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Postado em 03-11-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 03-11-2017 00:25


Judith Butler (à esq.) e Clara, personagem vivido por Bianca Bin na novela ‘O Outro Lado do Paraíso’. Divulgação / R. Cunha / Globo

DO EL PAÍS

Marina Rossi

A violência contra a mulher virou pauta no horário nobre da televisão brasileira. Estreou na semana passada O Outro Lado do Paraíso, a nova novela das 21h da rede Globo, cujo enredo aborda, na principal emissora do Brasil, a violência doméstica. A protagonista da trama, Clara (Bianca Bin), sofre agressões do marido, Gael (Sérgio Guizé), pressionado pela mãe, vivida por Marieta Severo, que quer sua autorização para explorar esmeraldas nas terras da família. A mãe faz vista grossa para as investidas do filho agressor. Junto a isso, a área de responsabilidade social da emissora gravou os depoimentos de dez mulheres sobre o tema para veicular na internet e dar mais visibilidade ao assunto. Vem mais por aí na novela. A violência contra mulheres caiu de vez para dentro do folhetim televisivo que alcança os mais precários rincões do Brasil. Antes velado, o tema começou a entrar na casa de milhões de brasileiros. Na última segunda-feira, só na grande São Paulo, quase 2,5 milhões de televisores estavam ligados na trama, segundo números do Ibope.

Em abril deste ano, esta mesma emissora foi alvo de uma campanha contra o assédio sexual a partir da denúncia de um caso que ocorreu ali nos bastidores, quando a figurinista Susllem Tonani denunciou, em carta aberta, uma das grandes estrelas da casa, o ator José Mayer, por um desbocado assédio. “Você nunca vai dar pra mim?”, ouviu a figurinista, que também teve as partes íntimas tocadas por Mayer, conforme relato divulgado em um carta publicada no jornal Folha de São Paulo. A Globo rebolou para lidar com o assunto. Mayer, por exemplo, está na geladeira. Mas a emissora precisou encarar ca reação da própria equipe de funcionárias, que assumiram uma onda de solidariedade feminina, sob o lema Mexeu com uma, mexeu com todas. A ficha da rede Globo parece ter caído. Não dá mais para acreditar no silêncio feminino diante de casos como esses.

Essa catarse brasileira também está sendo vivida nos Estados Unidos, em grandes proporções. Em menos de um mês, um inferno baixou em Hollywood. Ali, as mulheres estão destapando os bueiros e denunciando casos de assédio por parte do produtor norte-americano Harvey Weinstein. Kevin Spacey e Dustin Hoffmann também estão sendo acusados pelo mesmo crime. Isso sem falar no diretor James Toback, acusado de assédio sexual por nada menos que 38 mulheres. Com tantos casos pipocando no mundo da fama, foi criada a campanha global #MeToo, para encorajar mulheres a relatarem suas experiências como vítimas de assédio sexual. A publicidade está tendo que repensar seu papel. A Feira Literária Internacional de Parati (Flip) deste ano se posicionou e incluiu mais mulheres que homens na sua programação pela primeira vez em 15 anos. Nos Estados Unidos, foram as mulheres que saíram as ruas para protestar contra o presidente Donald Trump, no início de 2017. Se em 2015, a primavera feminista levou milhares de mulheres brasileiras às ruas para dizer basta aos retrocessos que se personificavam na figura do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, neste ano o inverno feminista dizia não a Trump nos Estados Unidos.

Mas este despertar feminista não é tão simples quanto parece. Ao mesmo tempo em que ele avança neste século XXI, vive uma opressão mais ostensiva, num movimento de ação e reação. Ao mesmo tempo em que tenta avançar na conquista de direitos, luta diariamente para não perder terreno naquilo que já foi conquistado. No ano passado, quando a celebrada Lei Maria da Penha completava dez anos desde que entrou em vigor, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no Brasil, resultando na morte de 4.657 mulheres. Desses casos, porém, somente 533 foram classificados como feminicídios – quando o crime é cometido contra a mulher por razões da condição do sexo feminino – de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta semana. Além das mortes, foram registrados quase 50.000 casos de estupros em todo o país, 4% a mais que em 2015.

O que os números não mostram é que, por trás deles, está a naturalização de certos comportamentos cerceadores, como o medo de entrar sozinha em um táxi ou de usar um aplicativo de carona. Em agosto deste ano, a escritora Clara Averbuk foi estuprada, voltando para sua casa, pelo motorista da Uber. Na época, a companhia repudiou o ocorrido. Já ela, escreveu uma publicação em sua página no Facebook para incentivar que outras mulheres compartilhem seus relatos de assédio ou estupro sofridos em táxis ou carros de aplicativos de carona. Um homem não imagina que dentro de um táxi ele pode correr risco. Já uma mulher precisa pensar duas vezes antes de sair de casa sozinha.

