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Postado em 12-09-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-09-2017 00:46

CRÔNICA

Paixão pelo Cinema:Tuna Espinheira na Sala Alexandre Robatto

Lucia Jacobina

Na Sala Alexandre Robatto, situada na Biblioteca Central dos Barris, no último dia 06 de setembro, uma seleta plateia de convidados foi assistir a exibição de dois documentários do criador e realizador baiano Tuna Espinheira intitulados “O Cisne também Morre”, de 1982, e“A Mulher Marginalizada”, de 1989,ambos rodados em 16 mm. Além de constituírem dois dos mais importantes curtas-metragens de sua autoria, o primeiro representa a estreia do diretor no universo da ficção e o segundo pela temática contundente lhe valeu inclusive uma premiação internacional, esses filmes ainda não estão digitalizados e foram exibidos justamente para que suas imagens sejam captadas e integrem um documentário em homenagem ao cineasta que está sendo rodado por Marcília Cavalcante Barros, vencedora da seleção feita pelo Projeto Arte em Toda Parte, patrocinado pela Fundação Gregório de Matos e a Prefeitura de Salvador.
Entre o público presente lá estava uma parte remanescente do elenco e da produção, amigos e parentes,jovens e veteranos ligados à sétima arte. Do elenco, na tela e na plateia destacavam-se Angelo Roberto,protagonista de “O Cisne também Morre”, numa belíssima e surpreendente interpretação do grande representante das artes plásticas, que comprovou sua formação teatral no palco das “Jogralescas” e também na “Hora da Criança”. Aparição especial de Yara Espinheira, produtora cultural e diretora de produção de todos os filmes, exemplo de parceria de uma vida inteira de um casal que se amava e admirava mutuamente na vida em comum e no labor cinematográfico,ela que é para mim uma das pessoas mais inteligentes, sensíveis e bem-humoradas do meio artístico baiano, em torno da qual gravitam até hoje uma plêiade de artistas da velha geração, galvanizada por sua solidariedade e seu carisma, além dos jovens amigos da filha Rosa Espinheira, que também escolheu a carreira artística. E ainda as participações marcantes de outros tantos talentos já desaparecidos, a exemplo do cineasta Agnaldo Azevedo Siri,do poeta Fred de Souza Castro e do jornalista Fernando Rocha, além de André Setaro, meu colega da Faculdade de Direito da Ufba, famoso jornalista, professor e crítico de cinema, com obra publicada. O próprio cineasta também aparece fazendo uma ponta, ainda jovem com basta cabeleira preta e sua inseparável boina. A voz de Carlos Anísio Melhor dizendo seus poemas pontua todo o filme que é feito em homenagem ao poeta tragado pelo vórtice do talento e da sensibilidade em tamanha proporção que seria impossível domar, tendo conseguido apenas viver alternando lucidez e loucura, expressando-se em versos e nutrindo-se no álcool. A exortação anisíaca “Fica-te aí, parada na memória” que inicia o primoroso soneto “Tempo e Memória”, na minha concepção, tem a mesma força do emblemático verso de John Keats “A thingofbeautyis a joyforever”, o primeiro verso do poema “Endimion”. Aengenhosidade do jovem cineasta Tuna Espinheira vagou com sua câmera e seus companheiros de equipe pelas ruelas e becos da velha cidade de Salvador e pelo antigo sanatório Juliano Moreira, buscando reconstituir os locais onde vivia e morria o inspirado poeta.
Em “A Mulher Marginalizada”, o importante e premiado documentário realizado em 1989, o cineasta expõe sua sensibilidade a serviço de seu credo político ao trazer para a tela o cotidiano da prostituição e divulgar o trabalho desenvolvido por dom José Rodrigues, criador da Pastoral da Mulher Marginalizada em Juazeiro,bispo perseguido e preso pelo regime militar justamente por sua atuação em benefício da comunidade carente. Esse documentário foi amplamente prestigiado, tendo recebido os Prêmios de Melhor Direção e Melhor Filme no VI Rio Cine Festival e o Troféu do Ofício Católico Internacional de Cinema, OCIC.
A ocasião funcionou como uma espécie de sessão nostalgia, ao trazer de volta o velho projetor que atualmente alguns chamariam de “jurássico”, mas que para o universo cinematográfico representa um exemplar especialíssimo e foi por meio dele que muitas películas dos primórdios do cinema baiano foram apresentadas. Nas salas de exibição daquela época além das imagens projetadas na tela, dos diálogos e do fundo musical, um som peculiar era emitido por esseequipamento enquanto rodava as bobinas do filme, e que poderíamos dizer fazia parte integrante da trilha sonora. Esses ruídos característicos me são tão caros ao ouvido como também à memória, pois me remetem a minha meninice em Mundo Novo e a companhia de minha mãe, também uma amante da sétima arte, a quem devo minha iniciação e minha paixão pelo cinema.
Coincidentemente essa sessão especial ocorreu nos Barris, tradicional bairro do centro da capital que pode ser considerado como reduto e berço do cinema em Salvador. Era lá que se situava a pensão de Dona Lúcia, mãe de Glauber Rocha, o idealizador do “cinema novo”, movimento tão importante em nosso país e na história do cinema brasileiro como é o neorrealismo italiano e a nouvelle vague francesa para seus países de origem e da própria história do cinema mundial. Lá também está localizada a sede da Biblioteca Pública Central, com a cinemateca e as salas de projeção Walter da Silveira e Alexandre Robatto, dois nomes proeminentes da cinematografia local.
Segundo informações da própria diretora, as homenagens ao cineasta falecido em 2015 ocorrerão em Salvador, nos dias 13, 20 e 27 de outubro, em locais a serem posteriormente divulgados.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

