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06

CRÔNICA

Escravos de ouro

Arthur Andrade

Conheço um garoto, 14 anos, que participou de um desses concursos de talentos kid da Globo. Sua banda ficou entre as classificadas – não chegou à final. Mas as duas apresentações foram suficientes para um mega empresário de São Paulo enxergar ali um bom negócio. Contratou a banda. O cachê em torno de 50 mil mensais, uma baba por show além de verbas extras e outros mimos levaram os quatro kids ao céu dos cifrões. Os pais deliraram.

Até chegar o contrato e a implacável ficha cair.

Todos foram obrigados a deixar as respectivas escolas. Personal teacher o acompanhará país a dentro. Ensaios exaustivos e um novo nome pra banda e para cada integrante. Nome artístico, ora!

Novas regras, novas leis, as leis do mercado em lugar da antiga e esfarrapada educação doméstica.

Todos terminaram os namoros. A partir de agora as namoradas serão escolhidas pela empresa. Garotas midiáticas.

Nada de baladas, tardes em shoppings, nem vida doméstica.

Os pais assinaram contratos liberando os filhos para gestão da empresa durante um ano. O que irão ler,ouvir, assistir, comer, beber, vestir, calçar, pensar, sonhar será decidido pela empresa.

Os agentes do empresário conversaram com as famílias. “Seus filhos agora são um produto. Serão tratados como investimento. E assim terão todo nosso cuidado!”

Choque! Mas a grana compensa. E será apenas um ano. E ainda estão na fase dos ensaios. Os pais com coração na mão, mas a grana compensa… A mãe do garoto, uma professora com salário de professora, entre orgulhosa e deprê, admitiu: viramos escravos!

Penso no craque de 222 milhões de euros do PSG, quase 1 bilhão de reais. Neymar da Silva Santos Júnior não existe mais. Em seu lugar existe Neymar, a marca. Também não é mais um corpo. É uma corporação. Também não é privado. É uma sociedade. Não tem patrão. Neymar tem dono.

Neymar é um escravo de bilhões. Seu corpo foi vendido, retalhado, negociado nas bancas do complexo sistema.
Neymar não pensa, não decide, não escreve e nem fala por si. Fala como produto. Pensa como negócio. Sua vida é decidida em conselhos. Seus músculos são cotados em euros, sua alma em centavos de reais.

Neymar a marca procura uma casa em Paris Por enquanto, mora num hotel de 95 mil reais a diária e quarto de 322 metros quadrados. Cercado de drones. Seu telefone é grampeado. O que assiste é vigiado. Com quem conversa, deita, acorda, com que lamenta sua prisão, tudo é vigiado por gente e robôs desses de cinema. Neymar não pode espirrar. Logo uma revoada de algorítmos da medicina
desabam sobre ele liberando laudos e laudos, diagnósticos e prognósticos. Um investimento de 222 milhões de euros não pode correr riscos.

Mas serão apenas cinco anos. E Neymar tem 25.

Aos 30, a marca Neymar estará livre para viver como da Silva Júnior.

Se estiver, será cortejado e mais uma vez vendido na rota dos escravos bilionários do século 21?

Mas talvez reste sua carcaça sugada até a última gota pelas pernas adversárias e pelas corporações de investidores.

Outro dia subi uma favela do Rio e vi uma estranha alegria libertária naquele ar de bares, barracos e exclusão.

Estranha existência! Continuo tentando entendê-la.

Ainda não desisti.

Arthur Andrade é jornalista, colaborador da primeira hora do BP

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