Com o tema em voga, companhias correram para criar aplicativos ou programas atendidos somente por motoristas mulheres. Qualquer semelhança com o polêmico vagão rosa nos trens e metrôs não é mera coincidência. O transporte público e coletivo – onde poderia se deduzir que a presença de mais pessoas poderia inibir algum ato – também entra na conta de lugares com potencial risco para mulheres. Para ficar no caso mais recente, no início de setembro, um homem foi condenado a dois anos de prisão por ter tocado as partes íntimas de uma mulher dentro de um ônibus na avenida Paulista. A condenação ocorreu depois de ele ter praticado crimes contra as mulheres – incluindo ter ejaculado em algumas vítimas, sempre dentro de ônibus – pela 17ª vez. Só houve a detenção pelo protesto contínuo das mulheres para chamar a atenção sobre o assunto.

Ao mesmo tempo em que a violência de gênero está pautando novelas, estes registros não param de crescer. Ativistas feministas são perseguidas e ameaçadas. De morte, inclusive. Gabriela Manssur, promotora que atua no Ministério Público de São Paulo em defesa dos direitos das mulheres, diz que os casos de perseguições a mulheres estão aumentando. “Mas nunca foi feita esta estatística”, diz ela. “Tem uma ativista que está inclusive indo embora do país por causa da perseguição”.

Um dos casos mais emblemáticos é de Lola Aronovich, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autora do blog Escreva, Lola, escreva. Ela já sofreu diversas ameaças de morte e de estupro simplesmente por ser feminista. Em cinco anos, já registrou 11 boletins de ocorrência, o último, em abril deste ano.”As ameaças saem de uma quadrilha organizada”, diz ela. “Eles perseguem não só a mim, mas a minhas leitoras e até as minhas advogadas”, conta. No ano passado, Lola conta que o reitor da universidade onde ela trabalha recebeu um e-mail com uma ameaça: se não a exonerasse, haveria um atentado na UFC. “No texto diziam que ou ele despedia esta ‘porca imunda’, se referindo a mim, ou passaria uma semana recolhendo corpos de 300 cadáveres”, conta ela. A Polícia Federal entrou na jogada. Até o momento nada foi descoberto.
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Para Gabriela Manssur, apesar das tentativas de censura, o movimento feminista não tem volta. “As mulheres não estão mais aceitando a diminuição dos direitos por elas conquistados e que são fruto de uma luta feminista de muito tempo”, diz. Ela acredita, porém, que os movimentos retrógrados e o movimento feminista se retroalimentam. “Estamos vivendo sim uma onda de retrocesso em que há um conservadorismo muito grande, talvez até em resposta a esta autonomia que as mulheres conquistaram”. Lola Aronovich concorda. “Os ataques pioraram”, diz. “Depois da eleição de Trump e agora com a consolidação da candidatura de Bolsonaro, as coisas tendem a piorar ainda mais”.

Um exemplo de ação do conservadorismo é o movimento em torno da vinda de Judith Butler ao Brasil. A filósofa norte-americana é um dos símbolos do feminismo e da teoria queer, que expande os estudos sobre gênero e identidade sexual. Assim que sua vinda foi anunciada, para um evento que acontecerá no Sesc Pompeia nos dias 06 e 07 de novembro, foram criadas petições online pedindo o cancelamento do evento e o Sesc passou a sofrer ataques online por meio da sua página no Facebook. Os ingressos para o evento, porém, se esgotaram me menos de duas horas.
Sororidade x rivalidade

Para Gabriela Manssur, embora a luta feminista tenha avançado nos últimos anos em todo o mundo, ainda estamos atrasadas quando o assunto é sororidade. A palavra, nova para o vocabulário brasileiro, significa a união e o companheirismo entre mulheres, baseados na empatia. Segundo Manssur, é o ato de pegarem nas mãos umas das outras e brigarem, juntas, por novas conquistas. “A teoria é linda”, diz ela. “Mas na prática, não é bem assim”.

Ela explica que ainda existe um grande estereótipo que rotula mulheres como rivais, competitivas e perversas umas com as outras. A televisão, que no início deste texto fez o papel de mocinha, também é vilã quando veicula novelas em que mulheres disputam entre si – muitas vezes incluindo cenas de violência – um homem ou um cargo em um trabalho, por exemplo. “Sororidade significa a gente se unir e não julgar ou puxar o tapete uma da outra”, explica Manssur. “Precisamos romper os estereótipos. O feminismo avançou, mas a sororidade ainda não”.

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