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Postado em 20-05-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-05-2017 01:30

DO EL PAÍS

Afonso Benites
Talita Bedinelli

Brasília

Na manhã desta sexta-feira, o presidente Michel Temer respirava com algo de alívio após a crise que atacou seu Governo dois dias antes, com a divulgação, pelo jornal O Globo de que ele havia sido gravado dando aval para a compra de silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Os áudios isolados, divulgados no final da quinta-feira, não deixavam claro que ele havia atuado para calar seu antigo aliado e, ainda que apenas nos bastidores, parlamentares já arriscavam sair em sua defesa, desqualificando as gravações. Mas durou pouco. Já na hora do almoço, o conteúdo total do inquéritos a partir das delações da JBS, liberado à imprensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), voltou a colocar o presidente contra as cordas. No material, Joesley Batista o acusa de receber pagamento de milhões em propina e caixa 2. Conta que Temer o ouviu, passivamente, descrever condutas criminosas. Fica evidente que Temer disponibilizou a ele, um investigado em várias operações na Justiça, um canal particular e colocou seu homem de confiança à disposição para, de acordo com Joesley, tratar de assuntos que pudessem beneficiar a gigante frigorífica em seus interesses. E, para piorar, esse interlocutor aceitou receber propina, o que filmado pelos investigadores.

Até a divulgação do material, o Planalto tentava conter os danos da delação da JBS. O presidente anunciou que faria uma perícia no áudio em que aparece. Mas quando todo o sigilo da investigação foi quebrado, e os vídeos das delações vieram à tona, Temer desistiu de fazer um novo pronunciamento à nação e dedicou o seu dia a conversar com aliados e a discutir estratégias de defesa com seu advogado. Seu defensor no Supremo Tribunal Federal é Antonio Mariz de Oliveira, o criminalista que só não se tornou ministro da Justiça porque criticou a Operação Lava Jato. Com a anuência de Edson Fachin, ministro do STF responsável pela operação, o presidente será investigado por três crimes: corrupção passiva, obstrução à investigação e constituição e participação em organização criminosa — neste caso, “por utilizar a estrutura partidária e o cargo para cometer crimes em prejuízo do Estado e da sociedade”.

No pedido de abertura de inquérito, o procurador- geral Rodrigo Janot avalia que o presidente teve conduta imprópria já estando à frente do comando do país. Em 3 de março deste ano, por volta das 22h40, ele recebeu o diretor da JBS no Palácio do Jaburu, sua residência oficial, para uma conversa de cerca de 30 minutos. O áudio, gravado como Joesley como tentativa de barganhar o acordo de delação premiada que acabaria conseguindo, demonstra que o empresário entra diretamente pela garagem do palácio, sem se identificar na portaria. O empresário, na delação, explica os motivos que o levaram a pedir o encontro diretamente com o presidente. Se antes conversava sobre os interesses da J&F, holding do grupo JBS, com ex-ministro Geddel Vieira Lima e o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, agora não poderia fazê-lo mais, por conta das investigações que atingiram a ambos. Ele queria saber quem, agora, seria o interlocutor do presidente.

Aos 11 minutos e 30 segundos, a conversa aborda o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), responsável pela abertura do processo de impeachment contra a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). Joesley afirma ao presidente que tem procurado manter uma boa relação com o ex-deputado, hoje preso. E escuta de Temer: “Tem que manter isso, viu?”. Para Janot, o áudio prova que o presidente deu anuência à compra do silêncio de Cunha, apesar das controvérsias públicas a respeito desta interpretação. Seja como for, a essa altura, esse trecho do áudio já havia perdido protagonismo isolado. Na divulgação completa do processo, a narrativa de Joesley já havia devastado a imagem do mandatário.

Na conversa gravada, Temer indicou como seu interlocutor o deputado Rodrigo Santos da Rocha Loures, seu ex-assessor especial no Planalto. Loures, agora afastado do cargo pela Justiça, seria o responsável, a partir de então, por tratar dos temas de interesse do empresário junto à Presidência da República. O presidente também deixa claro que as portas do Jaburu estão abertas a ele. As da garagem —para que os encontros não sejam públicos. “Fazemos como hoje (…) funcionou super bem”, afirmou o peemedebista.

