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Postado em 06-04-2017
Arquivado em (Artigos) por vitor em 06-04-2017 00:14


Renan no plenário do Senado, no dia 7 de fevereiro.
Ag Senado


DO EL PAÍS

Afonso Benites

Brasília

Renan Calheiros é o tipo de político que não dá ponto sem nó. Nas últimas semanas, o senador pelo PMDB de Alagoas mirou sua artilharia para o Palácio do Planalto e tratou de criticar o presidente Michel Temer, seu correligionário com quem demonstrava estar em sintonia até há alguns dias. Disputa por mais cargos na máquina pública e, principalmente, o cenário eleitoral desfavorável para ele em 2018 são algumas das razões que o fizeram tanto atacar o presidente.

Quatro fatos pesam contra Calheiros. Ele é réu no Supremo Tribunal Federal por desvio de dinheiro público. É investigado na Operação Lava Jato, articulou para manter os direitos políticos de Dilma Rousseff (PT) no processo de impeachment e é aliado do Governo impopular de Michel Temer. A alternativa para dar a volta por cima seria, nesse momento, tentar fazer o único movimento que ele poderia, que é se desvincular da gestão Temer. Nem que para isso seja necessário que o peemedebista camaleônico volte a se aproximar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um nome ainda forte no eleitorado nordestino e alagoano.

A operação de divórcio público do Planalto tem sido costurada com críticas foram pesados. Renan Disse que Temer é o Dunga (ex-treinador da seleção brasileira), porque escala mal seu time no momento em que o Brasil precisa de um Tite (o atual treinador). Afirmou que Eduardo Cunha, o ex-presidente da Câmara que está preso e condenado na Operação Lava Jato, é o Marcola do Governo Temer porque mandava na presidência de dentro de uma prisão, assim como o líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. E, nesta semana, disse que, se continuar como está, o “Governo vai cair para um lado, e o PMDB, para o outro”.

“Temer não tem para onde ir. Assim como a Dilma [Rousseff] não tinha um ano atrás”, disse o senador a um grupo de colegas em um jantar na casa da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) na noite de terça-feira. O rega-bofe foi visto como uma demonstração de força que Renan tem junto aos outros senadores peemedebistas. Ao menos 12 dos 22 senadores da bancada peemedebista estiveram na reunião.

Senador desde 1995, presidente da Casa em três ocasiões, Renan corre o risco de não se reeleger ao cargo que lhe deu todo destaque político e o transformou em um cacique político em seu Estado, fazendo com que elegesse seu filho governador em 2014 _outro que também vê ameaçada a possibilidade de continuar no poder. Uma pesquisa eleitoral do Instituto Paraná mostra que Renan seria a terceira opção para o Senado em 2018 em Alagoas. No próximo ano, os eleitores escolherão dois senadores por Estado.

“Seus movimentos são bem pensados. Ele está de olho nas urnas. Ele está sem manchetes, sem espaços no Governo, então precisa aparecer de alguma forma para tentar garantir votos”, analisou o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).

Ainda nesta seara local, o senador se viu em uma enrascada. O seu apadrinhado para o ministério do Turismo, o deputado federal Marx Beltrão (PMDB-AL) quer concorrer ao Senado em 2018. Sondagens internas do PMDB alagoano mostra que ele teria chances de se eleger, o que excluiria de vez Calheiros do tabuleiro político. Sua alternativa seria concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados. “Tudo o que ele não quer é virar deputado. Lá ele não terá poder nenhum, como tem aqui”, afirmou um senador peemedebista.

As críticas de Calheiros contra Temer se voltam, principalmente, para duas iniciativas apoiadas pela gestão, a lei da terceirização, recentemente sancionada, e a reforma previdenciária, em tramitação na Câmara. Como alguns peemedebistas também criticam essas propostas, ele tenta angariar apoio a suas demandas.

O Palácio do Planalto tentou não acusar a gravidade do golpe vindo do líder do PMDB no Senado, mas não consegue fechar os olhos para mais uma crise política que pode complicar os planos reformistas da gestão. Nos últimos dois dias, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), conversaram com Calheiros para tentar amainar os ânimos. Não tiveram nenhuma resposta.

O próprio Temer resolveu agir. Diante das reclamações de Renan de que as reformas têm sido paridas a fórceps no Congresso Nacional, o presidente chamou senadores aliados para conversarem com ele na noite desta quarta-feira no Palácio do Jaburu, a residência oficial da vice-presidência, onde o presidente preferiu morar. Determinou ainda que seu líder do Governo Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), fizesse declarações públicas a favor de sua reforma previdenciária, tudo para criar mais nuvens em um cenário nem tão claro. Disse Jucá: “A construção da proposta da reforma da Previdência está sendo feita em conjunto com deputados e senadores. Este entendimento está sendo feito não só para espelhar a posição técnica mas também a expressão política da base do governo”.

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