora histórica de suas condições de vida na década passada e o tempo tem nos mostrado que não há acusação, denúncia ou condenação capaz de mudar esse sentimento; 3) Ele não saber usar corretamente a estratégia do camaleão. No fundo, para ganhar essa eleição e fazer um governo histórico, será preciso que Luciano Huck seja mais coração e menos razão, que se guie mais por seus valores de homem de família que quer melhorar a vida das pessoas do que pela ideologia que há em sua cabeça.

O tempo vem consolidando Lula e Bolsonaro, duas reconhecidas figuras anti-establishment, como favoritos para o segundo turno das eleições.

O não-político que parecia poder ameaça-los segundo “analistas torcedores” do mercado financeiro, tornou-se mais político que todos os outros: colocou seu mandato recém conquistado em segundo plano para fazer campanha, passando por cima até mesmo de quem lhe criou politicamente – sua candidatura não tem futuro.

Mas, agora, surge um não-político de verdade, correndo por fora e com chances reais de complicar a vida de Lula e Bolsonaro: o “camaleão” Luciano Huck.

Em maio deste ano, eu escrevi neste jornal que a eleição presidencial de 2018, da mesma forma como ocorreu nas principais capitais do país em 2016, seria ganha por um outsider: um não-político ou uma figura anti-establishment.

A cada dia que passa, essa certeza só aumenta.

Quem viver, verá.

Marcello Faulhaber é mestre (MSc.) em Economia Política pela London School of Economics e foi o estrategista da campanha de Marcelo Crivella à Prefeitura do Rio em 2016.

Comentários

Vanderlei on 5 novembro, 2017 at 14:44 #

Huck, nem com muita forca chegara la. Digo ao planalto.


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