Depoimento de Emílio Odebrecht
ao juiz Sergio Moro…


…respinga na memória de Norberto.

ARTIGO DA SEMANA

Odebrecht: “escola de corrupção da Bahia para o mundo”

Vitor Hugo Soares

“Ninguém vê, ninguém fala nem impugna,/ e é que quem o dinheiro nos arranca,/ Nos arranca as mãos, a língua, os olhos.// Esta mãe universal,/ Esta célebre Bahia/ que a seus peitos toma e cria,/ os que enjeita Portugal”… (Versos do soneto “Senhora Dona Bahia”, de Gregório de Matos Guerra, o poeta lírico, religioso e satírico do Sec. XVII em Salvador, apelidado de Boca do Inferno.
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Desculpem o mau jeito, mas é inevitável a recordação de Gregório de Matos, nestes dias infernais de março de 2017. Mais ainda, na sexta-feira, 17, em que a Operação Lava Jato completa três anos de vida e atravessa situação crucial em seu desempenho e para sua indispensável continuidade. No meio do furdunço político causado pela lista de Janot, com os frutos da delação premiada dos donos do grupo Odebrecht (e de alguns dos principais ex-executivos do “polvo insaciável”) .

Conteúdo que o Procurador Geral da República mandou despejar – irônica e simbolicamente conduzidos em carrinhos de mão – na sala com estrutura da caixa – forte do Supremo Tribunal Federal, sob as vistas e vigilância da ministra presidente da Corte, Cármen Lúcia. Símbolos referenciais para todos os lados e para todos os gostos, já se vê. E a sátira do século XVII, ferina, bem humorada e atual, para nos ajudar a entender o lugar onde aportou a “máquina mercante”, agora governado pelo petista Rui Costa ( apontado no noticiário das últimas horas como um dos mandatários regionais citados na lista de Janot), e o País sob o comando de Michel Temer e seu PMDB, nos dias que correm.

Também ajuda, por exemplo, na compreensão do significado nu e cru, de alguns trechos do depoimento de Emílio Odebrecht – presidente do Conselho de Administração do mais poderoso grupo de engenharia do Brasil e da América Latina, com tentáculos espalhados pelo mundo, nos últimos 15 anos – ao juiz federal Sérgio Moro, condutor da Operação Lava Jato. Destaque especial para a confissão de que o Caixa 2 é uma das mais antigas, preservadas e ampliadas tradições históricas da Odebrecht: “Sempre existiu desde minha época, da época do meu pai e também de Marcelo”, contou o empreiteiro ao magistrado, na última segunda-feira. Marcelo é filho de Emílio, ex-presidente do conglomerado de negócios, no campo da engenharia e da petroquímica (e de muitos outros), até ser preso em uma das 38 fases da Lava Jato e levado para uma cadeia em Curitiba, (onde ainda permanece) condenado como um dos cabeças do Petrolão, o maior escândalo de corrupção da história do Brasil.

Mas que parece só engatinhar, ainda, a deduzir pelo potencial explosivo e devastador do farto material mandado pela PGR para a aguardada avaliação do ministro Edson Fachin, no STF, com a devida e essencial quebra do sigilo do conteúdo: documentos, textos, áudios e vídeos. Um estrago geral e transversal a partidos políticos, parlamentares, ministros, ex-presidentes e governantes no pleno exercício do poder, eis o mínimo que se espera das revelações, inquéritos, processos e julgamentos que deverão se seguir. A conferir.

Emílio é filho do falecido Norberto, descendente de outro Emílio, o patriarca da família alemã que aportou em terras de Pernambuco. Norberto, nascido em Recife em 1920, com 5 anos de idade mudou-se com a família para a capital baiana, onde transformou-se na principal viga e responsável pela construção do vasto e poderoso império de negócios que se conhece, mas não dá para contar tudo neste espaço.

Jovem recém formado, pela Escola de Jornalismo da UFBa, conheci mais de perto o “velho Norberto” ao chegar na redação do jornal A Tarde, ainda no prédio histórico da Praça Castro Alves. Era, sem dúvida, um tipo humano singular e impressionante, dos mais reverenciados de Salvador, já naquele começo dos anos 70, do país sob ditadura. Vestido quase sempre em traje de linho branco, impecavelmente bem talhado e sem vincos, Dr. Norberto (como era tratado no jornal) , apesar da procedência germânica, sempre pareceu aos olhos do cético e desconfiado repórter, um daqueles lordes ingleses, dos filmes americanos rodados na Índia, sob dominação colonial. Guardava um pouco, também, semelhança com retratos de tipos afro-brasileiros, que ainda se vê aqui e ali, em Salvador, até hoje, mas que marcaram época, principalmente, nas páginas dos romances e outros escritos de Jorge Amado.

