CLAUDIO LEAL – COLABORAÇÃO PARA A FOLHA • 07/10/2017 – 02:00

Quarenta e cinco anos após sua morte, o poeta Torquato Neto (1944-1972) segue uma trajetória de mito resistente da contracultura brasileira.

Em Teresina (PI), terra natal, a edição de textos desconhecidos vem iluminando pontos obscuros da obra do tropicalista, também associado à poesia marginal.

Em 2012, a revisita ao seu acervo resultou no lançamento de duas coletâneas de poemas inéditos, “O Fato e a Coisa” e “Juvenílias” (UPJ Produções), por iniciativa do publicitário e professor George Mendes, 60, primo do piauiense e curador do arquivo.

Um terceiro livro de inéditos expõe seu ofício de letrista, principalmente na fase posterior às canções “Geleia Geral” e “Marginália 2″ (com Gilberto Gil), que contribuíram para definir o programa estético do tropicalismo.

Três cadernos espiralados alimentaram “Fragmentos Poéticos – A Palavra em Construção”, a sair pela UPJ, volume revelador da carpintaria de Torquato em letras como as de “Nenhuma Dor” (com Caetano Veloso), “Todo Dia é Dia D” (com Carlos Pinto), “Andarandei” (com Renato Piau) e “Três da Madrugada” (com Carlos Pinto).

Uma onda torquatiana reforça as homenagens piauienses. O documentário “Torquato Neto: Todas as Horas do Fim”, de Eduardo Ades e Marcus Fernando, estreia no Festival do Rio neste sábado. E o tropicalista será o homenageado da 12ª Balada Literária, em São Paulo, entre 8 e 12 de novembro.

Ainda neste ano, a editora Autêntica levará às livrarias uma antologia poética selecionada pelo poeta e ensaísta Italo Moriconi.

“Fragmentos Poéticos” será lançado na 12ª Balada Literária, que neste ano prepara atividades em Teresina, Salvador e São Paulo, onde se encerra com o documentário “Todas as Horas do Fim”.

O livro procura manter a ordem dos cadernos, que chegaram a ser consultados na pesquisa de “Os Últimos Dias de Paupéria”, a primeira reunião de escritos de Torquato, organizada em 1973 pelo poeta Waly Salomão (1943-2003).

“Não devo dizer que seja a gênese de sua poesia, até mesmo porque a parte mais lida, ouvida, conhecida é aquela que referencia os tempos da tropicália. Melhor seria dizer que demarca os tempos pós-tropicália”, diz o curador George Mendes.

Mas “certamente”, segue ele, “o conteúdo dos cadernos permite conhecer mais a fundo o processo criativo, o estica, puxa, recorta, recupera que ganhará forma final”. Há poemas ou letras que não foram levados adiante, “embora registrem uma intenção, um bom fio da meada”.

A viúva de Torquato, Ana Duarte, que morreu aos 72 em 2016, entregou o acervo a Mendes em janeiro de 2010.

“Ana, você sempre disse que tinha queimado tudo!”, surpreendeu-se o publicitário, ao aceitar a oferta de livros, roteiros, fotos, quadros, recortes de jornais, postais, alguns discos –e os cadernos. Com o gesto, ela fechava um “ciclo pesado”.

Entre os projetos futuros, a Casa Torquato Arte & Criação, para abrigar o acervo, e o disco “Torquato Neto / Inéditas / Entre Nós”, produzido a partir de 17 poemas musicados por artistas do Piauí.

Torquato enfrentou o alcoolismo e a depressão, sofreu quatro internações e cometeu suicídio em 1972.

No prefácio de “Fragmentos Poéticos”, o letrista Carlos Rennó atenta para “a difícil e atormentada condição psíquica e emocional do autor” nas passagens em que são visíveis “a sua delicada tristeza, a solidão básica de sua existência, uma situação autoconsciente –nem por isso autopiedosa– de abandono”.

Dedicado ao jornalista e pensador da contracultura Luiz Carlos Maciel, o inédito “A Tragédia do Viaduto” – provavelmente escrito em novembro de 1971, depois do desabamento do viaduto Paulo de Frontin, que deixou 29 mortos na Tijuca– é um “poema-processo” que o país não permitiu caducar.

“Ainda vai cair muita corrupção na cabeça das pessoas”, repete o texto, em seus cinco versos datilografados numa folha solta.

Numa fase severa da ditadura militar, o governo Médici, Torquato preservou a atenção para a política enquanto transitava pelo desbunde.

“Você não tem que me dizer/ O número do seu mundo/ Você não me engana/ Este país não me engana/ E o futuro é claro e fundo”, anotou em um dos cadernos.

“Nos escritos há uma espécie de inventário feito por ele de músicas em parceria. Algumas não foram gravadas, mas desenvolvidas com artistas conhecidos”, conta Mendes, referindo-se às colaborações com Caetano, Gil, Jards Macalé, Toquinho, Luiz Carlos Sá e Luiz Melodia.

Em vida, Torquato editou 34 letras, número esticado para 100 desde a sua morte, graças às pesquisas no acervo.

Enquanto “Juvenílias” revela 56 poemas inéditos (1961-63), boa parte remontando à juventude no Piauí e na Bahia, “O Fato e a Coisa” –concebido mas jamais publicado por Torquato– reúne 29 poemas escritos entre 1962 e 1964, alguns deles citados na biografia “Pra Mim Chega” (Nossa Cultura), de Toninho Vaz.

O tema da morte, visitado em fragmentos autobiográficos e letras, ressurge. “Como um derradeiro suicida de após bomba/ procuro aniquilar o inseto impossível/ que continuo sendo/ a zumbir sobre minha própria cabeça/ em mirabolantes circunvoltas”, escreveu em “A Crise”.

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