Raquel Dodge (com Cármen Lúcia):estreia no STF…


…Janot e Gilmar, na foto do Estadão, no mesmo
voo para Portugal, por motivos diferentes.

ARTIGO DA SEMANA

Raios na Primavera: estreia de Dodge e entrevista de Janot

Vitor Hugo Soares

Quem acordou cedo na segunda-feira desta semana, a tempo de ver e avaliar, a partir dos signos da comunicação, os movimentos sinuosos de representantes dos três pilares do poder da República, – desfilando em quase perfeita desarmonia – durante a rápida, mas simbólica cerimônia de posse de Raquel Dodge, no comando da PGR, deve ter sentido zumbidos de alerta transmitidos do cérebro para os ouvidos. Seguidos de alguns calafrios, ânsias de náuseas e outras incômodas sensações do tipo descrito por pessoas que passaram por experiências de fenômenos pré – desastres: o terremoto que sacudiu o México terça-feira; o furacão que devastou regiões inteiras no Caribe e áreas da Flórida e outros paraísos da costa atlântica dos Estados Unidos; ou o tsunami asiático anos atrás, para citar três exemplos que me ocorrem.

Gente de “alto coturno” , expressão que parece ganhar corpo, e voltar à moda, neste começo de primavera no hemisfério sul. Insidiosamente, depois das declarações do general Mourão, em versão 2017. Figurões, alguns, outros nem tanto, muitos deles cheios de salamaleques e tapinhas nas costas (para recordar da perfeita definição do ex-ministro presidente do STF, Joaquim Barbosa, em uma cerimônia do gênero): do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, a começar pelo escorregadio mandatário da vez, Michel Temer, minutos antes de pegar o avião e viajar apressado para um inexpressivo e quase mendicante jantar em Nova York, com Donald Trump, na véspera do insosso discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Por falar nisso, perfeito, também, o registro desse melancólico encontro, feito em charge primorosa do cubano Osmani Simanca, de coração fincado, há décadas, no humor gráfico do jornalismo da Bahia (premiado internacionalmente), divulgada no site A Charge Online. Trump sentado em uma caixa de engraxate com bandeirinha do Brasil balançando em uma haste, tem suas botas engraxadas pelo colega mandatário brasileiro, que , literalmente, baba de felicidade. “Formidable!”, exaltariam irônicos franceses, mestres e amantes do chargismo.

De volta ao começo, para não perder o fio da meada, a posse, na PGR também teve ausências que falam alto, e emblematicamente, à exemplo do ex-ocupante do comando da PGR, Rodrigo Janot. Em elucidativa entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, ele afirmou não ter recebido convite para a festa, “e quem vai a festa sem convite é penetra”. Precisa dizer mais?

Quem – além de observar com atenção este intrigante bailado de signos na festa da PGR, – leu, em seguida, a entrevista completa de Janot, e viu (ao vivo ou pela TV) a reunião do pleno do STF, na estreia de Dodge, cujos membros em mais que expressiva maioria, verdadeira e retumbante lavagem de votos (10 x 1) , decidiram em desfavor da suspensão da denúncia apresentada por Janot, contra o presidente Michel Temer, pelos crimes , no exercício do cargo, de organização criminosa e obstrução de justiça, deve estar ainda de orelha em pé para os riscos inesperados de raios e tempestades neste começo da estação das flores.

O resultado na votação do Pleno, principalmente na justificativa oral de alguns ministros, com destaque para a presidente da Corte, Cármen Lúcia, o relator Edson Fachin e o decano Celso de Mello, é de mexer com os nervos e abalar muita gente, incluindo na relação até o aparentemente inabalável e provocador ministro Gilmar Mendes: único voto favorável aos pleitos pela suspensão da denúncia contra Temer, apresentados pelos advogados do Palácio do Planalto. Aparentemente ainda grogue, com a decisão, Gilmar Mendes saiu direto da sede do STF para o voo que o levaria à Europa (pela segunda vez em menos de 15 dias), agora para Lisboa, não se sabe bem com que agenda ou missão. O que se sabe é que no mesmo avião estaria o ex – procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que inicia, assim, a sua sonhada temporada de descanso em Portugal, depois das muitas e duras refregas que enfrentou no comando da PGR, como revela ao importante jornal do DF.

O ex – procurador retorna, em seguida, para se defender, com todas as flechas que ainda lhe sobraram, dos ataques, os quais está convencido, cairão sobre sua cabeça, vindos das mais diferentes direções e de adversários declarados ou dissimulados (principalmente da CPI que se arma no Congresso), o que Janot também deixa claro, na contundente entrevista publicada no CB. Não darei, aqui, detalhes das perguntas e respostas da entrevista, cuja leitura completa este jornalista recomenda vivamente, pelo conteúdo e pela arte da conversa jornalística. Cito apenas, como atraente aperitivo, uma das considerações de Janot, ao responder a uma das perguntas, reproduzida no Blog do Noblat como Frase do Dia:

“Vão tentar usar todo mundo e tudo contra mim…Tudo é possível, vão tentar desconstituir a figura do investigador. Não levei dinheiro do Miller nem autorizei ninguém a receber mala de dinheiro em meu nome. Nem tenho amigo com R$ 51 milhões em apartamento”. Ponto.

O fato relevante é que a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, encaminhou, ainda na noite de quinta-feira, 21, à Câmara dos Deputados, a segunda denúncia, apresentada pelo então procurador – geral, Rodrigo Janot, contra o presidente Michel Temer.Disso tudo, o jornalista tira uma conclusão, antes do ponto final: não só a sombra de Ulysses Guimarães e a força poderosa de seu exemplo pessoal e de suas metáforas políticas, sobrevoam o horizonte de Brasília e do País, na chegada da primavera de 2017. Há prenúncios evidentes de mais raios e tempestades nas plagas do Planalto Central e do resto do Brasil. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 23 setembro, 2017 at 2:49 #

Não darei, aqui, detalhes das perguntas e respostas da entrevista, cuja leitura completa este jornalista [Vitor Hugo] recomenda vivamente, pelo conteúdo e pela arte da conversa jornalística.

Vitor recomendou a leitura. Então vai aí o link para a entrevista de Janot ao Correio Braziliense:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2017/09/20/internas_polbraeco,627365/rodrigo-janot-fala-com-exclusividade-ao-correio-apos-deixar-pgr.shtml


vitor on 23 setembro, 2017 at 13:43 #

Maravilha, Taciano. Com seu comentário você me permite corrigir uma falha no artigo deste sábado, na parte que se refere à entrevista de Janot publicada no Correio Braziliense. O crédito merecido às autorass da bem realizada e relevante conversa jornalística: Ana Dubeux , Ana Maria Campos , Helena Mader, do CB e da TV Brasília. Em tempo : a TV Brasília apresenta neste sábado um programa com a íntegra da entrevista. Bahia em Paua recomenda e, estou certo, Gama Livre também, Forte abraço.


Taciano Lemos de Carvalho on 23 setembro, 2017 at 21:22 #

As três, Ana Dubeux , Ana Maria Campos e Helena Mader, são excelentes jornalistas daqui de Brasília.


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