DEU NA COLUNA DE ARTUR XEXÉO , NO JORNAL O GLOBO. REPRODUZIDO PELA AUTORA TEATRAL E CRONISTA ANINHA FRANCO, EM SEU ESPAÇO NO FACEBOOK. BAHIA EM PAUTA REPRODUZ E RECOMENDA. (Vitor Hugo Soares)

CRÔNICA

Mexeu com a minha geração…

Artur Xexéo

José Mayer seguiu uma trajetória na televisão com personagens sedutores. Algumas das principais atrizes de telenovelas fizeram par romântico com ele, que, com a ajuda de autores e diretores, construiu uma imagem de galã irresistível. Mayer era, até muito pouco tempo, o garanhão das oito da noite. A gente sabia que a personagem de qualquer atriz que dividisse a cena com ele a certa altura da trama estaria apaixonada.

Na semana passada, quando foi acusado de assédio sexual por uma figurinista da Globo, Mayer, num primeiro momento, tentou fazer crer que a denunciante confundia realidade e ficção, ator e personagem. Que era a personagem da ocasião — o Tião Bezerra de “A lei do amor” — quem desrespeitava as mulheres.

“Sempre busquei e encontrei respeito e confiança em todos que trabalharam comigo”, disse ele numa nota oficial. Em menos de 24 horas, descobriu-se que quem confundia realidade com ficção era o próprio José Mayer.

Se não fosse assim, o que teria levado a atriz Letícia Sabatella a escrever “José Mayer não se emenda” numa rede social, quase ao mesmo tempo em que o ator se dizia cheio de “respeito e confiança”? Então o comportamento abusivo do ator era conhecido pelos colegas? Já se pode falar em comportamento abusivo porque, em seguida, o próprio José Mayer admitiu a culpa. Numa carta aberta, ele admitiu: “Tristemente, sou fruto, sim, de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”.

Muita gente achou corajosa a carta de José Mayer. Pode ser. Mas foi equivocada também. A que geração ele se refere? Eu sei que estou acabado, que pareço mais velho, que não convenço ninguém como sedutor, mas sou dois anos mais moço que o ator. Ou seja, somos da mesma geração. E nunca aprendi que machismo pode ser confundido com brincadeira. Tenho orgulho da minha geração. Fui adolescente nos anos 60 do século passado, a década que Zuenir Ventura definiu como a que mudou tudo. Foi durante a minha adolescência que começou a revolução sexual. Vi a mulher ganhar independência com o uso da pílula anticoncepcional. Acompanhei a explosão da contracultura. Desde pequenininho, sei que homens e mulheres têm direitos iguais, e esse é o pensamento que marca a minha geração. Se, até hoje, José Mayer acha que seu desvio de comportamento — um desvio que ele mesmo admite, e só por isso estou falando disso aqui — tem a ver com a época em que nasceu, lamento que ele não tenha aproveitado toda a excitação que a mudança de costumes provocou a partir da metade do século XX.

“O mundo mudou”, escreveu José Mayer. “E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele”. Mudou mesmo. Mas mudou há 50 anos. Tristemente, o ator descobriu essa mudança só agora. Talvez seja tarde demais.

______

Não quero que pareça implicância, mas se esse movimento neofeminista deixasse de usar expressões pretensiosas como “empoderamento” e “subalternidade”, tenho certeza de que a sua luta seria ainda mais bem-sucedida.

______

Dona Candoca é, antes de tudo, uma crédula. Ela assiste às novelas e acredita que tudo que vê é verdade. É por isso que, de uns dias para cá, dona Candoca deu pra dizer que ninguém mais morre afogado no Brasil. Tem sempre um índio por perto, pronto para evitar qualquer tragédia. Isso porque, logo no primeiro capítulo de “A força do querer”, dois meninos que caíram num rio no Pará foram salvos assim por um índio que estava passando. Como, duas semanas antes, o mesmo tinha acontecido com o personagem de Chay Suede em “Novo mundo” (só que em vez de um rio era o Oceano Atlântico mesmo), e, numa novela anterior, “Velho Chico”, também havia índios salvando afogados, dona Candoca achou muito natural acreditar que a Globo estava mostrando uma tendência. A outra possibilidade seria apostar na falta de criatividade de nossos novelistas. E dona Candoca jamais iria por este caminho.

______

Nos meses que antecederam a última entrega do Oscar, muito se falou de “The founder”, o filme que conta a história da expansão do McDonald’s de um sucesso local (uma lanchonete em San Bernardino, na Califórnia) para um fenômeno planetário. Que estaria indicado para a categoria de melhor filme, que Michael Keaton receberia mais uma indicação para melhor ator, que o roteiro deveria ser lembrado… Não aconteceu nada. “The founder” não ganhou uma só indicação, não foi um grande sucesso de bilheteria e passou despercebido pelos cinemas. Agora que está sendo exibido no Brasil, com o título esdrúxulo de “Fome de poder”, a gente entende por quê. Baseado numa história real, a de como um vendedor de mixers para fazer milk-shakes se torna dono da maior rede de lanchonetes do mundo, “Fome de poder” engana o espectador. A gente começa acompanhando a trajetória de um herói, de um empreendedor, de um homem que sabe aproveitar uma oportunidade e, quando o filme faz com que a plateia torça por esta personagem, ele mostra a verdadeira face de seu protagonista: um golpista, autor de um dos maiores “roubos” de toda a História. O público sente-se enganado por torcer por um mau-caráter. E dá vontade de nunca mais entrar num McDonald’s durante o resto da vida.

Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: