abr
02


Cena de ‘No intenso agora’, exibido em Paris.


DO EL PAÍS

Flávia Marreiro

Paris

O corpo se curva como uma catapulta e a pedra voa na direção dos policiais. A imagem símbolo de 1968 é estudada quadro a quadro por João Moreira Salles em No intenso agora, na competição do Cinéma du Réel (Cinema do Real), festival de documentário que vai até o domingo em Paris. O filme do brasileiro, um ensaio íntimo sobre desejo vital e o movimento estudantil de há 50 anos, devolve maio de 1968 para o divã, de onde, se olhado com honestidade, ele nunca saiu. Tanto é assim que a imagem da catapulta humana retorna, em preto e branco, em Paris est une fête (Paris é uma festa), do francês Sylvain George. A produção, que retrata os protestos na capital francesa contra a reforma trabalhista em plena crise dos refugiados em 2016, também concorre ao prêmio de melhor documentário do festival.

No intenso agora é um retrato generosamente humano com quem fez 68 e politicamente duro com os que ainda tentam viver de seu espólio tantos anos depois. Não, os estudantes cheios de vida não tomaram o poder. Na verdade, eles nem tentaram, o que não quer dizer que foram exatamente derrotados, embora o filme não se preste a fazer essa deferência. Tendo sido tão felizes, poucos escaparam da melancolia de ter vivido seu mais intenso agora aos vinte e poucos anos. A história se desenrola enquanto os milionários Moreira Salles vivem em Paris. Como em seu Santiago (2007), João Moreira Salles investiga a si mesmo. Desta vez, por meio da mãe. Anos antes de maio explodir, Eliza Salles embarcava em sua experiência revolucionária, estética e vital na China de Mao Tse Tung – antes de mergulhar em profunda tristeza. João, na narração como leitura em voz alta, não contém o maravilhamento de reencontrar a mãe, ensaísta como ele próprio, em imagens, sínteses e anotações. Ninguém escapa da história nem de construir mitos sobre si mesmo, afinal.

Muito menos Paris. A potência estudantil não tem como ser um tema qualquer para a França, muito menos às vésperas das eleições presidenciais mais perturbadoras desde o fim da Segunda Guerra. É nesta tensão, palpável na plateia, que a operação de dissecar 1968 de João Moreira Salles encontra a do francês Sylvain George. O brasileiro fez um metadocumentário analisando os registros quase cinquentenários, quer seja dos protestos em Paris, da repressão na Tchecoslováquia ou do enterro do estudante Edson Luís no Rio durante a ditadura brasileira. São documentaristas anônimos, como “o rolo 127″, recuperado por No intenso agora, que filma a chegada dos tanques soviéticos em Praga, ou nomes tomados de fervor político que registram 1968 à quente na capital francesa. O festival justapôs as imagens, na programação de domingo, às filmagens de George em 2016. O francês filma o jogral dos estudantes na Praça da República, o medo da reforma trabalhista de François Hollande. Então foi desse tamanho a resistência apenas meses atrás? São as mesmas palavras de ordem contra o Estado policial, o gás, os mascarados, a pedra lançada em meio às barricadas em chamas, a correria. O país não parou, é certo, mas o repertório de 1968, filmado em preto e branco, está lá, fresco, quer na capital francesa de 2016, quer no Brasil de 2013 em diante. Sylvain George acompanha ainda um refugiado à deriva, tão longe do sonho europeu quanto da mobilização estudantil da praça. (Um corte para fora cinema mostrará que 68 e 2016 também se encontram, de certa forma. O líder estudantil de 1968, Daniel Cohn-Bendit, a estrela criativa do documentário de João Moreira Salles, apoia o candidato favorito nas presidenciais, Emmanuel Macron, o ministro da reforma trabalhista.)

Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments: