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O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin.
Ciete Silvério/A2img

DO EL PAÍS

Gil Alessi

São Paulo

“Eu quero ser o presidente do povo brasileiro, de empresários que geram empregos, do povo sacrificado do Brasil, injustiçado”. Com essa declaração, feita nesta quinta-feira, o governador Geraldo Alckmin se lançou em definitivo na briga pela vaga tucana na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas ele já vinha, sem muito alarde, mobilizando aliados para dar corpo à sua candidatura e formar seu arco de alianças para a disputa da presidência da República em 2018. Indagado se seria o melhor nome para o cargo, o tucano foi discreto: “Isso a modéstia não me deixa responder”. O candidato do PSDB para a disputa do ano que vem provavelmente sairá de um embate entre criador e criatura: de um lado um veterano com mais de 40 anos de vida pública e três mandatos à frente do maior Estado do país e, do outro, João Doria, o novato empresário autointitulado “gestor e não político” cuja chegada à maior prefeitura do país foi um projeto do próprio Alckmin
O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin.
O prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin. Ciete Silvério/A2img

Enquanto o prefeito de São Paulo e afilhado político do governador aposta em uma presença massiva nas redes sociais, um agenda repleta de viagens a outros Estados e bons resultados nas pesquisas para tentar se cacifar como o nome da legenda para a vaga, seu padrinho joga outro jogo. Esta semana Alckmin se reuniu com os prefeitos do PSDB das 30 maiores cidades paulistas – Doria não foi convidado. Na pauta do encontro, o plano de Governo para disputa de 2018 e a necessidade de um candidato que “fugisse da lógica da polarização”, afirmou um deputado. Para os próximos dias, o governador, que não escondeu dos presentes sua vontade de disputar novamente a presidência, deve realizar outra reunião com mais algumas dezenas de prefeitos do partido.

Com uma agenda mais discreta, o governador também já se encontrou este semestre com aliados do Nordeste, sempre aos finais de semana, como fazem questão de frisar os defensores de sua candidatura. Apenas em agosto, Doria visitou a região duas vezes durante dias úteis, quando em tese deveria estar dando expediente na capital, o que provocou críticas ao prefeito “turista”. Os dois sabem que a região pode ser a chave para uma vitória em 2018, com seus mais de 39 milhões de votos espalhados por nove Estados. O Nordeste, considerado um reduto do PT – a região foi fundamental para a vitória de Dilma Rousseff em 2014 -, pode se tornar “campo aberto” frente à possibilidade de Lula ficar de fora do páreo ano que vem devido a uma condenação em segunda instância na Operação Lava Jato.

No final do ano passado Alckmin já havia feito acenos à região Nordeste, com a cessão, em dezembro, de quatro conjuntos de bombas de água para auxiliar no combate à seca nos Estados da Paraíba e Pernambuco. Os equipamentos são os mesmos utilizados para captar água do volume morto do sistema Cantareira durante a crise hídrica em São Paulo. No final de agosto o empréstimo foi renovado. “Alckmin já tem uma agenda nacional, mas é uma agenda limitada à responsabilidade que ele tem no Governo de São Paulo, não pode ficar deixando o Estado três vezes por semana”, alfineta o deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP), defensor declarado da candidatura do governador. O candidato tucano deve ser escolhido até “no máximo” janeiro. Em outubro o partido realizará as convenções municipais, em novembro as estaduais, e em dezembro será a nacional. Caso haja mais de um postulante, existe a possibilidade de que sejam realizadas prévias em janeiro. Caso isso ocorra, existe a possibilidade de uma divisão na legenda: o diretório municipal paulistano, por exemplo, saiu rachado das prévias de 2016, que apontaram Doria como candidato.