O depoimento de Emílio, ao juiz Sérgio Moro, porém, ajuda agora o jornalista, rodado em largas décadas de profissão, a entender melhor e mais claramente a relação de Norberto Odebrecht e o relevo deste personagem da Bahia em seu tempo. A unanimidade reverencial que cercava por todos os lados a sua figura e as suas ações, como verificaria depois já no Jornal do Brasil: políticos, empresários, dirigentes de históricas entidades das classes produtoras, imprensa, donos do poder em diferentes períodos de tempo, regimes e governos. Conservadores, progressistas, comunistas, direitistas , pessedistas, udenistas, gente da Arena e do MDB. Ou simplesmente “dinheiristas”, como sintetizava meu saudoso pai, ao referir- se a alguns tipos, em seus relatos.

Para terminar, busco as palavras do professor Edson Pitta Lima, coordenador geral da Universidade Polifucs, especialista em Programação Global, formado pelo Instituto Latinoamericano de Planificação Economica y Social, mestre acatado da Faculdade de Economia da UFBA, conhecedor e crítico das empresas baianas e seus homens de negócios. Ele postou, esta semana, em seu espaço de informação e análise, nas redes sociais, um comentário que considero oportuno, contundente e essencial. “O depoimento de Emílio Odebrecht comprova o que já afirmei: a empresa era uma escola de corrupção desde a época do velho Norberto. Satisfazer o cliente significava, satisfazer o fiscal de obras, quem liberava o dinheiro, quem liberava e aprovava a medição, quem julgava a concorrência, etc. etc. Sempre foi membro de primeira hora do Ethos, entidade empresarial voltada para a ética nos negócios. Quem acredita que Marcelo e Emílio estão falando toda a verdade? Quem acredita que para o futuro a empresa vai passar a ser honesta? Eu acho que a onça perde o pelo mas não perde as manchas”.

A conferir com o tempo e o que virá nos desdobramentos da lista de Janot. Parabéns à Lava Jato e aos que cuidam dela, pelos três anos de intensa e brava existência. Longa vida!

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Comentários

luiz alfredo motta fontana on 18 março, 2017 at 8:49 #

Caro VHS

A província está enferma.

Norberto, Marcelo, Emílio, faces de uma só das famílias mafiosas que aportaram na tua Bahia.

Mas a doença está estampada em Lídices, este gênero comum e rasteiro, que travestido de “inocência militante” esconde, aqui e acolá, suas mazelas tingidas de cinismo.

Caro VHS, pior que Norbertos, Emílios e Marcelos, é a omertá com que os detentores de informações acobertam os patrícios atingidos pela febril benesse “odebrechtiana”.

A “Carne fraca” que contamina nossos estômagos causa menos engulhos que o compadrio provinciano.

VHS, este poeta, por vocação, distraído, confessa, está se tornando doentio o fardo de ser leitor. Não vislumbro nos que detém o poder da edição o necessário respeito aos incautos que cotidianamente são desinformados, tudo pelo vício social de isentar comadres.

Tim Tim!

Sem esperança, enquanto a Bahia, por obra do descaso com a verdade, travesti-se de valhacouto de falsos profetas.


Taciano Lemos de Carvalho on 18 março, 2017 at 9:04 #

Ótimo artigo, Vitor. Como são todos.

Quem na década de 70 na Bahia desconhecia, ou pelo menos não desconfiava, que dormia o nosso estado, tão distraído, “sem perceber que era subtraído em tenebrosas transações”?

Estudante da Escola de Administração da UFBa —talvez a mais elitista faculdade da Universidade, pelo menos naqueles tempos— ouvia, contado ou “captado”, histórias tenebrosas sobre as relações espúrias, criminosas, entre a empresa e autoridades de meu Estado. A sede da empresa ainda era no início da rodovia Salvador-Feira. A Odebrecht era apenas uma construtora atuava muito na construção de estradas.

