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Anthony Scaramucci, na sexta-feira.
Foto:Jonathan Ernst REUTERS


DO EL PAÍS

Jan Martínez Ahrens

Joan Faus

Washington

O caos prossegue na Casa Branca. Donald Trump decidiu demitir Anthony Scaramucci do cargo de diretor de Comunicação apenas 10 dias depois de nomeá-lo. A saída de Scaramucci, um financista sem experiência política, foi um pedido de John Kelly, que nesta segunda-feira tomou posse como chefe de gabinete do presidente norte-americano.

Depois da destituição fulminante do porta-voz oficial, Sean Spicer, o multimilionário nova-iorquino entregou a delicada chefia de Comunicação a Scaramucci, um antigo tubarão de Wall Street. Mas em apenas cinco dias no posto ele arrastou a Casa Branca a níveis insólitos de baixeza e vulgaridade, depois que, em conversa com um jornalista, insultou altos funcionários da Casa Branca, como Reince Priebus, o então chefe de gabinete de Trump, que o presidente demitiu na sexta-feira.

Scaramucci, que se reportava diretamente a Trump, era um dos problemas com os quais Kelly teria de lidar, por isso ele optou por uma decisão salomônica.

Trump viu um perigo. Depois de seis meses de mandato o caos se instalou na Casa Branca a falta de conexão com o Congresso é maior a cada dia. Nenhum de seus grandes projetos legislativos seguiu em frente e alguns congressistas, como John McCain, já o desafiam em público. Superar essa fratura e pôr ordem interna será a missão de Kelly, um ex-general de marines. “Será um dos melhores da história”, previu Trump.

Não tem experiência política. Não se conhecem virtudes dele para a negociação. E tem como bandeira a deportação e expulsão de imigrantes. Kelly, um antigo chefe do Comando Sul e ex-secretário de Segurança Interna, de 67 anos, não é homem que outros governantes teriam nomeado para recuperar a sintonia e o consenso. Mas no jogo de Trump as comparações pouco importam. Criador de seu próprio e vertiginoso ecossistema, onde a fidelidade e a força encabeçam a cadeia trófica, a escolha de Kelly é sinal de que, longe de qualquer freio, o presidente da nação mais poderosa do planeta sempre está disposto a se radicalizar.

O maior desafio de Kelly consistirá em recompor o clima interno. A saída de Scaramucci parece indicar essa vontade. Seu segundo objetivo prioritário é estender uma ponte sólida na direção do Congresso. Uma tarefa que se tornou prioritária para um presidente que, apesar de ter maioria em ambas as Casas, não consegue alcançar velocidade de cruzeiro.

Os motivos são diversos, mas sempre fundamentados no mesmo ponto. A desordem que se apoderou da Casa Branca, com 26 assessores presidenciais e um chefe de Estado em permanente combustão, está erodindo sua base de apoio. As pesquisas revelam que a fratura social cresce, e escândalos como a trama russa alimentam a desconfiança no lado republicano.

Isso ficou claro na última semana. O Senado deixou em quarentena os planos de Trump de conseguir uma aproximação com Vladimir Putin. Com essa finalidade, uma ampla maioria de ambos os partidos blindou as sanções decretadas por Barack Obama contra o Kremlin pela ingerência eleitoral, de modo que o presidente não pudesse revogá-las. O resultado foi o anúncio da expulsão dos 755 funcionários da missão norte-americana na Rússia.

Agora que aproximação com Moscou ficou comprometida, senadores republicanos como Lindsey Graham propõem colocar sob proteção parlamentar a investigação sobre a trama russa liderada pelo promotor Robert Mueller. “Se ele for demitido, seria o começo do fim da Presidência de Trump”, alertou.

Nesse ambiente conturbado, a pulsão presidencial de dar ordens pelo Twitter e suas constantes e diversas reprimendas sobre a reforma da saúde aumentaram a sombra do caos e pressagiam dias difíceis para Kelly. O general tem a seu favor a própria dureza e a admiração por parte do presidente, de sua filha, Ivanka, e do genro, Jared Kushner. Mas esse mesmo apoio pode lhe custar caro. Como chefe de gabinete, uma espécie de primeiro-ministro na sombra, ele coordenará os principais eixos da política e, portanto, terá de enfrentar não só o círculo íntimo de Trump, mas também os rompantes presidenciais. Uma arma demolidora que seu antecessor sofreu na própria pele e que agora o general deverá assimilar sem perder a compostura. A demissão Scaramucci é uma manifestação inequívoca de quem manda.
O legado tóxico de Priebus

O general John Kelly herda um campo minado. Seu antecessor, Reince Priebus, ex-presidente do Comitê Nacional Republicano, não conseguiu forjar uma aliança sólida com as maiorias parlamentares nem com as facções de poder da Casa Branca. Sobrecarregado em todas as frentes, seu curto mandato foi também sacudido pela tempestuosa forma de fazer política do presidente. O resultado foi devastador: caos na Casa Branca e fracasso contínuo no Congresso. Tudo isso levou a uma sensação de deriva na qual, à medida que a palavra do presidente perde força, emergem os líderes abertamente contrários, como John McCain, cujo voto foi decisivo contra o projeto republicano de revogar e substituir a reforma da saúde de Obama.

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