Marcelo Odebrecht:sotaque baiano
em imagens e áudios arrasadores.

ARTIGO DA SEMANA

Pororoca da Odebrecht com sotaque baiano no rio da Lava Jato

Vitor Hugo Soares

Quase no fim da Quaresma 2017, vésperas das malhações e queimas de Judas. Na Bahia, no Nordeste e em muitas outras partes do País vive-se um período de vertiginosa crise política, financeira e moral, mas tempo farto e sugestivo de personagens para pendurar no poste (corruptos e corruptores à granel na política, no governo e no empresariado). Para jogar luz e facilitar escolhas, eis que o jornal Estadão produziu, no começo desta semana, um furo jornalístico de dar inveja na concorrência: jogou na rua a verdadeira lista de Fachin, com a determinação de abertura de investigação que coloca sob a mira da polícia e da lei gente de mando e alto coturno: oito ministros do governo Temer, três governadores, um ministro do TCU, 29 senadores, 42 deputados e outros 25 políticos. No bolo, cinco ex-presi dentes da República.

Se não bastasse, começou a circular, como previsto, uma saraivada de áudios e imagens gravados durante depoimentos de ex-executivos do Grupo Odebrecht, delatores no processo da Lava Jato. Material armazenado em super concentrados HDs, entregues virgens, pelos veículos de comunicação interessados, ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, e recebidos de volta, carregados de conteúdo que faz tremer boa parte do chamado mundo político e governamental só em pensar no estrago já produzido até esta Sexta- Feira Santa, e no que ainda está a caminho.

Uma prévia de estarrecer e levantar ondas monumentais de espanto, vergonha e indignação Brasil e mundo afora, veio, já na quarta-feira, de Curitiba, onde o juiz Sérgio Moro, condutor do processo, disponibilizou para divulgação, áudios de depoimentos dos dois maiorais do mais poderoso grupo de construção civil e petroquímica do Brasil: o patriarca Emílio Odebrecht, o dono, e seu filho Marcelo, ex-presidente executivo da empresa, preso há mais de um ano, numa cadeia no Paraná. Não darei detalhes do conteúdo arrasador desses áudios e imagens, não só porque boa parte já é de conhecimento geral, mas também por falta de espaço e de estômago.

Acho relevante, porém, registrar alguns aspectos específicos, regionais, soteropolitanos, para ser jornalisticamente mais exato. A começar pelo forte e carregado sotaque baiano, nos áudios das delações gravadas dos dois chefes principais e de outros executivos da empreiteira. No caso de Marcelo, por exemplo, o ex- príncipe das colunas sociais da Bahia, nem parece o mesmo sujeito arrogante e sofisticado do primeiro depoimento depois de preso. Fala agora até com cacoetes regionais do tipo “veja bem”, quando quer chamar a atenção da autoridade, para as informações que considera mais importantes na sua delação, ou reveladores de seu protagonismo nas tramas dos negócios e do poder. Faz chacotas, revela apelidos desmoralizantes, ri com desprezo de gente da política e dos governos que corrompeu com propina, favores e escandalosas transações. “Dá aula de corrupção”, como sintetizaram, com perfeição, William Bonner e Renata Vasconcelos no final do Jornal Nacional, na quinta-feira.

O velho e experiente patriarca, Emílio, é ainda mais típico no jeito irônico e matreiro de falar no depoimento ao juiz. É impiedoso também, quando acha que chegou a hora de meter a faca, na expressão soteropolitana. E assim tentar salvar o que ainda resta de seu império, ou tirar simplesmente o filho da prisão.
Dois momentos, no particular, são emblemáticos. Primeiro, quando ele fala dos primórdios da sua ligação pessoal com Lula, e afirma que ajudou o criador do Partido dos Trabalhadores até “na redação da Carta ao Povo Brasileiro”, no meio das dificuldades de conquistar setores empresariais, na campanha presidencial. Depois, quando o dono da Odebrecht, em encontro com Lula já no Palácio do Planalto, adverte o criador do PT, agora no comando da Nação, sobre a fome insaciável por dinheiro, dos integrantes do seu partido: “Seu pessoal está com a goela muito aberta, passando de jacaré a crocodilo”, avisa o empresário ao político, e sorri com ironia ao narrar o fato ao juiz.

