Xi Jinping e Temer: encontro e promessas em Pequim…


…e Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo:”em nenhum
país do mundo Temer teria permanecido no cargo”.

ARTIGO DA SEMANA

Que país!: Temer e Rui Costa na China, Maia e Fufuca em Brasília

Vitor Hugo Soares

É fato que o absurdo tem sido um parceiro sempre presente na vida brasileira (os maiores de todos que você seja capaz de imaginar, quando se trata da Bahia, segundo Otávio Mangabeira). Mas é preciso reconhecer também: raras vezes, na sua história recente, a terra descoberta por Cabral (o lusitano das caravelas Pedro Alvares, e não o carioca Sérgio, ex-governador do Rio, (recolhido ao complexo penitenciário de Bangu, cuja ficha criminal cresce a cada novo desdobramento da Lava Jato) se viu diante de tão grave e acabrunhante dilema moral de identidade, quanto o que se apresentou nesta semana da transição agosto-setembro deste incrível ano de 2017. Quem jamais, no mais arrepiante de seus pesadelos, teria sido capaz de imaginar situação tão patética e tão surreal, quanto esta que explodiu diante dos olhos da nação nesta quadra temerária que atravessamos?

Às vésperas da anunciada nova denúncia do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, para cobrar investigação do mandatário, por malfeitos criminais em pleno exercício do mandato – evidenciados na escandalosa conversa com o empresário Joesley Batista (gravada e entregue pelo dono da JBS/Friboi à PGR, em sua delação premiada) o presidente Michel Temer (“que em nenhum país do mundo teria permanecido no cargo depois de denúncias tão graves”, segundo o ex-ministro presidente do Supremo, Joaquim Barbosa afirmou nesta sexta-feira) pegou o avião e embarcou em viagem para a outra banda do planeta. Com parada para reabastecimento (e sentimental) em Portugal, o novo mimo e modelo europeu de enfrentamento de crise econômica, convivência humana e turismo.

Na quinta-feira, com sua caravana de 11 ministros e farto recheio de parlamentares, o ocupante da vez do Palácio de Planalto desembarcou na China, sempre imperial e cheia de sí, mesmo quando mal dissimulada sob a fachada de República Popular, fundada a ferro e fogo pelo finado presidente Mao Tsé-tung, vulto ainda de forte presença simbólica, que vai muito além do retrato na praça monumental em frente ao histórico e cinematográfico palácio dos antigos imperadores. Périplo e fuga estratégica ao mesmo tempo. De múltiplos e arrevesados objetivos. Em boa parte, traçados de improviso e em cima do laço, uma marca de gestão cada vez mais evidente da errática e oportunista simbiose PMDB-PSDB, com a turma gulosa do Centrão no meio para embananar tudo ainda mais.

Primeiro, o propósito oficial de marcar presença na cúpula anual dos BRICs – que o regime da terra de Mao sedia e capitaneia. Conjunto desnivelado de economias entre as quais o Brasil aparece como minguante apêndice mergulhado em crises sucessivas, sem voz altiva, sem cacife, sem liderança que mereça o nome. Praticamente “um pedinte”, para usar a expressão do magnífico poema de Fernando Pessoa .

Neste ponto se encaixa a segunda, mais submersa e indefinida, finalidade da caravana de Temer: a busca, no país asiático, de uma bússola ou, mais propriamente de uma boia salvadora para um náufrago em sério risco de naufrágio, tal qual a lancha “Cavalo Marinho” na trágica travessia da Baia de Todos os Santos, semana passada. Tentativas incertas e de duvidosos resultados práticos, com a rapidez e eficácia da quase emergência da atual crise brasileira. Promessas de acordos e de novos negócios na nebulosa, poluída e sempre insondável China. Neste ponto a agenda é pródiga.

Enquanto escrevo este artigo, na sexta-feira, 1 de setembro, fala-se que Temer e seu colega chinês, Xi Jinping farão anúncios comerciais que vão de futebol a aviões, passando por coisas de cinema, vistos de viagens internacionais de turismo e intercâmbios culturais, usina hidrelétrica Belo Monte, comércio eletrônico e de bugingangas, investimentos em infraestrutura. Em resumo, “o escambau”, no linguajar da gente soteropolitana.

Se não bastasse salada de tantas misturas, Temer e sua alentada caravana visitam Pequim e redondezas asiáticas, ao mesmo tempo em que transitam pela terra do presidente Mao, o petista governador da Bahia, Rui Costa, acompanhado do atual secretário de desenvolvimento do estado, Jaques Wagner. Ex-todo poderoso ministro do Governo Dilma (também enrolado nas malhas da Lava Jato). Na verdade, uma espécie de grupo baiano do PT, desgarrado da caravana eleitoral e de defesa do já condenado ex-presidente Lula, que peregrina pelo Nordeste.

Na manhã desta sexta-feira, trombetas locais comunicavam que o atual ocupante do Palácio de Ondina (já em campanha para ficar mais quaro anos por lá), tinha como principal compromisso da agende de “sua missão internacional”, a assinatura, em Pequim, de um memorando de entendimento com cinco empresas chinesas e a Bahia Mineração (Bamin) para financiamento do projeto Porto Sul (em Ilhéus), parte crucial para continuação de outro plano, tão trombeteado, em períodos pré-eleitorais, quanto jogado depois para as calendas: a Ferrovia Oeste-Leste (Fiol), de quase tantos enganos e desvios quanto a faraônica obra de transposição das águas do cada dia mais desidratado São Francisco, o rio da minha aldeia. “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”, repito à moda dos irônicos franceses, observando toda a encenação desses bailados da China à distância, às margens da Baia de Tod os as Santos, onde continuam as buscas a um desaparecido (19 mortos), da tragédia durante a travessia Mar Grande-Salvador, ainda sem causas esclarecidas devidamente, nem punição de responsáveis.

É isso o que temos, infelizmente, para começar setembro. Na hora das últimas flechadas (jurídica e moralmente falando), na despedida de Janot, no instante do vamos ver das reformas políticas e eleitorais e da Previdência (mesmo que de faz de conta), o peemedebista, dono do poder da vez, passa o comando do país para o oscilante presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM) – (sempre dando a impressão de uma bola que está a uma alfinetada para pipocar), leva o vice na bagagem, e deixa a casa do Congresso,- responsável pela votação das medidas cruciais, – nas mãos de um parlamentar de primeira viagem, com 28 anos de idade, apelidado de Fufuca. E voa para China, no outro lado do mundo.

Durma-se com um furdunço destes.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. email: vitor_sooares1@terra.com.br

Comentários

Taciano Lemos de Carvalho on 2 setembro, 2017 at 9:49 #

Bem que Temer poderia ficar por lá pra banda onde foi a Cochinchina. Lugar lindo, em que as malas do maleiro Loures daria uma ótima ajuda para viver lá uns 40 anos.


Zanetti on 2 setembro, 2017 at 12:03 #

Muito bom!
Enquanto isso, o “Picolé de chuchu”, que pretende ser um novo pai dos pobres, vê seu pupilo bater as pernas pra tudo quanto é canto, no Brasil e no exterior, pretendendo ser no Brasil um novo Emmanuel Macron.


Chico Bruno on 3 setembro, 2017 at 8:44 #

Enquanto Rui assinava o protocolo ao fundo Temer aplaudia a cena. Está em foto distribuída pelo governo da Bahia publicada em A Tarde.


Chico Bruno on 3 setembro, 2017 at 8:44 #

vitor on 3 setembro, 2017 at 11:36 #

Chico Bruno:

Maravilha, Chico! Precioso flagrante jornalístico que complementa o texto do artigo com imagem crucial e reveladora. Obrigado!


Taciano Lemos de Carvalho on 3 setembro, 2017 at 13:10 #

Os dois, Rui e Temer, unidos nas pinguelas para o futuro (ruim, ruim).

Ops! Descobri agora que para Rui ficar ruim…basta colocar um M ao final do Rui.


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