CRÔNICA

Quase aniversário do pequeno Charlie Gard

Janio Ferreira Soares

Como se fora uma convenção estimulada por avós, tios e lojas de brinquedos, a maioria dos pais não titubeia nem um pouco na hora de fazer uma festa de arromba para celebrar o primeiro aniversário de sua cria, apesar de, sabermos todos, tratar-se de uma comemoração curtida mais por adultos do que pelo homenageado, coitado, quase sempre amuado, seja pela estranheza da roupa nova a lhe apertar as dobrinhas, seja pelos beliscões nas bochechas provocados por parentes forasteiros, que no futuro serão apenas imagens póstumas num velho álbum a lhe despertar saudades sinceras ou um seco virar de página, como quem diz: “esse aí já foi tarde!”.

Pois muito bem, esta introdução é para lembrar que anteontem, 4 de agosto, Charlie Gard, o garotinho inglês que nasceu com uma rara e incurável doença chamada “síndrome de miopatia mitocondrial” – e que estava sendo mantido vivo por meio de aparelhos -, estaria completando seu primeiro ano de vida, isso se a justiça inglesa tivesse acatado o pedido de seus pais, Chris Gard e Connie Yates, que imploravam por uma sobrevida de seu rebento para, creio, festejarem seu único e derradeiro aniversário.

Acontece que no meio do caminho de Charlie tinha não só uma pedra, como também um insensível e glacial juiz britânico (desses que certamente nunca brincou de besourinho com seu filho, nem de “achou!” com sua filha, muito menos repetiu uma graça à exaustão só para ouvir a delícia de uma risada dobrada) que, como se fora uma espécie de Poderoso Thor invertido, bateu seu martelo bem na cara da sensatez e ordenou que fossem desligados os aparelhos que mantinham Charlie, acredite, há apenas 7 dias do ritual de, através do sopro de seus pais, amiguinhos e familiares – e com um chapeuzinho de palhaço na cabeça, presumo -, apagar sua primeira e última velinha, cuja fumaça, segundo a lenda dos antigos deuses, serve para levar aos céus os sonhos de quem as assopra.

Ah, os sonhos de Charlie! Será que ele ainda os tinha enquanto, aparentemente, vegetava? Se sim, quem os habitava? Os universais anjinhos que fazem cosquinhas com suas asas para as criancinhas darem aquele inigualável sorriso no canto da boca enquanto dormem? O monstro do lago Ness embaixo do berço, com a cara de Margareth Thatcher? Um boçal de um magistrado achando-se o Deus da toga preta, impedindo bebês de ouvir algo parecido com o nosso “que Deus lhe dê, muita saúde e paz e, que os anjos digam amém, parabéns, pra você, parabéns, pra você, pelo seu aniversário?”.

A resposta, my friend Charlie, como nas canções de um velho bardo americano (agora Nobel), viaja na garupa do vento e em breve baterá na porta do Céu, assim como faria a fumaça da vela que você quase apagou. “Rá-Tim-Bum, Charlie!, Charlie!, Charlie!…”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lsdo baiano do Rio São Francisco.

Comentários

Daniel on 6 agosto, 2017 at 20:31 #

Afora o ataque gratuito e desnecessário a Margareth Thatcher (se ela fosse esquerdista diriam que fora um ataque machista) – e aquela que salvou os britânicos da bancarrota – trata- se de um texto irrepreensível!


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