Ah! Disse acima que a escola era a mais elitista por uma razão. Ali estudavam filhos de alguns fortes secretários do governo baiano, parentes de banqueiro (cujo o banco quebrou), de proprietários de grande veículo de comunicação, e filho de governador. E muitos professores fazia parte da elite política da Bahia. Ou da elite de gestão de empresas que se instalavam no Centro Industrial de Aratu, ou de órgão do governo do Estado da Bahia e da Prefeitura.

Ah, se falasse ou tivesse registros, aquela área que havia na porta da Escola de Administração (antiga Faculdade de Direito) da UFBa quando ainda na Avenida Joana Angélica. Alunos sentados por ali, conversas mil sobre mil coisas, inclusive a disputa entre Bahia e Vitória. E, furtivamente, segredos das tenebrosas transações. Afinal, ouvido foi feito para ouvir. Ou não?

O depoimento de Emílio ao juiz Sérgio Mouro veio provar que no DNA da construtora baiana já havia a marca da corrupção.


Taciano Lemos de Carvalho on 18 março, 2017 at 9:17 #

E muitos professores fazia = E muitos professores faziam…


luiz alfredo motta fontana on 18 março, 2017 at 9:20 #

Brasil, res nullius!

O lema desta gente é:
- “metemos a mão em tudo!”

E para completar a sandice, o voto é obrigatório!

Tradução:

Por força de lei, somos todos cúmplices dos que fingem nos representar.


vitor on 18 março, 2017 at 12:40 #

Luiz Fontana

POETAS, poetas verdadeiros ( Gregórios, Fontanas, Capinans, Lutfis) são quem nos alertam, alentam e seguram de pé. Tim Tim!!!


luiz alfredo motta fontana on 18 março, 2017 at 13:25 #

Caro VHS

Assistindo defesas, ainda que envergonhadas, com que brindam os corrompidos pela máfia empreiteira, resta pouca esperança no futuro. A dita “inteligência acadêmica’ soteropolitana esta eivada de cinismo senil, velhaco, eu diria, concernente com admiradores de “Patinhas”.

A pergunta é singela: Existe algum político baiano que não foi corrompido pelo mecenato empreiteiro nas últimas décadas?

Alguém se arrisca a indicar algum? Ou alguém ousa acreditar que doações, destes mafiosos, houveram sem nenhum laivo de corrupção?

Conheça teu quintal e estará pronto para compreender o mundo.

A verdadeira lista é interminável, se vestissem abadás deixariam o Galo da Madrugada humilhado pela pequenez.


Daniel on 18 março, 2017 at 15:11 #

É possível que a Odebrecht tenha casos de corrupção desde sempre, mas há que se destacar a relação de quase “governo paralelo” fincado nos anos de Lula e Dilma no poder.

Foi um sistema absolutamente novo e destinado, de forma única e exclusiva, a tornar possível a permanência ad aeternum deste grupo no poder.


Daniel on 18 março, 2017 at 17:12 #

Imperdível a coluna de hoje do Demétrio Magnoli na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2017/03/1867613-os-que-assinam-manifesto-volta-lula-sao-arautos-do-estado-odebrecht.shtml

“A esquerda costuma descrever o Ministério da Fazenda como instrumento dos interesses econômicos gerais da burguesia. Sob essa ótica, Lula e Dilma estreitaram sua função, convertendo-o em ferramenta dos interesses particulares de uma fração do alto empresariado que se associou à coalizão governista. Os intelectuais de esquerda que assinam o manifesto do “Volta Lula” são arautos do “Estado-Odebrecht”, versão radical, pós-moderna, do patrimonialismo tradicional brasileiro.”

“O pronome possessivo ilumina a corrupção 2.0: a Odebrecht governava em aliança com o PT. É por isso que tanto o generoso prêmio judicial pelas delações de Emílio e Marcelo quanto o acordo de leniência que se costura com a Odebrecht equivaleriam ao sepultamento da Lava Jato.

A Odebrecht ocupa lugar especial no cenário do assalto à coisa pública. As demais empreiteiras operaram segundo as regras criminosas do tal “modelo reinante”. Já o conglomerado de Emílio e Marcelo assumiu a coordenação executiva do sistema de corrupção.”


Chico Bruno on 18 março, 2017 at 17:31 #

O pior é que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. A propina continua comendo solta em todo o país.


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