Pessoas olham para o corpo de um dos homens executados
pela polícia do Rio, nesta sexta-feira. Diego Herculano AP


DO EL PAÍS

María Martín

Rio de Janeiro

A terminologia do conflito armado é, definitivamente, parte da rotina do Rio de Janeiro. “Danos colaterais”, “front”, “soldados mortos”, “confronto”, “execução”, “bala perdida” ou “fogo cruzado” viraram palavras chaves para descrever o dia a dia de uma boa parte dos mais de 16 milhões de habitantes do Estado. Ninguém mais nega – as autoridades também falam nesses termos – que o Rio mergulhou numa guerra e esta quinta-feira foi mais um dia de triste e intensa contenda, com as imagens de dois PMs executando dois suspeitos deitados no chão e uma menina morta por uma bala perdida.

Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, foi uma das vítimas “colaterais” nessa guerra. A adolescente estava dentro da sua escola, em Acari, no subúrbio norte do Rio, quando foi alvejada no final da tarde. A família sustenta que foram quatro tiros. A menina, que fazia aula de educação física no momento, morreu no local. “A morte de um inocente é um dano colateral dos mais absurdos. O policial lida com o medo de errar, o medo de perder a própria vida e a situação fica mais tensa, mais perigosa”, disse hoje ao telejornal Bom Dia Rio o porta-voz da PM, o major Ivan Blaz.

Enquanto a escola aguardava a perícia, o corpo de Maria Eduarda, vestido com o uniforme escolar, ficou no chão se esvaindo em sangue enquanto outros estudantes e moradores da região a rodeavam. “Mataram meu bebê. Ela dizia que estudava para dar uma vida melhor para gente. Ela tinha um bom futuro pela frente. Estou com o meu coração partido, tiraram parte de mim”, disse a sua mãe em conversa com jornalistas.

Do lado de fora da escola que, segundo o jornal O Globo, já fechou 31 vezes por conta da violência entre 2014 e 2015, policiais e traficantes se enfrentavam a tiros de fuzil. O confronto que, segundo Blaz, era desigual pois os bandidos estavam mais bem armados, levou, no entanto e mais uma vez, o foco à truculência da Polícia Militar. As execuções também são parte desta guerra. As imagens são chocantes, como mostra o vídeo que acompanha esta reportagem.

Um morador gravou a ação de dois PMs que acabavam de abater dois homens armados no exterior da escola onde Maria Eduarda morreu. Enquanto os rapazes caídos ainda se mexiam, um dos policiais se aproxima e pega um fuzil do chão para na continuação atirar duas vezes contra um deles. Um segundo policial aparece na cena e se aproxima do segundo homem para também disparar contra ele. Ambos PMs foram presos em flagrante por homicídio qualificado enquanto prestavam depoimento na Divisão de Homicídios da capital. O Rio registrou 182 mortes causadas por intervenção policial no começo deste ano (janeiro e fevereiro). É 78,4% mais que o contemplado nos dois primeiros meses de 2016.

“As alegações desses policiais são de que foram encontradas com esses homens mais duas armas, pistolas. O 41º BPM (Irajá), em especial, lida com a região mais violenta do Rio. Eles vivem uma realidade de guerra, em que bandidos têm armas de guerra. Vivemos uma guerra assimétrica. E nesse caso só eles podem responder o que aconteceu”, disse Blaz.

O batalhão ao qual os PMs presos pertencem é considerado um dos mais letais do Estado e o segundo que mais confrontos protagoniza, segundo dados da própria PM. Os policiais do 41ª são responsáveis pelo patrulhamento de uma área geograficamente estratégica onde três facções disputam território e que atrai um alto índice de roubos de carga. Foi desse batalhão que saíram os soldados que assassinaram com 111 tiros de fuzil cinco jovens em Costa Barros, quando iam a caminho de uma lanchonete, em novembro de 2015.

Entre 2016 e 2017 os policiais do 41º Batalhão participaram de 285 enfrentamentos armados, acima da média mensal do Rio de 252. O Rio vive, em média, 8,4 tiroteios entre policiais e bandidos por dia, segundo esses mesmos dados. “Cabe a esses policiais ter uma chave seletora na mente deles para que sejam, ora garantidor dos direitos da sociedade, ora um guerreiro. Que ser humano consegue fazer isso? É preciso rever protocolos e coibir abusos. O que estamos vivendo hoje é um momento complexo e muito grave”, completou o porta-voz da PM.

Após a morte da menina e dos dois suspeitos os moradores da região interceptaram um trecho da Avenida Brasil, uma das mais importantes da cidade, queimaram veículos e algumas mulheres se deitaram no chão como forma de protesto. Testemunhas relataram ainda que criminosos aproveitaram o caos para realizar arrastões.

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