ARTIGO

Lula deveria sentir-se honrado

Janio Ferreira Soares

Segundo Milton Nascimento, sua importância é tão grande que, mesmo com a distância superando todos os limites do razoável, deve ser guardado no lado esquerdo do peito, fato prontamente confirmado por Roberto Carlos, que complementa dizendo que seu coração é como se fora uma enorme casa de portas abertas, o que o transforma na pessoa certa das horas incertas.

Já Gilberto Gil diz que ele é uma espécie de herói protegido pelas forças do universo e pelo lume das estrelas, que eternamente o alumiará e o conservará no quarto de seu coração menino, aliviando toda dor de sua solidão.

Mais dramático, o velho Waldick Soriano recorre a ele para levar sua carta àquela ingrata que, por dispensá-lo, tem que saber-se culpada pelo nosso caubói vagar nos cabarés da vida com os olhos rasos d’água e o coração cheio de mágoa, morrendo de amor.

Com a leveza de um bom caipira, Renato Teixeira diz que é natural do afeto o aperto de mão, o abraço e o sorriso, e que sua casa está sempre aberta àqueles que não trazem na boca palavras fingidas.

Pois muito bem, eu poderia ir até o final apenas citando trechos de canções que versam sobre a expressão implícita acima, mas aí ela perderia o elo com o sujeito que titula o texto, ultimamente bastante mencionado nos jornais como sendo o provável “Amigo” que consta na lista de propina da Odebrecht. Verdade ou não, só me resta dizer uma coisinha ao ex-presidente: que moral, hein, companheiro?

Num cardápio cheio de codinomes como Boca Mole, Angorá, Todo Feio, Bitelo, Gripado, Caranguejo, Misericórdia, Moleza, Decrépito e que tais, ser alcunhado de Amigo, convenhamos, soa até como um elogio. Aliás, suspeitas e interesses à parte, solto aqui duas perguntinhas que têm a ver com as canções lá de cima.

Independentemente do contexto, por que Lula não pode ter sido, sim, um irmão camarada da Odebrecht, como canta Roberto na sua homenagem a Erasmo?

Do mesmo modo, por que Aécio não pode ter sido o amigo guardado sob as sete chaves da canção de Milton e Brant, das empreiteiras que construíram a Cidade Administrativa de Belo Horizonte?

A propósito, agora que a delação juntou os dois no barco a caminho da travessia de Caronte, imagino-os num encontro casual num boteco em Curitiba, com a adaptação da letra de Amigo é Pra Essas Coisas, do grande Aldir Blanc, puxando o mote do papo.

“Salve!”. “Como é que vai?”. Amigo, há quanto tempo!”. “Um ano ou mais…”. “Posso sentar um pouco?”. “Faça o favor”. “A vida é um dilema”. “Nem sempre vale a pena”. “O que que há?”. “Moro acabou comigo”. “Toda malandragem um dia chega ao fim”. “Eu desejava um trago”. “Garçom, mais dois”. “Você está mais velho”. “Também sofri”. “Mas não se vê no rosto”. “É que eu tenho o Gilmar pra compensar o Moro”.

A conta? Você sabe quem paga.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Grancisco.

Comentários

Mariana Soares on 19 março, 2017 at 12:43 #

Que texto!!! Sensacional!!! Muito, muito, muito bom!


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