Comentários

vitor on 12 setembro, 2017 at 11:04 #

Lucia

Maravilha! Se bem conheço o velho Tuna ( e acho que o conheci como poucos desde que cheguei por aqui, na Cidade da Bahia, ele deve estar imensamente feliz e em festa (com Dom Rodrigues) lá em cima, com o seu artigo de hoje. Grande abraço e chega mais.


Lucia Jacobina on 12 setembro, 2017 at 16:40 #

Verdade, Vitor!
Não tive a mesma sorte sua de acompanhar a carreira de Tuna desde os primórdios. Cheguei um pouco mais tarde, exatamente a partir do documentário para a tv “Viva o 2 de Julho”, durante as filmagens até sua exibição em 1998. Inclusive Tuna e Yarinha deram-me a honra de assistir ao documentário lá em casa e como são muito gregários, junto com eles trouxeram o produtor Duque e o artista plástico Siron Franco que curiosamente abandonou a projeção no meio pois encontrara segundo ele, a partir do colorido da filmagem, uma repentina solução para finalizar um trabalho que estava realizando e resolveu retornar imediatamente ao seu atelier, não antes de me pedir com tanta delicadeza que me pareceu irrecusável, para que eu lhe permitisse fumar um cigarrinho na minha varanda.
A partir de 1997, tenho aplaudido e escrito sobre os filmes de Tuna de quem também sou ardorosa fã.
Inclusive, notei sua ausência Vitor e a de Margarida na última exibição. Vocês fizeram falta.
E eu aproveitei finalmente a oportunidade de assistir a esses dois documentários que demonstram a verdadeira dimensão da sensibilidade, da técnica e do talento de nosso cineasta desaparecido tão precocemente.
Muito louvável acompanhar o interesse que a jovem diretora demonstra pela filmografia de Tuna. Inclusive porque estamos num momento crucial de nossa história e necessitamos mais do que nunca apelar para nossos verdadeiros valores, a fim de que a juventude conheça e cultue os brasileiros que honram nosso país.


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