“Amaldiçoado seja aquele que pensar mal desta história”, diriam os franceses, mais ironicamente ainda. Dito assim, talvez, fica mais fácil para a sociedade brasileira e o resto do mundo entender porque a divulgação da lista de Fachin, seguida de áudios e imagens, produziu o estrondo e o efeito expansivo de uma Pororoca gigante da região amazônica. Para este jornalista, o fenômeno devastador desta Semana Santa ajudou, também, melhor compreensão de várias partes da esfinge desenhada pelo juiz Sérgio Moro, na relevante entrevista concedida ao jornal Clarin, em Buenos Aires, depois de visita e conferência consagradoras na capital da Argentina. Não cabe detalhar neste artigo toda a conversa de Moro com o jornalista Cláudio Savoia. Está na web e pode ser lida na íntegra pelos interessados.

Destaco apenas a parte em que o magistrado afirma que “a Lava Jato já chegou à metade do rio”, mas se recusa a fazer prognósticos sobre prazos de um desfecho de agora em diante. “Já o fiz no passado e me equivoquei”, responde o juiz, e sorri, segundo o jornal portenho. Quem sabe, imaginando a gigantesca e arrasadora pororoca que agora explode com a divulgação da Lista de Fachin? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 16 abril, 2017 at 1:27 #

Caro VHS

Sugiro leitura deste artigo do Josias:

“PT e PSDB amavam Odebrecht enquanto fanáticos se odiavam em praças públicas

Josias de Souza 15/04/2017 18:38″

Nele, a melhor exegese do momento em que as latrinas da máfia odebrechtiana estão vazando em mídia pública.

É para petistas e tucanos sangrarem suas estultices ditas políticas.

Nada mais bizarro do que o choro de quem acreditou nesta corja.

Disto, este poeta está livre, nunca me enganaram!


luiz alfredo motta fontana on 16 abril, 2017 at 1:32 #

Quiçá, após a ressaca, e a vergonha, estes eleitores aprendam a farejar os excrementos que acalentaram em urnas, com a desculpa de estarem cumprindo com um dever cívico.


luiz alfredo motta fontana on 16 abril, 2017 at 1:38 #

Ao mais, não me venham com Lídices, Marinas e quejandos, que só diferem pela pequenez da mordida, venderam-se por poucas moedas, faz sentido, afinal, apresentam-se como terceira via.


vangelis on 16 abril, 2017 at 20:47 #

BRAVO! PALMAS PARA O POETA! EM TOTAL ACORDO COM AS AFIRMATIVAS…


Cida Torneros on 18 abril, 2017 at 6:07 #

A lista de Fachin sob a proteção de Carmen Lúcia, deve e pode ser a difícil retomada de nossa sociedade diante do terremoto ou tsunami via ladroagem explícita que nos assolaram nos últimos 30 ou 40 anos. Hora de reerguer dos escombros e reconstruir um país viciado em troca de favores e falta de vergonha na cara. Juventude brasileira, uni-vos! Hora de limpeza total. Faxina no Congresso e nos Executivos e legislativos em todos os níveis. Que o Judiciário tenha isenção e nos garanta justiça afinal!


Cida Torneros on 18 abril, 2017 at 6:10 #

vangelis on 18 abril, 2017 at 9:14 #

HAIKAI – Nessa safra de MILHÔES a semente É MILHO…

hahahahahahahahaha


reder on 19 abril, 2017 at 21:34 #

___123___Audios e imagens de donos da Odebrecht liberados pelo Supremo junto com a lista de Fachin devastam biografias e causam pororoca politica com sotaque baiano | Bahia em Pauta___123___


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