O Governador, em tese, larga na frente também na disputa interna do PSDB, já que o atual presidente da sigla, Tasso Jereissati, declarou que é Alckmin “o primeiro da fila” à espera da candidatura presidencial. Mas isso não quer dizer que o caminho adiante seja fácil. O que está em jogo não é só a candidatura do PSDB, mas a escolha de um candidato que investidores e empresários considerem competitivo para levar adiante uma programa de reformas liberais com uma aliança de direita _exatamente como o atual Governo. Pode ser com o tucanos ou sem eles. Neste quesito, nem todos compram o ocupante do Palácio dos Bandeirantes como melhor defensor dessa bandeira num momento de descrença nos políticos tradicionais. Nesta quarta-feira, a consultoria Eurasia, que avalia risco políticos para investidores, disse que Alckmin era o candidato do establishment político justamente quando há uma “febre” no eleitorado pelos “anti-sistema” ou que se apresentam como novatos, como o próprio Doria. Foi respondendo a um questionamento de um jornalista sobre a avaliação da consultoria que Alckmin decidiu subir no ringue de vez para falar abertamente da candidatura.

Presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Cauê Macris (PSDB) afirma que o governador já conta com o apoio de diversos partidos em sua empreitada rumo ao Planalto, como o PSB, PTB, PV, PPS e PP. “Só popularidade não elege ninguém”, diz o parlamentar. “O apresentador Luciano Huck, por exemplo. Pode ser presidente? Ele é popular. Mas sem alianças, se não fizer costura de palanques em outros Estados, dificilmente viabiliza uma candidatura”, continua Macris, destacando a importância dos apoios principalmente para o tempo de TV da campanha, calculado com base no número de deputados da coligação.

Para Macris, a situação financeira do Estado de São Paulo durante o atual momento de crise econômica é mais um indicativo das qualidades do governador, e deve ser apresentada por Alckmin “no momento certo” para a população brasileira. “Na maior turbulência São Paulo não quebrou, paga salários dos servidores em dia, e ainda consegue investir”, diz o deputado. Apesar da agenda nacional “contida”, nos bastidores o governador trabalha ativamente. Em agosto reuniu-se com o governador Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, e com representantes do grupo de deputados conhecidos como os cabeças pretas do PSDB. A ala é considerada mais radical, defendendo inclusive o desembarque do partido do Governo Temer, algo que tanto Doria quanto Alckmin são contra.

Para o presidente estadual do PSDB, o deputado Pedro Tobias, o candidato do partido precisa“pacificar o país”. “Alckmin tem esse perfil, além da experiência acumulada por sucessivos mandatos”, diz. O parlamentar aponta que Doria entrou na “lógica da polarização”, trocando ataques com o ex-presidente Lula, algo que “o país já não aguenta mais”. “O prefeito não tem feito uma pré-campanha propositiva, ele está entrando na linha do discurso raivoso de Lula”, diz.

Doria sempre afirmou que caso o governador coloque sua candidatura, ele não disputaria a presidência. O prefeito, no entanto, tem a seu favor para chegar ao Palácio do Planalto a onda de popularidade na qual vem surfando nas últimas pesquisas de opinião. Levantamento do Instituto Ipsos divulgado no dia 26 coloca o prefeito paulista como o tucano com a menor taxa de desaprovação, e a maior aprovação, superando Alckmin e os senadores José Serra e Aécio Neves. Além disso, 28% dos entrevistados disseram desconhecer o prefeito paulista, o que justificaria o “tour” de Doria pelo país.

Para o deputado Torres, “a pesquisa não significa nada para a eleição do ano que vem”, uma vez que seria “a preliminar da preliminar”. “O que define eleição é 30 dias antes, quando começa o horário eleitoral”, afirma. Para Torres, o candidato do PSDB para a presidência não será escolhido “com base nisso”, e faz uma ressalva a Doria: “Não se ganha aliados por pesquisa”.

Tucanos paulistas afirmam que o prefeito, caso opte por disputar as prévias do partido para a vaga de candidato, terá que lidar com dois estigmas. “Olha só o que aconteceu com o [José] Serra”, afirma um parlamentar da sigla que prefere o anonimato. Em 2006 Serra deixou a prefeitura após pouco mais de dois anos de gestão para disputar, com sucesso, o Governo. Quatro anos depois, quando tentou alçar voos mais altos rumo ao Planalto, foi rechaçado nas urnas. Além disso, Doria ficaria “marcado como traidor” de Alckmin: a candidatura do empresário à prefeitura foi uma aposta pessoal do governador.

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