ARTIGO/OPINIÃO

O diabo, a carne e o mundo

Artur Xexeo

O escândalo da carne fez a Bolsa de Valores despencar em São Paulo. Mas há outros valores despencando por aí. Qual é agora o valor dos artistas que nos últimos tempos alugaram sua imagem justamente para vender carne para os frigoríficos que agora estão na mira da Polícia Federal?

O artista e a propaganda sempre mantiveram uma relação delicada. Não deixa de haver um certo cinismo na top model internacional que tenta convencer seus admiradores de que ela se veste numa rede de lojas populares. É duro ver alguns atores que já foram protagonistas de novelas vendendo na TV o serviço de financeiras. Qual é a ideia? Endividar os fãs? A questão da carne chegou ao extremo da desfaçatez quando um cantor, sabidamente vegetariano, foi contratado para vender os prazeres de uma churrascaria.

Artistas sempre justificam sua participação em comerciais dizendo que não vendem produtos que não usam ou que fazem pesquisas sérias antes de associar seus nomes a marcas. Mas a gente sabe que não é bem assim. O que conta mesmo é o número de casas decimais que consta do contrato. E, afinal, que tipo de pesquisa livraria agora os garotos-propaganda do escândalo dos frigoríficos?

Contratos como os que os frigoríficos fizeram com a imagem de artistas costumam ter o mesmo valor de um apartamento de luxo na Zona Sul do Rio de Janeiro. É muito. Ao mesmo tempo, quando acontece um escândalo como o de agora, é pouco. Basta uma acusação da Polícia Federal para a credibilidade do artista não valer nada. Eles vão ter que rebolar para terem uma imagem limpa outra vez.

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Sobre a perseguição que venho sofrendo de financeiras interessadas em me oferecer empréstimo consignado desde que me aposentei, o Banco Itaú abre alas e pede passagem para dizer que não tem nada a ver com isso. Em outras palavras, o banco me jura que estão usando seu santo nome em vão. Não entendo o propósito, mas acredito. Assim, o principal suspeito de repassar meus dados pessoais para o mundo financeiro, contrariando o direito à privacidade de qualquer beneficiário, é mesmo o INSS.

E deixo aqui, no que pode ser o começo de uma fita banana, as sugestões do leitor José Araujo para se livrar do assédio:

“A insistência dos serviços de telemarketing é irritante e, para os aposentados, o telemarketing dos bancos oferecendo consignado extrapola os limites do razoável. Não adianta pedir para não insistirem, os operadores ganham por ligação e comissão por negócio concluído. Eis algumas sugestões testadas e aprovadas para tratar as ligações indesejadas:

1. Quando ligarem e se identificarem como sendo de um banco oferecendo o consignado, diga na mesma hora: ‘um momento, por favor’ (bom ser educado, não é?). Deixe o operador de telemarketing esperando. Em menos de cinco minutos, ele desiste.

2. Uma pequena variação da técnica anterior. Você deve se lembrar das caixinhas de música próprias para telefones que existiam antigamente (é possível que você encontre em lojas de antiguidades) e que tocam ‘Pour Elise’, de Beethoven. Ative a caixinha de música e deixe o operador ouvindo a música. Hoje em dia você pode obter versões digitalizadas da mesma música. Outra opção: se você tiver um instrumento musical, pode aproveitar para praticar com um ouvinte cativo. Tenho uma amiga aposentada que gosta de Chopin, tem um piano e aproveita as ligações de telemarketing para se exercitar. Esta técnica tem um efeito colateral que é o de disseminar um pouco de cultura para os operadores de telemarketing.”

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Devo informar que venho usando a primeira técnica. E não é que tem dado certo?

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Outra fita banana que vem nos perseguindo é a busca para entender o mistério de “La la land”. Agora, é a leitora Thereza Christina Rocque da Motta quem tenta explicar: “Porque nunca houve nem haverá um filme como ‘La la land’. Ele não se parece com nada que foi feito antes e não poderá ser repetido depois. Ele misturou tudo e reinventou o musical. Criou diálogos que podem ser analisados separadamente ou em conjunto. Criou músicas, cenas inesquecíveis.

E entrou para o panteão dos filmes consagrados como ‘O mágico de Oz’, ‘Cantando na chuva’ e ‘Casablanca’. Ele é irrepetível e não repete ninguém. Por isso é único e encanta todos que se deixam embalar pela canção. Também já assisti três vezes e verei todas que puder. É o melhor filme de todos os tempos. Ninguém esquecerá dele.”

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Para quem não entendeu o título desta coluna, explico que era como se chamava um filme que assombrou a minha infância. Passou no Metro Copacabana. O mundo tinha acabado e só sobravam Harry Belafonte, Mel Ferrer e Inger Stevens vagando por uma Nova York desabitada. Como esta semana tinha carne como assunto, como o mundo é sempre assunto e como o diabo não nos deixa em paz, achei que tinha tudo a ver.
O diabo, a carne e o mundo
O artista e a propaganda sempre mantiveram uma relação delicada

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