Os encontros de Joesley passaram a ser, então, com o homem de confiança de Temer. Em 13 de março, Loures foi recebido pelo empresário na residência dele, no luxuoso Jardim Europa, em São Paulo, para tratar dos principais interesses políticos e comerciais da JBS, descreve Janot. A compra do silêncio de Cunha ou ao menos a combinação de versões foi discutida, de acordo com o procurador-geral. Joesley afirma ainda que tratou com o ex-assessor de Temer sobre como destravar negócios de seu grupo que dependem de algumas “posições-chave” no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), na Receita Federal, no Banco Central e na Procuradoria da Fazenda Nacional. Em troca de obter um decisão no CADE que favoreceria uma termelétrica do grupo, Joesley oferece 5% do lucro se o negócio prosperasse. “O deputado federal Rodrigo Loures, homem de total confiança de Michel Temer, aceita e recebe com naturalidade a oferta de propina, em troca de interceder em favor do grupo”, diz Janot.

A delação do magnata da JBS também é recheada de casos do passado. De como o futuro presidente estava preocupado pelos ataques que recebia nas redes sociais e pediu ao empresário que lhe bancasse uma campanha de marketing na Internet nos meses prévios ao impeachment de Dilma Rousseff. Ou como os dois, Joesley e Temer, se encontraram mais de 20 vezes desde 2010, quando se conheceram apresentados pelo então ministro de Agricultura, Wagner Rossi.

Após Wagner Rossi deixar a pasta, Joesley conta que Temer lhe pediu que pagasse ao ex-ministro um “mensalinho de 100.000 reais”. O pagamento “foi feito dissimuladamente por cerca de um ano”, afirma. O então vice-presidente voltou a telefonar o empresário em 2012 quando andava a procura de dinheiro para bancar a campanha de seu aliado, Gabriel Chalita, para a Prefeitura de São Paulo. O delator disse que entregou três milhões de reais por meio de caixa 2.

Um episódio envolvendo Temer foi considerado particularmente desabonador até mesmo por um delator. Ricardo Saud, outro executivo da empresa de carne que fez delação, contou que em 2014 o então vice-presidente pediu 15 milhões para a campanha dos seus aliados. Mas Temer, num ato “deselegante”, segundo Saud, ficou com um milhão para ele.
Perda de apoio

Apesar do timing da divulgação dos detalhes da delação da JBS ter privilegiado Temer – sexta-feira é um dia praticamente morto entre os políticos de Brasília –, o presidente viu ruir, diante disso, um importante apoio que teve no início de sua gestão, o de parte da mídia. O jornal O Globo, periódico que pertence à família Marinho, dona do maior conglomerado de comunicação do Brasil, publicou um editorial no qual defende a renúncia do presidente: “Este jornal apoiou desde o primeiro instante o projeto reformista do presidente Michel Temer. (…) Mas a crença nesse projeto não pode levar ao autoengano, à cegueira, a virar as costas para a verdade. Não pode levar ao desrespeito a princípios morais e éticos. Esses diálogos expõem, com clareza cristalina, o significado do encontro clandestino do presidente Michel Temer com o empresário Joesley Batista. Ao abrir as portas de sua casa ao empresário, o presidente abriu também as portas para a sua derrocada.”

Na luta pela sobrevivência, o presidente sabe que terá severas dificuldades em recompor sua base – que já sofreu baixas consideráveis. Na quinta-feira passada, dezenas de parlamentares da oposição discursaram aos quatro ventos que ele deveria ser defenestrado do poder. Seus aliados, contudo, só diziam que o momento era de calma para acompanhar o desenrolar das investigações.

O pedido por cautela não é apenas para proteger Temer, mas a si próprios. Nos últimos meses, com a delação da Odebrecht, a Lava Jato havia migrado do núcleo que circundava o PT para a cúpula dos mais diversos partidos. Agora, a delação da JBS mostrava que haveria um “fim do mundo” ainda mais espetacular que o primeiro, reforçam a percepção de que a corrupção atingiu todos os níveis e quem ainda detém poder e voto no Congresso avalia qual a melhor estratégia para tentar escapar. Nas contas do “homem da mala da companhia”, o diretor de relações institucionais Saud, a empresa pagou 600 milhões de reais em propinas a 1.829 candidatos de 28 partidos. É este grupo ecumênico de atingidos que se divide entre os que pedem a queda imediata de Temer e os que pedem parcimônia.

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