RESENHA E PERFIL

A DESORDEM MUNDIAL SEGUNDO MONIZ BANDEIRA

Lucia Jacobina

É cada vez mais difícil entender o mundo onde vivemos e os conflitos que diariamente são mostrados pela imprensa. A distância entre o Brasil e os países beligerantes se, felizmente, nos põe a salvo do alcance direto de suas disputas, por outro lado instiga nossa curiosidade sobre os reais motivos dessa instabilidade entre os envolvidos.O terrorismo, o fundamentalismo religioso, a dominação econômica exercida através da interferência estrangeira na soberania de nações, o protagonismo norte-americano e as ideologias políticas continuam exercendo poderosa influência no relacionamento entre os povos e cavam um fosso cada vez mais profundo entre Oriente e Ocidente

Depois das duas guerras mundiais e do período da guerra fria entre EUA e URSS, a dissolução pacífica do império soviético pareceu dar ao mundo o exemplo de que era possível a uma grande potência renunciar ao seu poderio bélico e dominador permitindo que os vários territórios ocupados voltassem a se autodeterminar. Evidente que não foi esse o verdadeiro motivo. Ao mesmo tempo, em sentido agregador, os países da Europa, rivais empedernidos, decidiram unir essa pluralidade numa única identidade sem fronteiras, sob o estímulo de uma moeda única e instituições políticas supranacionais, o que até o presente concretizou-se em parte, mas já apresenta sinais de desmoronamento.

Novas hostilidades passaram a ocupar o noticiário com uma intensidade crescente, envolvendo guerras civis, atos terroristas, intolerância religiosa entre cristãos e islamitas e a antiga rivalidade entre Rússia e América retornou ao front, seja onde for o momentâneo palco do conflito.

Todas essas circunstâncias e seus desdobramentos estão muito bem analisados por Luiz Alberto Moniz Bandeira em seu novo livro ”A Desordem Mundial – O Espectro da Total Dominação – Guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanitárias”, lançado em outubro do ano passado pela Editora Civilização Brasileira. Eis um relato essencial para a compreensão de fatos diuturnamente apresentados pela imprensa para um público perplexo, pois realizado por um observador que,aos oitenta e um anos de idade, conta com a experiência de uma vida dedicada ao estudo do panorama mundial, além de dispor, no cargo de Cônsul Honorário do Brasil em Heidelberg, Alemanha, de posição privilegiada para ter acesso às fontes de informação e de decisão políticas.

Autor de obras como “Formação do Império Americano”, “A Segunda Guerra Fria” e a “Reunificação da Alemanha”, sobre história e política no plano internacional, com alguns títulos traduzidos para o alemão e o inglês, o renomado cientista político e professor escreveu ainda “A expansão do Brasil e a formação dos Estados na Bacia do Prata”, “O governo João Goulart”, “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, “Fórmula para o caos – A derrubada de Salvador Allende”, “De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina”, “O Milagre Alemão e o desenvolvimento do Brasil”, “As relações perigosas: Brasil – Estados Unidos – Conflito e integração na América do Sul”, dentre muitas outras igualmente importantes.

Para quem ainda não sabe, Moniz Bandeira apresenta-se como um orgulhoso baiano de nascimento, cujas origens familiares remontam à época colonial, motivo porque escreveu importante estudo acerca da presença lusa na Bahia, em sua obra “O Feudo – A Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil”, no qual narra a trajetória de seus ancestrais.

Foi aqui mesmo em Salvador que começou a ser educado, até que em meados da década cinquenta (54/55) resolveu transferir-se para o Rio de Janeiro onde concluiu seu curso universitário. Teve atuação destacada como assessor de Leonel Brizola e no magistério, exerceu a cátedra de política exterior do Brasil, na UNB, hoje aposentado, além de professor e conferencista visitante em várias universidades da Europa, Estados Unidos e América Latina. Sua vasta bibliografia mostra um conhecimento invejável de história e geopolítica e através dele tem escrito sobre os problemas brasileiros, latino-americanos e europeus, além de discorrer sobre a predominância do capitalismo norte-americano e dos ideais socialistas no mundo, tanto que está ultimando a reestruturação de seu livro “O Ano Vermelho” para reeditá-lo em dupla comemoração, ao cinquentenário de seu lançamento e ao centenário da Revolução Russa.

Lúcia Leão Jacobina é ensaísta e autora de “Aventura da Palavra”.

Comentários

Daniel on 11 abril, 2017 at 17:39 #

Não é por nada, mas sinto que “comemoração” e “revolução russa” não deveriam integrar a mesma frase.

É preciso relembrar de que estamos falando de um regime absolutamente opressor e de atrocidade indefensável.


Lucia Jacobina on 11 abril, 2017 at 18:49 #

Daniel, acho muito interessante sua observação. É para se considerar doravante o emprego do termo comemoração a determinados eventos históricos. Todavia, devo lhe dizer que examinada do ponto de vista da evolução da sociedade soviética, pode-se apontar como ponto positivo a transição de um sistema quase feudal para a industrialização. Por outro lado, contrariando ainda mais a doutrina marxista, a Rússia serviu apenas aos interesses do capitalismo que financiou alguns dissidentes políticos russos exilados para tentar salvar a Alemanha de perder a 1ª Guerra Mundial, o que nem assim deu certo. A “Desordem Mundial” aborda com muita propriedade esse tema, assunto também do livro “Os Tres Imperadores”, de Miranda Carter e da série “Fall of Eagles”, da BBC, em DVD, infelizmente não lançada ainda no Brasil. E durante a sobrevivência desse regime muitas atrocidades foram cometidas, sobretudo durante o stalinismo.


Daniel on 12 abril, 2017 at 14:58 #

O mercantilismo – e mais tarde o capitalismo – que nos tirou do feudalismo. O ideário socialista/comunista, apensar de se anunciar como a redenção da humanidade e o passo derradeiro para um “mundo ideal”, apenas trouxe perseguição, totalitarismo e genocídio.

E, como se sabe, essas experiências desastrosas não ficaram confinadas na União Soviética. Foram também vistas na China de Mao, na Coreia do Norte de Kim Il-Sung, na Cuba de Fidel, no Vietnã de Pol Pot e na Albânia de Hoxha (apenas para citar alguns), até o tão proclamado e vigoroso “socialismo do século XXI”, mais uma tragédia ideológica alcunhada como “bolivarianismo”.

E o resultado não poderia ser diferente: mais uma tragédia humanitária.

Qual será a próxima?


Daniel on 13 abril, 2017 at 1:41 #

Bom, não pretendo investir em debate possivelmente infrutífero. Encerro minha participação neste post indicando um documentário de vital importância para a dissociação de falsas teorias culturais e esclarecedora quanto ao verdadeiro modelo comuno/socialista.

https://www.youtube.com/watch?v=yt6ErIvjSV0


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