DO EL PAÍS

María Martín

Rio de Janeiro

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira uma operação que tem como alvos dois filhos e duas enteadas do líder do Governo no Senado e presidente nacional do PMDB, Romero Jucá. Nove mandados de busca e apreensão e sete de condução coercitiva buscam indícios para desvendar uma organização criminosa suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e desvio de dinheiro público.

As investigações apontam a um suposto desvio de 32 milhões de reais dos cofres públicos com a venda superfaturada da Fazenda Recreio, em Boa Vista, que foi comprada pela Caixa Econômica Federal em 2013. Segundo o diário O Globo, tanto o filho do peemedebista, o ex-deputado Rodrigo Holanda Jucá, como as duas ex-enteadas Ana Paula Surita Macedo e Luciana Surita Macedo, filhas da ex-mulher de Jucá e prefeita de Boa Vista, Teresa Surita (PMDB), estão registrados como proprietários da fazenda. Após a compra, o local foi destinado à construção do empreendimento Vila Jardim, do programa Minha Casa Minha Vida.

A casa de Rodrigo, em uma área nobre de Boa Vista, foi vasculhada pelos agentes. O ex-deputado já é investigado na Operação Lava Jato. Segundo denúncia da Procuradoria Geral da República contra Romero Jucá, o delator Cláudio Melo Filho, ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht, teria negociado e pago propina de 150.000 reais por meio de doação oficial a Rodrigo, quando foi candidato a vice-governador de Roraima em 2014. Melo Filho, também denunciado, esclareceu em sua delação que o pagamento foi para atender Jucá e não por interesse da empresa na candidatura do filho.

Os agentes também estiveram na casa da prefeita de Boa Vista, que não é alvo da operação. Na fazenda mora Luciana Surita, ex-enteada de Jucá, cujo marido foi preso em flagrante por posse ilícita de um fuzil de caça 7,62 e uma pistola 45, além de munições. Marina, filha do senador, e a ex-enteada Ana Paula foram levadas para depor coercitivamente na superintendência da PF em Brasília. Também são alvos de condução e buscas, segundo divulgou a Folha, Hamilton José Pereira, Elmo Teodoro Ribeiro e Francisco José de Moura Filho, ligados à CMT Engenharia.

Romero Jucá, sem relação direta com esta última operação, mas protagonista de numerosos escândalos, alertou os jornalistas que ninguém iria intimidá-lo. Pouco depois lançou uma nota na qual qualifica a operação de mais um “espalhafatoso capítulo” em relação aos acontecimentos dos últimos anos. “Como pai de família carrego uma justa indignação com os métodos e a falta de razoabilidade. Como senador da República, que respeita o equilíbrio entre os poderes e o sagrado direito de defesa, me obrigo a, novamente, alertar sobre os excessos e midiatização”, disse. “Recebo essa agressão a mim e a minha família como uma retaliação de uma juíza federal, que, por abuso de autoridade, já responde a processo no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Tornarei público todos os documentos que demonstrarão a inépcia da operação de hoje”, ameaçou.

A operação foi batizada de Anel de Giges, uma legenda contida em A República, de Platão. O anel permite ao seu proprietário ser invisível e garantir sua impunidade apesar dos seus crimes, o que leva ao filósofo a se questionar se os homens são bons por escolha própria ou porque temem ser descobertos e punidos.

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